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Questão de Português — Coesão e coerência — VUNESP 2020

PortuguêsCoesão e coerência
Código
vu062477
Banca
VUNESP
Órgão
Câmara de Mogi Mirim - SP
Ano
2020
Nível
Superior
No princípio era o caderno


    Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d’alma (em prosa e verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia a dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou uma confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola.
    Minha mãe guardava um desses cadernos que pertencera à minha avó Belmira. Me lembro da capa dura, recoberta com um tecido de algodão preto. A letrinha vacilante, bem desenhada, era menina quando via minha mãe recorrer a esse caderno para conferir uma receita de doce ou a receita de um gargarejo. “Como mamãe escrevia bem! – Observou ela mais de uma vez. – Que pensamentos e que poesias, como era inspirada!”.
    Vejo nas tímidas inspirações desse cadernão (que se perdeu num incêndio) um marco das primeiras arremetidas da mulher brasileira na chamada carreira de letras – um ofício de homem.

(A disciplina do amor. Rocco, 1998.)
Assinale a alternativa correta de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa.
  1. AOs diários, em cujas capas traziam imagens românticas, eram muito apreciados pelas mocinhas da época.
  2. BNas páginas dos cadernões, cujo o valor das compras era registrado minuciosamente, também havia lembranças e confissões.
  3. CNo tempo presente, onde se relembra de sua mãe, a narradora a descreve manuseando um desses antigos cadernos.
  4. DO cadernão do dia a dia, companheiro inseparável das mulheres casadas, era onde jamais se deveriam anotar segredos.
  5. EExistia o caderno da avó Belmira, guardado com muito carinho, ao qual a mãe da narradora admirava a escrita caprichosa e a escolha dos poemas.
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GabaritoD — O cadernão do dia a dia, companheiro inseparável das mulheres casadas, era onde jamais se deveriam anotar segredos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão e norma-padrão: o cadernão do dia a dia

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que respeita a norma-padrão e o sentido do texto: o pronome relativo "onde" é corretamente empregado para retomar lugar físico ("cadernão do dia a dia"), e a afirmação de que "jamais se deveriam anotar segredos" é uma paráfrase fiel do trecho "Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos". As demais alternativas cometem erros de regência, de emprego de pronome relativo ou de coesão referencial.

A questão pede a alternativa correta de acordo com a norma-padrão — ou seja, não se trata de interpretação livre, mas de avaliar se a reescritura está gramaticalmente adequada e fiel ao texto. Vamos analisar cada uma.

1"cujo"
Não admite artigo após si
Indica posse
2"onde"
Lugar físico
Tempo (use "em que"/"quando")
3"o qual" (preposicionado)
Exige verbo com a preposição
"ao qual" sem regência de "a"
Pronomes relativos
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Pronomes relativos: "cujo" (Não admite artigo após si, Indica posse); "onde" (Lugar físico, Tempo (use "em que"/"quando")); "o qual" (preposicionado) (Exige verbo com a preposição, "ao qual" sem regência de "a")

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os diários, em cujas capas traziam imagens românticas, eram muito apreciados pelas mocinhas da época."

Erro: troca de vocábulo (redundância do relativo). O pronome relativo "cujas" já indica posse ("as capas dos diários"), portanto não se deve usar o verbo "traziam" com sujeito explícito "capas" — o correto seria "em cujas capas havia imagens românticas" ou "cujas capas traziam imagens românticas" (sem o "em"). A construção "em cujas capas traziam" é um solecismo (erro de regência) e fere a norma-padrão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Nas páginas dos cadernões, cujo o valor das compras era registrado minuciosamente, também havia lembranças e confissões."

Erro: troca de vocábulo (artigo após "cujo"). O pronome relativo "cujo" não admite artigo depois de si: diz-se "cujo valor", nunca "cujo o valor". Além disso, o texto diz que os gastos eram anotados "de mistura com" lembranças e confissões, mas a alternativa não reproduz essa mistura — apenas afirma que havia ambos, o que é uma restrição do sentido original.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"No tempo presente, onde se relembra de sua mãe, a narradora a descreve manuseando um desses antigos cadernos."

Erro: troca de vocábulo (emprego de "onde" para tempo). O pronome relativo "onde" só pode ser usado para lugar físico; para tempo, o correto é "em que" ou "quando". Além disso, "relembra de sua mãe" é um erro de regência: o verbo "relembrar" é transitivo direto (relembrar algo) ou indireto com "de" (relembrar-se de algo), mas na forma pronominal exige "relembrar-se de". A forma "se relembra" é inadequada.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O cadernão do dia a dia, companheiro inseparável das mulheres casadas, era onde jamais se deveriam anotar segredos."

Correta. O pronome relativo "onde" retoma "cadernão do dia a dia", que é um lugar físico (o caderno), e a afirmação de que "jamais se deveriam anotar segredos" é uma paráfrase fiel do trecho:

"Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira."

O texto diz que, depois de casadas, as mulheres não podiam guardar segredos — logo, no cadernão, não se deveriam anotar segredos. A alternativa respeita a norma-padrão e o sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Existia o caderno da avó Belmira, guardado com muito carinho, ao qual a mãe da narradora admirava a escrita caprichosa e a escolha dos poemas."

Erro: troca de vocábulo (regência do relativo). O verbo "admirar" é transitivo direto (admirar algo), portanto o relativo deve ser "o qual" (sem preposição), não "ao qual". O correto seria "o qual a mãe admirava". Além disso, o texto não diz que o caderno era "guardado com muito carinho" — isso é uma extrapolação.

Conclusão: A única alternativa que atende à norma-padrão e ao sentido do texto é a letra D.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora o emprego de pronomes relativos ("cujo", "onde", "ao qual") e a regência verbal, além de inserir informações que não estão no texto (como "guardado com muito carinho").

PEGA ESSA DICA!

Ao reescrever frases, verifique sempre a regência do verbo e a função do pronome relativo. "Onde" só para lugar; "cujo" não aceita artigo; "ao qual" exige verbo que peça preposição "a".

Gabarito: letra D.

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