Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2021

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu063368
Banca
VUNESP
Órgão
Câmara de Potim - SP
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Diretor Geral

Leia o texto, para responder à questão.


   Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na letra M, a chave do temperamento homicida, que convive no homem com suas tendências angélicas, e convive em perfeita harmonia de namorados.


    O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio, não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.


     A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.


    Todos os dias, mais de uma vez, matamos a fome, em vez de satisfazê-la. O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.


  Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador.


   Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano.


    Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.


(Carlos Drummond de Andrade, O verbo matar. Poesia e Prosa. Adaptado.)

Em relação ao conjunto do texto, a afirmação contida no último parágrafo representa
  1. Aum contraponto, com a apresentação de elementos em que se destacam aspectos incompatíveis com a ideia de matar.
  2. Bum contrassenso, com a apresentação de elementos de diferentes naturezas, sem um aspecto comum que os aproxime.
  3. Cuma conclusão lógica, indissociável do contexto anterior, por reforçar os pressupostos nele afirmados.
  4. Dum questionamento pertinente, por lançar ideias novas acerca das potencialidades da linguagem.
  5. Euma abordagem filosófica do tema, com a explicitação de um juízo moral acerca da ideia de morte.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — um contraponto, com a apresentação de elementos em que se destacam aspectos incompatíveis com a ideia de matar.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O contraponto final de Drummond: a exceção que confirma a regra

Gabarito: letra A. O último parágrafo — "Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor" — representa um contraponto ao que foi dito antes, pois apresenta elementos incompatíveis com a ideia de matar, como se lê na passagem que encerra o texto. A alternativa correta é a A, porque o autor contrapõe à tese da "afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano" a existência de coisas que se opõem a essa perversidade.

O texto de Drummond desenvolve uma tese provocadora: a linguagem revela que o homem "vive matando" — mata o tempo, a fome, a aula, as charadas, o bicho. O penúltimo parágrafo arremata: "não admira que os atos de banditismo... se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano". O último parágrafo, então, inverte o movimento: em vez de continuar a lista de horrores, o autor se espanta com o que não é perverso — antibióticos, Cruz Vermelha, Mozart, o amor. Essa mudança de direção é exatamente o que caracteriza um contraponto: uma ideia que se opõe à anterior, sem negá-la, mas destacando o que contrasta com ela.

Função do último parágrafo
  • 1Contraponto (gabarito)
    • Elementos incompatíveis com matar
    • Antibióticos, Cruz Vermelha, Mozart, amor
    • "Admira é que..." (oposição)
  • 2O que não é
    • Contrassenso (elementos têm aspecto comum)
    • Conclusão lógica (inverte, não reforça)
    • Questionamento (não lança ideias novas)
    • Juízo moral (não reflete sobre a morte)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa está correta porque o último parágrafo apresenta elementos que contrastam com a ideia de matar desenvolvida ao longo do texto. O autor diz que "Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor" — todos esses elementos são incompatíveis com a ideia de matar: antibióticos curam, a Cruz Vermelha socorre, Mozart cria beleza, o amor une. O verbo "admirar" já sinaliza o espanto diante do que foge à regra da perversidade. É um contraponto porque o autor, após descrever a onipresença do "matar", destaca o que não se encaixa nesse quadro.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa erra ao dizer que os elementos são "de diferentes naturezas, sem um aspecto comum que os aproxime". Na verdade, todos os elementos citados — antibióticos, Cruz Vermelha, Mozart, o amor — compartilham um aspecto comum: são manifestações de vida, cuidado, criação e afeto, ou seja, opõem-se à morte e à violência. O texto não os apresenta como desconexos, mas como um conjunto coeso que contrasta com a tese anterior. A alternativa tangencia o texto ao focar na "natureza" dos elementos, ignorando a relação de oposição que o autor estabelece.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa está incorreta porque inverte a relação entre os parágrafos. O último parágrafo não reforça os pressupostos anteriores — ele os contradiz parcialmente, ao apresentar o que escapa à lógica do "matar". O texto diz que "não admira" que os atos de violência se revelem como "afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano"; em seguida, "Admira é que existam" coisas boas. O contraste entre "não admira" e "admira" mostra que o último parágrafo não é uma conclusão lógica do que foi dito, mas uma ressalva que aponta para o que surpreende positivamente. A alternativa contradiz o texto ao tratar como reforço o que é, na verdade, uma oposição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa extrapola o texto. O último parágrafo não lança "ideias novas acerca das potencialidades da linguagem" — ele simplesmente enumera elementos que contrastam com a tese da perversidade humana. A questão da linguagem foi desenvolvida nos parágrafos anteriores ("Sua linguagem o trai", "Se a linguagem espelha o homem"), mas o parágrafo final não retoma esse tema para propor novas reflexões sobre ele. A alternativa foge ao tema do parágrafo final, que é a oposição entre o que mata e o que salva/cria.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa acrescenta opinião que não está no texto. O último parágrafo não explicita um "juízo moral acerca da ideia de morte" — ele apenas expressa admiração pela existência de coisas boas. O autor não faz uma reflexão filosófica sobre a morte em si, mas sim um contraponto emocional à constatação da perversidade humana. A alternativa tangencia o texto ao atribuir ao parágrafo uma profundidade filosófica que ele não tem, confundindo o espanto do autor com uma tese moral elaborada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre contraponto e conclusão. A alternativa C parece atraente porque o último parágrafo vem depois de tudo, mas o conectivo implícito é de oposição ("Admira é que..." contrasta com "não admira que..."), não de conclusão. Grife os verbos "não admira" e "admira" para ver a virada argumentativa.

PEGA ESSA DICA!

Em questões sobre a função de um parágrafo, pergunte-se: ele reforça o que foi dito ou contrasta com o que foi dito? Palavras como "mas", "porém", "contudo" e expressões como "admira é que" sinalizam oposição. O último parágrafo de um texto nem sempre é conclusão — às vezes é ressalva.

Gabarito: letra A.

Link permanente: /questoes/vu063368