Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d’alma (em prosa e verso) nos diários de
capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou
pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou
crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não
tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que
segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava
o recurso do cadernão do dia a dia, onde, de mistura com os
gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim
do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou uma
confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó
de café e da cebola.
Minha mãe guardava um desses cadernos que pertencera à minha avó Belmira. Me lembro da capa dura, recoberta
com um tecido de algodão preto. A letrinha vacilante, bem
desenhada, era menina quando via minha mãe recorrer a
esse caderno para conferir uma receita de doce ou a receita
de um gargarejo. “Como mamãe escrevia bem! – Observou
ela mais de uma vez. – Que pensamentos e que poesias,
como era inspirada!”.
Vejo nas tímidas inspirações desse cadernão (que se
perdeu num incêndio) um marco das primeiras arremetidas
da mulher brasileira na chamada carreira de letras – um ofício
de homem.
(A disciplina do amor. Rocco, 1998.)
Um dos sinais de pontuação empregados pela autora no texto são os parênteses, os quais também poderiam ser corretamente inseridos no trecho da alternativa:
ANos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos (ou crianças abraçadas a um cachorro).
BDepois de casadas, não tinha (mais sentido) pensar sequer em guardar segredos...
C... uma confissão que se (juntava na linha adiante) com o preço do pó de café e da cebola.
DMinha mãe guardava um desses cadernos que pertencera (à minha avó Belmira).
E... era menina quando via minha mãe (recorrer a esse caderno) para conferir uma receita de doce...
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GabaritoA — Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos (ou crianças abraçadas a um cachorro).
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Parênteses: quando podem ser inseridos sem prejuízo sintático
Gabarito: letra A. A única alternativa em que os parênteses podem ser corretamente inseridos é a A, pois isolam um aposto explicativo — termo acessório que acrescenta uma informação sem alterar a estrutura essencial da oração. Como se lê no texto: "Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro." — o trecho "ou crianças abraçadas a um cachorro" é uma explicação adicional sobre os cromos, podendo ser isolado por parênteses sem comprometer a sintaxe.
A questão pede que você identifique em qual trecho os parênteses poderiam ser inseridos corretamente, ou seja, sem quebrar a estrutura sintática da frase. A chave é lembrar que os parênteses servem para intercalar elementos acessórios (apostos, explicações, comentários), nunca para separar termos essenciais ou integrantes da oração.
Parênteses: quando inserir
1Termos acessórios (podem ser isolados)
Aposto explicativo
Explicações e comentários
2Termos essenciais/integrantes (não podem)
Verbo e complemento
Núcleo do predicado
Adjunto adverbial ligado ao verbo
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro."
O trecho "ou crianças abraçadas a um cachorro" funciona como aposto explicativo — uma informação adicional que especifica os cromos. Os parênteses podem isolá-lo perfeitamente, pois ele é um termo acessório. A frase continua clara e gramaticalmente íntegra.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos..."
A expressão "mais sentido" é parte do predicado — o núcleo do sujeito oracional "pensar em guardar segredos" é "sentido". Isolá-la com parênteses quebraria a estrutura: "não tinha (mais sentido) pensar" separa o verbo "tinha" de seu complemento, o que é inaceitável. Os parênteses não podem separar o verbo de seu objeto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"... uma confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola."
O trecho "juntava na linha adiante" contém o verbo e um adjunto adverbial. Isolar "na linha adiante" com parênteses separaria o adjunto do verbo, mas isso é possível? Na verdade, o problema é que "na linha adiante" é um adjunto adverbial que complementa o sentido do verbo "juntava"; isolá-lo com parênteses criaria uma pausa que desconecta o adjunto do verbo, prejudicando a fluência e a clareza. Além disso, o trecho "juntava na linha adiante" não é um aposto nem uma explicação — é parte da predicação. Portanto, os parênteses não são adequados.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Minha mãe guardava um desses cadernos que pertencera à minha avó Belmira."
O trecho "à minha avó Belmira" é complemento nominal do verbo "pertencera" (quem pertence, pertence a alguém). É um termo integrante da oração, não acessório. Isolá-lo com parênteses separaria o verbo de seu complemento, tornando a frase agramatical: "que pertencera (à minha avó Belmira)" — o verbo ficaria sem complemento. Parênteses não podem isolar termos integrantes.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"... era menina quando via minha mãe recorrer a esse caderno para conferir uma receita de doce..."
O trecho "recorrer a esse caderno" é uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo — funciona como objeto direto do verbo "via". Isolá-la com parênteses separaria o verbo "via" de seu complemento, quebrando a estrutura: "via (recorrer a esse caderno)" — o verbo "via" ficaria sem objeto. Termos essenciais não podem ser isolados por parênteses.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre termos acessórios (que podem ser isolados) e termos essenciais/integrantes (que não podem). Em B, C, D e E, os trechos propostos são partes estruturais da oração — verbo, complemento, adjunto — e isolá-los com parênteses quebraria a sintaxe. A única que traz um aposto explicativo é a A.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, pergunte-se: "o trecho isolado é uma informação extra (aposto, explicação) ou é necessário para a estrutura da frase?" Se for necessário, os parênteses não podem ser usados.