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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2021

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu065594
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Escrevente Técnico Judiciário
Leia o texto para responder à questão.

Vida ao natural
    Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece; ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela – que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades – pois ela nem lembra sequer de atiçar o fogo; não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: “aquela acha*”, diz-lhe, “aquela ainda não pegou”. E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha, homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.
    Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.
(Clarice Lispector, Os melhores contos
[seleção Walnice Nogueira Galvão], 1996)
* pequeno pedaço de madeira usado para lenha
No conto, o narrador explora a ideia de
  1. Adesalento dos apaixonados.
  2. Bfugacidade do sentimento.
  3. Cdesapego da vida ao natural.
  4. Dinversão de papéis de gênero.
  5. Equestionamento da liberdade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — fugacidade do sentimento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da questão sobre o conto "Vida ao natural"

Gabarito: letra B. O narrador explora a fugacidade do sentimento, tema central do conto, comprovado pelo trecho final em que a personagem reflete que "o que sente nunca dura, o que sente sempre acaba". As demais alternativas não encontram respaldo no texto: desalento, desapego, inversão de papéis ou questionamento da liberdade não são abordados como ideia principal.


Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não transmite desalento (desânimo/desilusão). A personagem saboreia o momento, mesmo consciente do fim; não há amargura ou decepção.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado, a passagem citada revela a ideia central de que o sentimento é passageiro. A personagem "encarniça-se sobre o momento" porque sabe que ele acabará.

"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar."

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. "Desapego" seria indiferença, mas a personagem está intensamente apegada ao momento ("encarniça-se", "come-lhe o fogo"). Não há desapego, e sim valorização da experiência fugaz.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O conto retrata papéis de gênero tradicionais (ele atiça o fogo, ela não; ele a protege). Não há inversão: a mulher não comanda, apenas sugere. A ideia não é explorada como tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A liberdade não é questionada; a mulher tem a opção de pegar a mão do homem e o faz quando quer. O foco está na efemeridade do sentimento, não em um debate sobre liberdade.


Gabarito: letra B.

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