Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2022
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu066898
Banca
VUNESP
Órgão
Câmara de Suzano - SP
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Agente Parlamentar
Leia a crônica de Rubem Braga para responder a questão.
Cafezinho
Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava
falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia
ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à
conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando
café.
Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma
das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:
– Ele foi tomar café.
A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar
com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar
um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.
Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de
dizer:
– Bem, cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.
Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho.
Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e
vago:
– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.
Quando a bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
– Ele está?
– Alguém dará o nosso recado sem endereço.
Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando
vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier,
o recado será o mesmo:
– Ele disse que ia tomar um cafezinho...
Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar
um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:
– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...
Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos
assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não
estar.
Quando vier a grande hora de nosso destino, nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos,
vamos tomar um cafezinho.
A passagem – Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. (14º parágrafo) – evidencia que o cronista
Aentende que o chapéu é de uso obrigatório, especialmente pelas autoridades.
Bargumenta que o delegado merece ser presenteado com um chapéu novo.
Cconsidera que um chapéu faz parte do aparato pessoal de um delegado.
Dreforça a ideia do comentário de que o funcionário foi tomar um cafezinho.
Econcorda que o chapéu na mesa de trabalho é esquecimento do funcionário.
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GabaritoD — reforça a ideia do comentário de que o funcionário foi tomar um cafezinho.
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A ironia do chapéu na crônica de Rubem Braga
Gabarito: letra D. A passagem sobre deixar o chapéu reforça a ideia do comentário de que o funcionário foi tomar um cafezinho — o cronista sugere, com ironia, deixar o chapéu como prova de que a pessoa "saiu para tomar um café e volta já", tornando a desculpa mais convincente. Como se lê no texto:
"Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: – Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí..."
O chapéu não é o tema; é um recurso cômico para sustentar a ficção do cafezinho. As demais alternativas interpretam o chapéu literalmente, o que contraria o tom irônico da crônica.
A chave de resolução
O comando pede que se identifique o que a passagem evidencia — ou seja, qual ideia ela sustenta. A passagem está no meio de uma sequência em que o cronista propõe "fugir" das obrigações usando a desculpa do cafezinho. O chapéu serve exatamente para dar verossimilhança à desculpa: quem sai sem chapéu, espera-se que volte. Assim, a passagem reforça o mote central do texto: "Ele foi tomar café".
Alternativa A — ❌ Incorreta
Entende que o chapéu é de uso obrigatório, especialmente pelas autoridades.
O texto não menciona obrigatoriedade nem autoridades. O cronista fala de "comprar um chapéu especialmente para deixá-lo", o que é uma sugestão irônica, não uma regra. A alternativa extrapola ao acrescentar informação ausente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Argumenta que o delegado merece ser presenteado com um chapéu novo.
O delegado aparece apenas no início, como exemplo de quem "foi tomar café". Não há qualquer ideia de presente. A alternativa tangencia o texto, inventando uma relação que não existe.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Considera que um chapéu faz parte do aparato pessoal de um delegado.
Nada no texto associa chapéu a delegado. O chapéu é um objeto genérico, usado como símbolo da desculpa. A alternativa extrapola ao criar uma ligação específica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Reforça a ideia do comentário de que o funcionário foi tomar um cafezinho.
A passagem do chapéu está imediatamente ligada ao recado "Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...". O chapéu é o elemento que torna a desculpa crível. Portanto, a passagem reforça o mote do texto, que é a desculpa do cafezinho.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Concorda que o chapéu na mesa de trabalho é esquecimento do funcionário.
O texto não fala em esquecimento; fala em deixar o chapéu de propósito para simular que voltará. A alternativa contradiz o texto, pois inverte a intenção: não é descuido, é estratégia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a literalidade — todas as erradas tratam o chapéu como objeto real (obrigatório, presente, aparato, esquecimento), quando ele é um recurso irônico a serviço da desculpa do cafezinho.
PEGA ESSA DICA!
Em crônicas, desconfie de interpretações literais. Pergunte: "qual ideia central essa passagem sustenta?" — a resposta está no contexto e no tom.