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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu066379
Banca
VUNESP
Órgão
CAU-SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Analista Administrativo

Leia o texto, para responder à questão.

O animal satisfeito dorme

O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “o animal satisfeito dorme”. Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais fundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.

A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece.

Um bom filme não é exatamente aquele que termina e ficamos insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, o deixamos um pouco apoiado no colo, absortos e distantes, pensando que não poderia terminar?

Com a vida de cada um e de cada uma também tem de ser assim; afinal de contas, não nascemos prontos e acabados. Ainda bem, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento.

Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.

Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães, “não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro”…

(Mario Sergio Cortella. Disponível em: https://www.contioutra.com. Acesso em 12.01.2020)

Para responder à questão, considere a seguinte passagem do último parágrafo:... aliás, como falou o mesmo Guimarães, “não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro”…É correto afirmar que a citação da frase de Guimarães Rosa consiste em referência literária da qual se abstrai a ideia segundo a qual
  1. Ao esclarecimento vem paulatinamente.
  2. Bcom clareza as pessoas constroem sua história.
  3. Cnão convém revoltar-se contra o que não se compreende.
  4. Da escuridão confunde as coisas e embota o espírito.
  5. Eé preciso entender as coisas para a pessoa estar pronta.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — o esclarecimento vem paulatinamente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação da citação de Guimarães Rosa no último parágrafo

Gabarito: letra A. A citação “não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro” expressa a ideia de que o esclarecimento (a clareza) vem paulatinamente, ou seja, gradualmente, aos poucos. A alternativa A é a única que parafraseia fielmente o sentido da frase, sem acrescentar ou distorcer nada.

A questão pede que se abstraia a ideia da citação, isto é, que se identifique a tese que ela encerra. A chave está na expressão “só aos poucos”, que indica processo gradual, e na oposição “escuro” × “claro”, que metaforiza a passagem da ignorância ao conhecimento. O autor usa a fala de Guimarães para reforçar a ideia de que o entendimento não é imediato, mas construído no tempo.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A frase “só aos poucos é que o escuro é claro” é uma metáfora: o “escuro” representa o não saber, e o “claro”, o saber. O advérbio “aos poucos” é o núcleo semântico: indica que a clareza (o entendimento) se instala gradualmente. A alternativa A — “o esclarecimento vem paulatinamente” — é uma paráfrase exata: “esclarecimento” = “claro”; “paulatinamente” = “aos poucos”. Não há acréscimo nem supressão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A citação fala do processo de esclarecimento (passar do escuro ao claro), não da construção da história pelas pessoas. A ideia de “construir a própria história” aparece em outro trecho do texto (“gente nasce não-pronta, e vai se fazendo”), mas não está contida na citação em si. A alternativa mistura o tema geral do texto com o sentido específico da frase citada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de sentido (contradiz o texto). A citação diz “não convém fazer escândalo de começo”, mas o sentido é de não se precipitar, não querer tudo de imediato — não de “não se revoltar contra o que não se compreende”. A palavra “escândalo” aqui tem sentido figurado de alarde, pressa, e não de revolta. A alternativa C inverte o foco: o conselho é sobre o modo de buscar o entendimento (com calma), não sobre uma atitude de revolta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e inversão de valor. A citação menciona o “escuro”, mas não diz que ele “confunde as coisas e embota o espírito”. Pelo contrário, o “escuro” é visto como estado inicial que será superado pelo “claro”. A alternativa atribui ao escuro um juízo negativo que o texto não faz — e, além disso, não capta a ideia central de processo gradual.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: restrição e inversão de causa. A citação não condiciona o entendimento a “estar pronto”; aliás, o texto afirma o oposto: “não nascemos prontos e acabados”. A alternativa E inverte a lógica do texto: não é preciso “entender as coisas para estar pronto”, mas sim estar em processo de aprendizado. Além disso, a citação não fala de “prontidão”, mas de gradualidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — alternativas que misturam o tema geral do texto (construção da história, não revolta, escuridão negativa) com o sentido específico da citação. A correta é a que se limita ao que a frase diz: processo gradual.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma citação, isole-a do restante do texto. Pergunte: “o que esta frase diz, sozinha?”. A resposta certa é a que parafraseia a citação, sem trazer ideias de outros parágrafos.

Gabarito: letra A.

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