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Questão de Português — Flexão verbal de modo (indicativo, subjuntivo, imperativo) — VUNESP 2020

PortuguêsFlexão verbal de modo (indicativo, subjuntivo, imperativo)
Código
vu062184
Banca
VUNESP
Órgão
SEMAE
Ano
2020
Nível
Superior
Cargo
SeMAE - Engenharia Civil

Leia um trecho do romance “A Madona de Cedro”, de Antonio Callado, para responder à questão.


      No primeiro dia no Rio de Janeiro, Delfino Montiel quase se afogou. Ele tinha aprendido a nadar menino ainda no rio das Velhas, na fazenda de seu tio Dilermando. Mas a corrente dos rios é honesta e determinada, vai reta e sempre se disciplina pelas margens. O mar... Ora, quem vai entender o mar? Delfino largou-se para o mar no mesmo dia em que chegara ao Rio. Atravessou a areia e foi entrando no mar numa espécie de exaltação. Queria chorar com aquela frescura de água azul, queria abraçar e beijar o mar. A primeira onda que lhe veio ao encontro, Delfino a recebeu de braços abertos. Ela o derrubou numa cascata de areia e espuma. Ele bebeu água, muita, mas estava embriagado de mar.

      Só quando já se achava sentado na areia, arquejante, entre uma súcia de curiosos, é que Delfino compreendeu que quase tinha morrido afogado. Um dos que o havia salvo era um rapagão simpático que lhe perguntou:

      – Você donde é que veio, patrício, de Cabrobó1 ou Caixa Prego2?

      – De Congonhas do Campo, respondeu Delfino ingenuamente.

      Muita gente riu em torno dele.

      – Pois, se você ainda quer rever Congonhas, trate o mar com mais desconfiança.

      Enquanto o rapaz se afastava, Delfino notou principalmente o riso de uma menina de cabelos cor de mel. Ele a notou porque a menina não queria exatamente rir, com pena dele que estava, mas sua companheira ria tão à vontade que ela não podia deixar de acompanhá-la.

      Com os olhos fitos nela, Delfino a foi acompanhando com a vista enquanto a menina entrava no mar. Viu logo que era uma amiga íntima do mar. Viu-a furar uma primeira onda, ligeira e exata como uma agulha mergulhando na dobra azul de um pano. Quando ela se levantou do mergulho, o cabelo cor de mel estava preto e grudado ao pescoço, preto-esverdeado, como se ela tivesse voltado mais marinha do fundo do mar.

(Record/Altaya. Adaptado)

1Cabrobó é uma cidade pernambucana no sertão do São Francisco.

2Caixa Prego significa lugar muito distante, longínquo.

Na frase do primeiro parágrafo – Delfino largou-se para o mar no mesmo dia em que chegara ao Rio. –, as formas verbais destacadas, na sequência em que estão empregadas na frase, sinalizam
  1. Aeventos que ocorreram concomitantemente.
  2. Beventos cuja realização ocorreu independentemente da vontade do personagem.
  3. Cum evento já concluído e o outro evento ainda em processo.
  4. Dum evento ocorrido posteriormente ao outro evento.
  5. Eum evento que precedeu o outro, ambos ocorridos no passado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — um evento ocorrido posteriormente ao outro evento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A relação temporal entre "largou-se" e "chegara" no trecho de Callado

Gabarito: letra D. As formas verbais "largou-se" (pretérito perfeito) e "chegara" (pretérito mais-que-perfeito) sinalizam, na sequência em que aparecem, que um evento ocorreu posteriormente ao outro: primeiro Delfino chegara ao Rio; depois, largou-se para o mar. A chave está no valor do mais-que-perfeito, que marca anterioridade em relação a outro fato passado — como se lê no trecho: "Delfino largou-se para o mar no mesmo dia em que chegara ao Rio."

A questão é de gramática aplicada ao texto: não se trata de interpretar o enredo, mas de reconhecer o valor temporal que as desinências verbais imprimem aos eventos. O comando pede que você identifique o que as formas verbais "sinalizam" — ou seja, a relação cronológica que elas estabelecem.

A regra que decide a questão

O pretérito mais-que-perfeito do indicativo (chegara) expressa um fato passado anterior a outro fato passado. É o tempo da "anterioridade": indica que a ação já estava totalmente concluída antes de outra ação também passada. Já o pretérito perfeito (largou-se) expressa um fato passado concluído, mas posterior ao mais-que-perfeito na linha do tempo.

Na frase, a ordem dos verbos na superfície é: primeiro "largou-se", depois "chegara". Mas a ordem cronológica é inversa: Delfino primeiro chegou ao Rio e depois se largou para o mar. O mais-que-perfeito "chegara" é a âncora do passado; o perfeito "largou-se" é o evento que veio depois.

"Delfino largou-se para o mar no mesmo dia em que chegara ao Rio."

Aqui, "chegara" não é apenas um passado: é um passado anterior ao "largou-se". Se o autor quisesse simultaneidade, usaria o pretérito imperfeito ("chegava") ou o perfeito ("chegou"). O mais-que-perfeito é a marca gramatical da anterioridade.

  1. Chegara (mais-que-perfeito)
  2. Largou-se (perfeito)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que os eventos ocorreram concomitantemente (ao mesmo tempo). O texto não autoriza isso: "chegara" é anterior a "largou-se". A concomitância seria expressa por tempos como o pretérito imperfeito ("enquanto chegava, largava-se"), o que não ocorre. Erro: contradiz o texto — inverte a relação temporal marcada pelo mais-que-perfeito.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que a realização dos eventos ocorreu independentemente da vontade do personagem. O texto não discute vontade: "largou-se" é uma ação voluntária de Delfino (ele "se largou", deliberadamente). A alternativa extrapola — acrescenta uma informação (a volição) que não está em questão. O foco é puramente temporal, não modal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que um evento está concluído e o outro em processo. Ambos estão no passado e concluídos: "largou-se" (perfeito) e "chegara" (mais-que-perfeito) indicam fatos acabados. Não há ideia de processo em curso — isso seria próprio do pretérito imperfeito ("largava-se"). Erro: contradiz o texto — atribui aspecto contínuo a formas perfectivas.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Um evento ocorrido posteriormente ao outro evento" — exatamente o que o mais-que-perfeito "chegara" + perfeito "largou-se" expressam. O evento posterior é "largou-se" (depois de chegar, Delfino se lança ao mar). A alternativa capta a anterioridade do mais-que-perfeito sem confundir a ordem superficial com a ordem cronológica. Correta — é a única que o texto sustenta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Um evento que precedeu o outro, ambos ocorridos no passado" — esta é a pegadinha clássica. Ela está parcialmente certa (ambos são passados e há precedência), mas inverte o sujeito da precedência: quem precede é "chegara" (anterior), não "largou-se". A alternativa diz que "um evento precedeu o outro", sem especificar qual — e, na leitura da banca, o candidato pode entender que "largou-se" precedeu "chegara", o que é falso. A letra D é mais precisa: aponta o evento posterior (largou-se) como o foco. Erro: troca de referente — confunde qual evento é anterior.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a ordem em que os verbos aparecem (largou-se → chegara) e a ordem cronológica real (chegara → largou-se). A letra E parece correta porque menciona "precedência", mas não diz qual evento precede — e, no texto, quem precede é "chegara", não "largou-se".

PEGA ESSA DICA!

Ao ver um mais-que-perfeito (terminação -ra) ao lado de um perfeito, pergunte: "qual ação aconteceu primeiro?" O mais-que-perfeito é sempre o mais antigo. Desenhe a linha do tempo: chegara → largou-se.

Gabarito: letra D.

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