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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2020

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu062548
Banca
VUNESP
Órgão
EBSERH
Ano
2020
Nível
Médio

                                  Prazeres da “melhor idade”


      A voz no aeroporto de Congonhas anunciou: “Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.”. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a “melhor idade” – algo entre os 60 anos e a morte.

      Para os que ainda não chegaram a ela, “melhor idade” é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro*, a uma modalidade olímpica.

      Privilégios da “melhor idade” são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da “melhor idade”, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

      Outra característica da “melhor idade” é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de estimulantes e antidepressivos que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: “Voltando da farra, Ruy?”. Respondi, eufórico: “Que nada! Estou voltando da farmácia!”. E esta, de fato, é uma grande vantagem da “melhor idade”: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

                                    (Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 29.01.2012. Adaptado)

*João Ubaldo Ribeiro: escritor baiano, autor, entre várias obras, de Viva o povo brasileiro.

Considere os trechos selecionados do texto.• Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica. (2° parágrafo)• Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca… (último parágrafo)Com base nesses trechos, é correto afirmar que o autor se serve
  1. Ada comparação, para evidenciar sua profunda angústia por pertencer ao grupo da terceira idade.
  2. Bda comparação, para denunciar os poucos direitos garantidos por lei às pessoas idosas.
  3. Cda ambiguidade, para descrever as atitudes inusitadas de seus amigos e conhecidos.
  4. Ddo exagero, para expor o tema da velhice por meio de um tom leve e humorístico.
  5. Edo exagero, para criticar os jovens que desrespeitam frequentemente os mais velhos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — do exagero, para expor o tema da velhice por meio de um tom leve e humorístico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O exagero como recurso humorístico na crônica de Ruy Castro

Gabarito: letra D. O autor se serve do exagero para expor o tema da velhice com tom leve e humorístico. A pista decisiva está na comparação hiperbólica do laço no sapato com uma "modalidade olímpica" e na imagem do "pterodáctilo da clássica boemia carioca" — ambas amplificam situações cotidianas de forma cômica, sem qualquer tom de angústia, denúncia ou crítica aos jovens.

A questão pede interpretação ("é correto afirmar que o autor se serve"), ou seja, exige que você reconheça o recurso expressivo usado nos dois trechos e o efeito de sentido que ele produz no conjunto do texto. Vamos analisar cada trecho e cada alternativa.

Recurso expressivo
  • 1Exagero (hipérbole)
    • Laço no sapato = modalidade olímpica
    • Pterodáctilo da boemia carioca
    • Efeito: tom leve e humorístico
  • 2Comparação
    • Presente, mas não gera angústia
  • 3Ambiguidade
    • Não há sentido ambíguo
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor usa a comparação para evidenciar "profunda angústia". O texto não expressa angústia; ao contrário, o tom é de ironia bem-humorada. No trecho do laço no sapato, a comparação com "modalidade olímpica" é uma hipérbole cômica — transforma um ato banal em proeza esportiva, o que gera humor, não sofrimento. Além disso, o autor conclui o parágrafo com "estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão", reforçando o tom jocoso. Erro: extrapolação — atribui ao texto um sentimento (angústia) que não está presente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "denunciar os poucos direitos garantidos por lei às pessoas idosas". O texto não menciona direitos, leis ou garantias — a única referência a "preferência" no aeroporto é usada como mote para o autor se incluir na "melhor idade", sem qualquer crítica jurídica. Erro: fuga ao tema — a alternativa introduz um assunto (direitos legais) que não é abordado no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "ambiguidade" e em "atitudes inusitadas de seus amigos e conhecidos". Não há ambiguidade nos trechos: o sentido é claro e direto. Além disso, o texto não descreve atitudes de amigos ou conhecidos — o autor fala de si mesmo e de um jovem casal desconhecido. Erro: troca de conceito — confunde "exagero" com "ambiguidade" e inventa personagens que não existem no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa está correta porque identifica o exagero (hipérbole) como recurso e o tom leve e humorístico como efeito. Veja as passagens:

"o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica"

Aqui, o autor exagera ao comparar um gesto trivial (dar o laço no sapato) a uma competição olímpica — o exagero é evidente e gera humor.

"Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca"

A imagem do "pterodáctilo" (animal pré-histórico) para descrever a si mesmo é outra hipérbole cômica — o autor se retrata como uma figura antiga e excêntrica, o que reforça o tom bem-humorado.

O texto como um todo trata a velhice com ironia e leveza: o autor lista "privilégios" como osteoporose e queda de cabelo, e conclui com "estamos com tudo". Não há amargura, denúncia ou crítica — apenas humor. A alternativa D é a única que capta o recurso (exagero) e o efeito (humor) de forma fiel ao texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa também fala em "exagero", mas afirma que o objetivo é "criticar os jovens que desrespeitam frequentemente os mais velhos". O texto não critica jovens — o episódio do jovem casal é narrado de forma neutra e até simpática (o rapaz pergunta "Voltando da farra, Ruy?", e o autor responde com humor). Não há qualquer menção a desrespeito ou crítica. Erro: extrapolação — acrescenta uma intenção crítica que não existe no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — alternativas que atribuem ao texto sentimentos (angústia), temas (direitos legais) ou intenções (crítica aos jovens) que não estão presentes. A correta (D) é a única que se limita ao que o texto realmente faz: usar o exagero para gerar humor.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o recurso expressivo, pergunte-se: "qual é o efeito que o autor quer causar?" Se o texto é uma crônica bem-humorada, o exagero serve para rir, não para denunciar ou sofrer. Desconfie de alternativas que introduzem temas alheios ao texto.

Gabarito: letra D — o autor se serve do exagero para expor a velhice com tom leve e humorístico.

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