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Questão de Português — Uso das reticências — VUNESP 2020

PortuguêsUso das reticências
Código
vu062544
Banca
VUNESP
Órgão
EBSERH
Ano
2020
Nível
Médio

                                  Prazeres da “melhor idade”


      A voz no aeroporto de Congonhas anunciou: “Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.”. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a “melhor idade” – algo entre os 60 anos e a morte.

      Para os que ainda não chegaram a ela, “melhor idade” é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro*, a uma modalidade olímpica.

      Privilégios da “melhor idade” são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da “melhor idade”, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

      Outra característica da “melhor idade” é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de estimulantes e antidepressivos que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: “Voltando da farra, Ruy?”. Respondi, eufórico: “Que nada! Estou voltando da farmácia!”. E esta, de fato, é uma grande vantagem da “melhor idade”: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

                                    (Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 29.01.2012. Adaptado)

*João Ubaldo Ribeiro: escritor baiano, autor, entre várias obras, de Viva o povo brasileiro.

Assinale a alternativa em que a pontuação pode ser modificada de acordo com a norma-padrão e sem alterar o sentido do texto.
  1. APonto e vírgula em: Num rápido exercício intelectual; concluí que, não tendo necessidades especiais…
  2. BParênteses em: … você pensa duas vezes antes de (se abaixar) para pegar o lápis que deixou cair…
  3. CTravessões em: … o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale – segundo o João Ubaldo Ribeiro – a uma modalidade…
  4. DPonto final em: “Voltando da farra, Ruy.”
  5. EReticências em: “Que nada… Estou voltando da farmácia…”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Travessões em: … o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale – segundo o João Ubaldo Ribeiro – a uma modalidade…

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pontuação: travessões para isolar termo intercalado

Gabarito: letra C. A única alternativa em que a pontuação pode ser modificada sem alterar o sentido é a que substitui as vírgulas por travessões para isolar a expressão intercalada "segundo o João Ubaldo Ribeiro". No texto, lê-se: "o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica". Os travessões cumprem exatamente a mesma função das vírgulas: isolar um termo acessório (intercalado), sem mudar o sentido. As demais alternativas alteram a estrutura ou o sentido do enunciado.

A lógica da questão

A questão pede que você identifique em qual trecho a pontuação pode ser modificada mantendo a norma-padrão e o sentido original. Isso significa que a troca de sinal deve ser equivalente — ou seja, o novo sinal deve exercer a mesma função do anterior, sem quebrar a sintaxe nem mudar o significado.

Os sinais que podem ser intercambiados sem prejuízo são aqueles que isolam termos acessórios (apostos, vocativos, adjuntos intercalados, expressões explicativas): vírgula, travessão e parênteses. Já o ponto final, as reticências e o ponto e vírgula têm funções específicas que, se aplicadas no lugar errado, alteram a estrutura ou o sentido.

1Vírgula
2Travessão
3Parênteses
4Sinais que encerram ou suspendem
Ponto final
Reticências
Ponto e vírgula
Sinais que isolam termo acessório
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Sinais que isolam termo acessório: Vírgula; Travessão; Parênteses; Sinais que encerram ou suspendem (Ponto final, Reticências, Ponto e vírgula)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais..."

A vírgula após "intelectual" separa um adjunto adverbial deslocado ("Num rápido exercício intelectual") do restante da oração. Substituí-la por ponto e vírgula criaria uma pausa forte e separaria o adjunto do verbo "concluí", quebrando a estrutura sintática. O ponto e vírgula não pode separar um adjunto adverbial do seu núcleo verbal. Erro: troca de sinal que altera a estrutura sintática.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"... você pensa duas vezes antes de (se abaixar) para pegar o lápis que deixou cair..."

Colocar "se abaixar" entre parênteses daria a entender que é uma informação acessória, dispensável, mas "se abaixar" é o núcleo do complemento "antes de se abaixar" — não pode ser isolado como se fosse um detalhe. Os parênteses, aqui, alterariam o sentido, pois o ato de se abaixar é essencial à ideia. Erro: isolar termo que não é acessório.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"... o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale – segundo o João Ubaldo Ribeiro – a uma modalidade..."

No texto original, a expressão "segundo o João Ubaldo Ribeiro" está entre vírgulas, funcionando como um comentário intercalado (uma ressalva do autor). Os travessões podem substituir as vírgulas nessa função, pois ambos isolam termos acessórios. A frase continua correta e com o mesmo sentido. Correta: substituição equivalente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Voltando da farra, Ruy."

No texto, a fala é: "Voltando da farra, Ruy?". A interrogação é essencial, pois o rapaz faz uma pergunta ao cronista. Substituí-la por ponto final transformaria a pergunta em uma afirmação, alterando completamente o sentido. Erro: mudança de modalidade (pergunta → afirmação).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Que nada… Estou voltando da farmácia…"

No texto, a fala é: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". As reticências indicam interrupção, hesitação ou suspensão do pensamento. Substituir o ponto de exclamação por reticências mudaria o tom: a exclamação expressa ênfase e entusiasmo (o cronista responde eufórico), enquanto as reticências sugeririam uma pausa ou dúvida. Erro: alteração do valor expressivo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sinais que isolam (vírgula, travessão, parênteses) e sinais que encerram ou suspendem (ponto final, reticências). Apegue-se à função: se o termo é acessório, qualquer um dos três primeiros serve; se é pergunta ou exclamação, não troque.

NÃO CAIA NESSA!

Ao ver "pode ser modificada sem alterar o sentido", pergunte: o novo sinal exerce a mesma função do anterior? Se sim, é equivalente; se não, é pegadinha.

Gabarito: letra C.

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