Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Coesão e coerência — VUNESP 2020

PortuguêsCoesão e coerência
Código
vu062543
Banca
VUNESP
Órgão
EBSERH
Ano
2020
Nível
Médio

                                  Prazeres da “melhor idade”


      A voz no aeroporto de Congonhas anunciou: “Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.”. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a “melhor idade” – algo entre os 60 anos e a morte.

      Para os que ainda não chegaram a ela, “melhor idade” é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro*, a uma modalidade olímpica.

      Privilégios da “melhor idade” são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da “melhor idade”, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

      Outra característica da “melhor idade” é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de estimulantes e antidepressivos que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: “Voltando da farra, Ruy?”. Respondi, eufórico: “Que nada! Estou voltando da farmácia!”. E esta, de fato, é uma grande vantagem da “melhor idade”: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

                                    (Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 29.01.2012. Adaptado)

*João Ubaldo Ribeiro: escritor baiano, autor, entre várias obras, de Viva o povo brasileiro.

De acordo com o emprego e a colocação dos pronomes estabelecidos pela norma-padrão, a expressão destacada na frase pode ser substituída pela expressão entre parênteses na alternativa:
  1. AQuando encontrou o jovem casal, o autor voltava da farmácia. (encontrou-o)
  2. BOs integrantes da “melhor idade” são aqueles que mais enfrentam hipertensão e queda de cabelo. (enfrentam-nas)
  3. CEm Congonhas, o autor subitamente ouviu o anúncio de embarque. (ouviu-o)
  4. DÉ difícil, quando se está mais velho, abaixar para pegar um objeto. (pegar-lhe)
  5. EFeitas as constatações, resta ao autor incluir-se no grupo da “melhor idade”. (resta-lhe)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Feitas as constatações, resta ao autor incluir-se no grupo da “melhor idade”. (resta-lhe)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição pronominal e regência verbal

Gabarito: letra E. A única substituição que respeita a norma-padrão é a da alternativa E: “resta ao autor incluir-se no grupo da ‘melhor idade’” pode ser reescrita como “resta-lhe incluir-se no grupo da ‘melhor idade’”, pois o pronome lhe substitui corretamente o termo ao autor (objeto indireto do verbo restar). As demais alternativas falham por trocar o objeto direto por oblíquo, ignorar a regência ou alterar o referente.

A questão mistura colocação pronominal com regência verbal e coesão referencial. O comando pede que você verifique se a expressão destacada pode ser substituída pela expressão entre parênteses sem prejuízo da norma-padrão. Isso exige três checagens: (1) o pronome deve retomar exatamente o termo destacado; (2) a função sintática do termo (objeto direto ou indireto) deve corresponder ao pronome usado (o/a/os/as para objeto direto; lhe/lhes para objeto indireto); (3) a colocação do pronome deve seguir as regras de próclise, ênclise e mesóclise.

1Checagens
Retomar o termo exato
Função sintática (OD → o/a; OI → lhe)
Colocação (próclise/ênclise)
2Erros comuns
Ênclise após palavra atrativa
Trocar OD por OI (lhe)
Trocar as por nas
3Caso correto
Resta ao autor → resta-lhe
Substituição pronominal
LEVELsoulevel.com.br
Substituição pronominal: Checagens (Retomar o termo exato, Função sintática (OD → o/a; OI → lhe), Colocação (próclise/ênclise)); Erros comuns (Ênclise após palavra atrativa, Trocar OD por OI (lhe), Trocar as por nas); Caso correto (Resta ao autor → resta-lhe)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A frase original é: “Quando encontrou o jovem casal, o autor voltava da farmácia.” O termo destacado o jovem casal é objeto direto de encontrou. A substituição proposta é encontrou-o, que também é objeto direto. Por que está errada? Porque a presença da conjunção Quando (palavra atrativa) exige próclise: o correto seria “Quando o encontrou”. A alternativa mantém a ênclise, o que viola a norma-padrão. Erro: colocação pronominal inadequada (ênclise após palavra atrativa).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A frase é: “Os integrantes da ‘melhor idade’ são aqueles que mais enfrentam hipertensão e queda de cabelo.” O termo destacado hipertensão e queda de cabelo é objeto direto de enfrentam. A substituição proposta é enfrentam-nas, que seria objeto direto feminino plural. Por que está errada? O pronome nas não retoma o termo destacado: ele retomaria apenas “hipertensão e queda de cabelo” se fosse usado como objeto direto, mas a forma correta seria enfrentam-nas? Não: o verbo enfrentar é transitivo direto, então o pronome correto seria as (enfrentam-nas), mas a alternativa usa nas, que é a combinação de em + as — inadequada aqui. Além disso, o termo destacado é composto por dois núcleos femininos, mas a substituição deveria ser enfrentam-nas? Na verdade, o erro é mais sutil: o pronome nas não é aceito como objeto direto puro; a forma correta seria as (enfrentam-nas). A alternativa troca o pronome oblíquo átono as por nas, o que é incorreto. Erro: troca do pronome de objeto direto (as) por forma com preposição (nas).

Alternativa C — ❌ Incorreta

A frase é: “Em Congonhas, o autor subitamente ouviu o anúncio de embarque.” O termo destacado o anúncio de embarque é objeto direto de ouviu. A substituição proposta é ouviu-o. Por que está errada? Apesar de ouviu-o ser gramaticalmente possível, a presença do advérbio subitamente (palavra atrativa) exige próclise: o correto seria “subitamente o ouviu”. A alternativa mantém a ênclise, o que viola a norma-padrão. Erro: colocação pronominal inadequada (ênclise após advérbio atrativo).

Alternativa D — ❌ Incorreta

A frase é: “É difícil, quando se está mais velho, abaixar para pegar um objeto.” O termo destacado um objeto é objeto direto de pegar. A substituição proposta é pegar-lhe. Por que está errada? O verbo pegar é transitivo direto (pega-se algo), portanto o pronome correto seria pegá-lo (objeto direto). O pronome lhe é usado para objeto indireto (pegar a alguém), o que não se aplica aqui. Erro: troca de objeto direto por indireto (lhe).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A frase original é: “Feitas as constatações, resta ao autor incluir-se no grupo da ‘melhor idade’.” O termo destacado ao autor é objeto indireto do verbo restar (resta algo a alguém). A substituição proposta é resta-lhe, em que lhe retoma corretamente ao autor como objeto indireto. A colocação está adequada: resta-lhe é ênclise, que é o padrão após verbo no início da oração (sem palavra atrativa). A substituição preserva o sentido e a norma-padrão. Correta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a diferença entre objeto direto e indireto e a colocação pronominal. Em A e C, o erro está na ênclise após palavra atrativa; em B, na troca de as por nas; em D, no uso de lhe para objeto direto. A única que acerta tudo é a E.

PEGA ESSA DICA!

Antes de testar a substituição, identifique a função sintática do termo destacado (objeto direto ou indireto) e verifique se há palavra atrativa (advérbio, conjunção, pronome relativo) que force a próclise. Só então escolha o pronome adequado.

Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/vu062543