Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2020
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu062428
Banca
VUNESP
Órgão
AVAREPREV-SP
Ano
2020
Nível
Superior
Leia o texto para responder à questão.
O custo de pensar
Apesar de suas muitas diferenças, todas as espécies humanas têm em comum várias características que as definem. Os humanos têm o cérebro extraordinariamente grande em comparação com o de outros animais. Mamíferos pesando 60 quilos têm um cérebro com tamanho médio de 200 centímetros cúbicos. Os primeiros homens e mulheres, há 2,5 milhões de anos, tinham cérebros de cerca de 600 centímetros cúbicos. Sapiens modernos apresentam um cérebro de 1200 a 1400 centímetros cúbicos.
Que a evolução devesse selecionar cérebros maiores pode nos parecer óbvio. Somos tão apaixonados por nossa inteligência superior que presumimos que, em se tratando de capacidade cerebral, mais deve ser melhor. Mas, se fosse assim, a família dos felídeos também teria produzido gatos capazes de fazer cálculos, e porcos teriam a esta altura lançado seus próprios programas espaciais. Por que cérebros gigantes são tão raros no reino animal?
O fato é que um cérebro gigante é extremamente custoso para o corpo. Não é fácil de carregar, sobretudo quando envolvido por um crânio pesado. É mais difícil ainda de abastecer. No Homo sapiens, o cérebro equivale a 2 ou 3% do peso corporal, mas consome 25% da energia do corpo quando este está em repouso. Em comparação, o cérebro de outros primatas requer apenas 8% de energia em repouso. Os humanos arcaicos pagaram por seu cérebro grande de duas maneiras. Em primeiro lugar, passaram mais tempo em busca de comida. Em segundo lugar, seus músculos atrofiaram. Dificilmente pensaríamos que essa é uma boa estratégia para a sobrevivência na savana. Um chimpanzé não pode ganhar uma discussão com um Homo sapiens, mas pode parti-lo ao meio como uma boneca de pano.
Por mais de 2 milhões de anos, as redes neurais dos humanos continuaram se expandindo, mas, com exceção de algumas facas de sílex e varetas pontiagudas, os humanos tiraram muito pouco proveito disso. Então, o que impulsionou a evolução do enorme cérebro humano durante esses 2 milhões de anos? Francamente, nós não sabemos.
(Yuval Noah Harari. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, 2018. Adaptado)
No contexto do segundo parágrafo, a ideia de que a família dos felídeos poderia ter produzido gatos capazes de fazer cálculos e de que os porcos poderiam lançar programas espaciais serve para
Agerar um efeito cômico, ao destacar o absurdo da teoria da evolução.
Bmostrar a semelhança que existe entre as capacidades intelectuais humanas e animais.
Cargumentar que o cérebro teria aumentado em outras espécies caso fosse vantajoso.
Dapontar a falta de dados científicos sobre a evolução do cérebro em outros seres vivos.
Eexemplificar a inteligência de animais como os porcos e os da família dos felídeos.
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GabaritoC — argumentar que o cérebro teria aumentado em outras espécies caso fosse vantajoso.
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A função argumentativa da hipótese sobre felídeos e porcos
Gabarito: letra C. A menção a gatos capazes de fazer cálculos e porcos lançando programas espaciais serve para argumentar que o cérebro teria aumentado em outras espécies caso fosse vantajoso — é uma hipótese contrafactual que reforça a tese de que cérebros grandes só evoluem quando trazem benefício. A passagem que ancora essa leitura está no segundo parágrafo:
"Mas, se fosse assim, a família dos felídeos também teria produzido gatos capazes de fazer cálculos, e porcos teriam a esta altura lançado seus próprios programas espaciais."
O conectivo "se fosse assim" remete à ideia anterior de que "mais deve ser melhor" — se cérebros maiores fossem sempre vantajosos, outras espécies também os teriam desenvolvido. Como isso não ocorreu, o autor conclui que o cérebro gigante só se justifica quando o custo compensa.
A chave de resolução
O comando pede a função do trecho no contexto do segundo parágrafo — ou seja, qual papel ele desempenha na argumentação. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de inferir a intenção argumentativa do autor. A pista está na estrutura do parágrafo: o autor apresenta uma crença comum ("mais deve ser melhor"), questiona-a com o "Mas" e, em seguida, usa a hipótese absurda para refutar essa crença. A alternativa C capta exatamente essa lógica: se fosse vantajoso, outras espécies teriam cérebros grandes.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o trecho gera "efeito cômico" e destaca "o absurdo da teoria da evolução". O texto não ridiculariza a teoria da evolução — pelo contrário, o autor a utiliza como base para sua argumentação. A hipótese é irônica, mas a ironia serve para reforçar a tese, não para zombar da evolução. Além disso, o texto não diz que a teoria é absurda; diz que a suposição de que "mais é melhor" é questionável.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que há "semelhança entre as capacidades intelectuais humanas e animais". O texto faz exatamente o oposto: destaca a diferença — os humanos têm cérebros gigantes, enquanto felídeos e porcos não os desenvolveram. A hipótese serve para mostrar que não há semelhança, pois se houvesse, os animais também teriam inteligência avançada.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta. O trecho é um argumento por hipótese contrafactual: o autor imagina um cenário contrário aos fatos ("se fosse assim") para provar que a premissa "mais deve ser melhor" é falsa. Se cérebros maiores fossem sempre vantajosos, a seleção natural teria produzido gatos calculistas e porcos astronautas. Como isso não aconteceu, conclui-se que o cérebro grande só evolui quando o benefício supera o custo — ideia desenvolvida no terceiro parágrafo ("um cérebro gigante é extremamente custoso para o corpo").
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: fuga ao tema. A alternativa fala em "falta de dados científicos sobre a evolução do cérebro em outros seres vivos". O texto não discute a ausência de dados; pelo contrário, apresenta dados concretos (tamanhos de cérebro, consumo de energia). A hipótese sobre felídeos e porcos é um recurso argumentativo, não uma constatação sobre lacunas científicas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o trecho "exemplifica a inteligência de animais como os porcos e os da família dos felídeos". O texto não atribui inteligência a esses animais — a hipótese é irônica e hipotética, justamente para mostrar que eles não têm essa capacidade. A alternativa inverte o sentido: o que é usado como exemplo de ausência vira exemplo de presença.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a ironia do trecho. O candidato que lê superficialmente pode achar que o autor está elogiando a inteligência animal (E) ou fazendo piada (A). A chave é perceber que a hipótese é contrafactual: serve para mostrar o que não aconteceu, reforçando a tese de que cérebros grandes só evoluem quando vantajosos.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar um trecho com "se fosse assim" ou "teria produzido", pergunte-se: o autor está afirmando um fato ou imaginando uma hipótese? Hipóteses contrafactuais são usadas para argumentar, não para descrever a realidade.