Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2021
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu065927
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos - SP
Ano
2021
Nível
Superior
Leia o texto para responder à questão.
O assalto
A casa luxuosa no Leblon é guardada por um molosso de
feia catadura*, que dorme de olhos abertos, ou talvez nem
durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive tranquila, e
nunca se teve notícia de assalto à residência tão bem protegida.
Até a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado portão de ferro e penetrar
no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa, quando
o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar lá, para
acender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda
ilusão, avançou contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver, mas não teve tempo para
isso. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo, suplicou-lhe
com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu
que nunca mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz
baixa, para não despertar os moradores, temendo que se
agravasse a situação.
O animal pareceu compreender a súplica do ladrão, e
deixou-o sair em estado deplorável. No jardim, ficou um pedaço de calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu
bem por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde
Pública e indagou se o cão era vacinado. Nesse momento, o
cão estava junto da doméstica e abanou o rabo, afirmativamente.
(Carlos Drummond de Andrade. O sorvete e outras histórias, 1993. Adaptado)
* Cão robusto de feia aparência
Assinale a alternativa em que o primeiro enunciado expressa uma ideia hipotética, e o segundo, sinaliza uma mudança na narrativa.
A... ou talvez nem durma, de tão vigilante. / Até a semana passada.
B... temendo que se agravasse a situação. / ... quando o cachorro [...] avançou contra ele...
CNo jardim, ficou um pedaço de calça. / Por isso, a família vive tranquila...
D... e indagou se o cão era vacinado. / ... e nunca se teve notícia de assalto....
EO animal pareceu compreender a súplica do ladrão... / Falou em voz baixa...
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GabaritoA — ... ou talvez nem durma, de tão vigilante. / Até a semana passada.
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Ideia hipotética e mudança na narrativa
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única em que o primeiro enunciado expressa uma hipótese — "ou talvez nem durma, de tão vigilante" — e o segundo sinaliza uma mudança na narrativa — "Até a semana passada". A pista está no próprio texto: o advérbio "talvez" marca uma suposição do narrador, e a expressão "Até a semana passada" introduz a quebra da tranquilidade, anunciando o assalto.
A chave de resolução
O comando pede que você identifique, em cada par, duas funções textuais distintas: a primeira parte deve trazer uma ideia hipotética (algo incerto, uma suposição) e a segunda, uma mudança na narrativa (um marco que altera o rumo dos fatos). Para acertar, é preciso observar os marcadores linguísticos: palavras como "talvez", "quem sabe", "possivelmente" indicam hipótese; expressões como "até que", "de repente", "naquela noite" costumam sinalizar virada narrativa.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"... ou talvez nem durma, de tão vigilante. / Até a semana passada."
O primeiro trecho traz o advérbio "talvez", que expressa dúvida/hipótese — o narrador não afirma que o cão não dorme; apenas levanta a possibilidade. O segundo trecho, "Até a semana passada", é um marcador temporal de ruptura: até ali a casa nunca fora assaltada; a partir dali, a história muda. É exatamente a combinação pedida.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"... temendo que se agravasse a situação. / ... quando o cachorro [...] avançou contra ele..."
O primeiro trecho expressa uma causa/temor (o ladrão falou baixo porque temia agravar a situação), não uma hipótese. O segundo trecho, "quando o cachorro avançou", é um fato narrado, não uma mudança de rumo — é o clímax da ação, mas não há marcador de virada. Erro: troca de conceito — confunde "hipótese" com "causa" e "mudança" com "ação".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"No jardim, ficou um pedaço de calça. / Por isso, a família vive tranquila..."
O primeiro trecho é uma constatação factual (o pedaço de calça ficou no jardim), não uma hipótese. O segundo, "Por isso, a família vive tranquila", é uma conclusão (conectivo "por isso" = consequência), não uma mudança narrativa. Erro: contradiz o texto — inverte a ordem lógica: a tranquilidade é anterior ao assalto, não posterior.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"... e indagou se o cão era vacinado. / ... e nunca se teve notícia de assalto..."
O primeiro trecho é uma pergunta indireta (a voz do telefone perguntou se o cão era vacinado), não uma hipótese. O segundo, "nunca se teve notícia de assalto", é uma informação factual sobre o passado, não uma mudança. Erro: fora do escopo — os trechos não têm relação de hipótese/mudança.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O animal pareceu compreender a súplica do ladrão... / Falou em voz baixa..."
O primeiro trecho traz uma interpretação do narrador ("pareceu compreender"), que é uma suposição, mas o segundo, "Falou em voz baixa", é uma ação do ladrão, não uma mudança na narrativa. Além disso, a ordem está invertida: primeiro o ladrão fala baixo, depois o cão parece compreender. Erro: troca de conceito — confunde "interpretação" com "hipótese" e não há virada narrativa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre hipótese (marcada por "talvez") e suposição/interpretação (como "pareceu"), e entre mudança narrativa (marcada por "Até a semana passada") e ação/fato (como "avançou"). Fique atento aos marcadores.
PEGA ESSA DICA!
Grife os advérbios de dúvida (talvez, quiçá, possivelmente) e as expressões temporais de ruptura (até que, de repente, naquela noite). Eles são a chave para identificar hipótese e mudança.