Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a
casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde
de água no terraço: sábado ao vento é a rosa da semana;
sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido:
outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou
ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No sábado é que
as formigas subiam pela pedra. Foi num sábado que vi um
homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia
de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De
tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema:
ao vento sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só
eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não? No Rio
de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com
grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro
freia de súbito e, de súbito, antes do vento espantado poder
recomeçar, vejo que é sábado de tarde. Tem sido sábado,
mas já não me perguntam mais. Então eu não digo nada,
aparentemente submissa. Mas já peguei as minhas coisas
e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também
é a rosa da semana. Não é propriamente rosa que eu quero
dizer.
(Clarice Lispector, “Atenção ao sábado”.
Os melhores contos [seleção Walnice Nogueira Galvão], 1996
Na passagem – ... no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. –, a conjunção se não expressa algum sentido específico e liga duas orações que não têm sentido completo quando sozinhas, por isso uma depende da outra. Esse mesmo tipo de conjunção está corretamente destacado em:
ASe chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não?
BNo Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer...
CTem sido sábado, mas já não me perguntam mais.
DEntão eu não digo nada, aparentemente submissa.
EMas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.
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GabaritoB — No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer...
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Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que repete o mesmo tipo de conjunção do trecho citado: o "se" integrante, que introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta, sem valor semântico próprio (não expressa condição, causa etc.), apenas liga a oração principal à subordinada que funciona como seu objeto. No trecho do enunciado, "vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas", o "se" é integrante; em B, "quando se pensa que a semana vai morrer", o "que" também é conjunção integrante, com a mesma função sintática.
A questão pede que você identifique, entre as alternativas, a ocorrência de uma conjunção subordinativa integrante — aquela que introduz oração subordinada substantiva e não tem sentido próprio, apenas conecta a oração principal à subordinada. O comando já explica: "não expressa algum sentido específico e liga duas orações que não têm sentido completo quando sozinhas, por isso uma depende da outra". Isso é a definição exata da conjunção integrante ("que" ou "se"), que introduz orações com função de sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, complemento nominal ou aposto.
Conjunção subordinativa integrante: Função (Introduz oração subordinada substantiva, Sem valor semântico próprio, Liga principal à subordinada); Teste de reconhecimento (Substituir por "isso", "vou ver isso" → integrante); Exemplos ("vou ver se o quintal...", "pensa-se que a semana vai morrer"); Distinções ("se" condicional (alternativa A), "mas" adversativo (C e E), "e" aditivo (E), "então" advérbio (D))
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não?"
Aqui o "se" é conjunção subordinativa condicional — expressa a condição para "eu saber que era sábado". A oração "se chovia" tem valor de circunstância de condição, não de objeto. O "que" em "que era sábado" é que é integrante, mas o "se" destacado não é. Erro: troca de conceito — confunde "se" condicional com "se" integrante.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer..."
O "que" é conjunção subordinativa integrante: introduz a oração "que a semana vai morrer", que funciona como objeto direto do verbo "pensar" (pensa-se isso). Não expressa causa, consequência, condição etc.; apenas liga a oração principal à subordinada substantiva. É exatamente o mesmo papel do "se" no trecho do enunciado: "vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas" (ver isso). Correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais."
O "mas" é conjunção coordenativa adversativa — liga orações independentes (coordenadas), expressando oposição. Não é subordinativa e não introduz oração dependente. Erro: troca de conceito — confunde conjunção coordenativa com subordinativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Então eu não digo nada, aparentemente submissa."
O "então" é advérbio (ou, em alguns usos, conjunção coordenativa conclusiva), mas aqui funciona como advérbio de tempo/sequência, não como conjunção integrante. Não há oração subordinada substantiva. Erro: troca de conceito — confunde advérbio com conjunção.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã."
O "mas" é conjunção coordenativa adversativa; o "e" é conjunção coordenativa aditiva. Ambos ligam orações coordenadas, independentes, sem subordinação. Erro: troca de conceito — confunde conjunção coordenativa com subordinativa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia do "se" e do "que". O candidato que vê "se" em A e acha que é igual ao do enunciado cai na armadilha — mas em A o "se" é condicional, não integrante. A chave é testar a função: se a oração responde a "ver o quê?", "pensar o quê?", é integrante.
PEGA ESSA DICA!
Para reconhecer a conjunção integrante, substitua a oração por "isso": "vou ver isso", "pensa-se isso". Se encaixar, é integrante. Se a oração responder a "quando?", "se... então", "porque", não é.