Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2022
Português›Interpretação de Textos
Código
vu066895
Banca
VUNESP
Órgão
Câmara de Suzano - SP
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Agente Parlamentar
Leia a crônica de Rubem Braga para responder a questão.
Cafezinho
Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava
falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia
ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à
conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando
café.
Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma
das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:
– Ele foi tomar café.
A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar
com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar
um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.
Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de
dizer:
– Bem, cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.
Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho.
Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e
vago:
– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.
Quando a bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
– Ele está?
– Alguém dará o nosso recado sem endereço.
Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando
vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier,
o recado será o mesmo:
– Ele disse que ia tomar um cafezinho...
Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar
um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:
– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...
Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos
assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não
estar.
Quando vier a grande hora de nosso destino, nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos,
vamos tomar um cafezinho.
Observe a passagem do texto – Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:– Ele foi tomar café.No contexto em que se encontra, essa passagem sinaliza
Abrincadeira, zombando do paladar do povo carioca.
Bsarcasmo, ridicularizando a falta de humor do carioca.
Cironia, evidenciando uma mentira costumeiral do carioca
Dostentação, significando que o carioca é um gênio.
Econformismo, sugerindo que falta imaginação ao carioca.
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GabaritoC — ironia, evidenciando uma mentira costumeiral do carioca
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Ironia e o "cafezinho" carioca em Rubem Braga
Gabarito: letra C. A passagem sinaliza ironia, pois o autor, ao chamar de "delícia do gênio carioca" a frase "Ele foi tomar café", usa uma expressão elogiosa para designar uma mentira costumeira — o famoso "cafezinho" que nunca acaba. A ironia está em dizer o contrário do que se quer significar, e o texto deixa isso claro ao longo da crônica.
A questão pede interpretação (o comando "sinaliza" indica que devemos depreender o efeito de sentido), não mera localização de informação. A chave está em perceber que o autor brinca com a linguagem: chama de "delícia" e "gênio" algo que, na prática, é um disfarce para fugir de compromissos — como se vê nos trechos seguintes.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "zombar do paladar do povo carioca", mas o texto não menciona paladar nem faz piada com o gosto pelo café. O alvo da brincadeira é o hábito de usar o cafezinho como desculpa, não a bebida em si. Há extrapolação: acrescenta uma ideia (paladar) que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "ridicularizar a falta de humor do carioca", mas o texto elogia o "gênio carioca" e o "bom humor" — não há crítica à falta de humor. O autor, na verdade, admira a saída criativa do carioca. Há contradição com o texto, que valoriza positivamente a atitude.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A passagem é irônica: o autor chama de "delícia do gênio carioca" a frase "Ele foi tomar café", mas, no contexto, essa frase é usada como desculpa para não atender ninguém — uma mentira social. Veja a prova no texto:
"Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: – Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí..."
A ironia está em elogiar ("delícia", "gênio") o que, na verdade, é uma fuga — o texto diz "fujamos assim, sem drama, sem tristeza". A expressão "mentira costumeira" é uma paráfrase do que o texto sugere: o cafezinho é um recado vago para escapar de compromissos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "ostentação", mas o texto não exalta o carioca como gênio de verdade — a palavra "gênio" está em contexto irônico. Não há ostentação, há zombaria afetuosa. A alternativa tangencia o tema, pois pega uma palavra solta ("gênio") e a interpreta literalmente, ignorando a ironia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "conformismo" e "falta de imaginação", mas o texto elogia a imaginação do carioca ("com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca..."). O autor valoriza a criatividade de usar o cafezinho como escapatória. Há contradição com o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o efeito de sentido: em vez de ironia (elogio que esconde crítica), oferece sarcasmo (crítica direta) e ostentação (elogio literal). A ironia é a figura em que se diz o contrário do que se pensa, com tom de brincadeira — e é exatamente o que o autor faz ao chamar de "delícia" a mentira do cafezinho.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar ironia, procure o contraste entre o que se diz e o que se quer dizer. No texto, "delícia" e "gênio" contrastam com a ideia de fuga e mentira — esse contraste é a marca da ironia.