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Questão de Português — Coesão e coerência — VUNESP 2022

PortuguêsCoesão e coerência
Código
vu068702
Banca
VUNESP
Órgão
PC-SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Médico Legista

      Um homem sem perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse:

      – Moça, me dá um dinheiro para eu comer?

      “Socorro!!!” gritou para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “Socorre-me, Deus”, disse baixinho. 

      Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel onde ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela. “Da dela?” “Que espécie de ela era para ser ‘da dela’?”

      Pensamento do mendigo: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”. Ocorreu-lhe então, um pouco cansado: “ou dará quase nada”.

      Ela estava espantada: como praticamente não andava na rua – era de carro de porta a porta – chegou a pensar: ele vai me matar? Estava atarantada e perguntou:

      – Quanto é que se costuma dar?

      – O que a pessoa pode dar e quer dar – respondeu o mendigo espantadíssimo.

      Ela, que não pagava salão de beleza, o gerente deste mandava cada mês sua conta para a secretária de seu marido. “Marido”. Ela pensou: o marido o que faria com o mendigo? Sabia que: nada. Eles não fazem nada. E ela – ela era “eles” também.

      Perguntou:

      – Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.

      O mendigo olhou-a espantado.

      – Está rindo de mim, moça?

      – Eu?? Não estou não, eu tenho mesmo os quinhentos na bolsa... 

      Abriu-a, tirou a nota e estendeu-a humildemente ao homem, quase lhe pedindo desculpas.

      O homem perplexo.

      E depois rindo, mostrando as gengivas quase vazias:

      – Olhe – disse ele –, ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que a roubei, ninguém vai me acreditar.

      – Eu não tenho trocado, só tenho essa nota de quinhentos.



(Clarice Lispector, “A Bela e a Fera ou a Ferida Grande Demais”. O primeiro beijo e outros contos. Fragmento)


Assinale a alternativa em que o enunciado é coerente com o sentido do texto e as palavras estão grafadas e acentuadas de acordo com a norma-padrão.
  1. AO homem pára em frente a mulher e lhe pede algum dinheiro. Diante de sua exitação, ele pensa: “ela dará quase nada”. E isso realmente ocorre com a nota de quinhentos.
  2. BA mulher estava espantada: praticamente não andava a pé (aquele dia era uma excessão) – era de carro de porta a porta. Chegou a pensar que o homem a mataria.
  3. CParalizado diante da mulher, o homem pensa: “não sou bem vindo, essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”.
  4. DA mulher entendia que a infraestrutura do hotel onde ficava o cabeleireiro, na Avenida Atlântica, atraía um público mais confiável do que o da Avenida Copacabana.
  5. EO homem falou: “ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que a roubei, pois as pessoas não crêem em um homem como eu”.
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GabaritoD — A mulher entendia que a infraestrutura do hotel onde ficava o cabeleireiro, na Avenida Atlântica, atraía um público mais confiável do que o da Avenida Copacabana.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coerência com o texto e norma-padrão: a infraestrutura do hotel

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que não contradiz o texto e está grafada e acentuada conforme a norma-padrão. Ela parafraseia corretamente a passagem em que a mulher pensa que, se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel onde ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse — ou seja, o hotel atraía um público mais confiável do que o da Avenida Copacabana. As demais alternativas falham por erros de grafia/acentuação ou por contradizer o texto.

A questão combina dois filtros: coerência com o sentido do texto e correção ortográfica/acentual. Para resolvê-la, é preciso testar cada alternativa nos dois critérios — uma alternativa pode estar gramaticalmente correta, mas incoerente com o texto, e vice-versa. A única que passa nos dois é a D.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A contém dois erros de grafia: “pára” (sem acento, pois o verbo “parar” não leva mais acento diferencial desde o Acordo Ortográfico de 1990) e “exitação” (o correto é “hesitação”). Além disso, há um problema de coerência: o texto diz que a mulher deu os quinhentos cruzeiros ao mendigo, mas a alternativa afirma que “isso realmente ocorre com a nota de quinhentos” — o que é verdadeiro, pois ela deu a nota. O erro principal, portanto, é o desvio ortográfico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B apresenta dois erros de grafia: “excessão” (o correto é “exceção”) e “paralizado” (o correto é “paralisado”). Além disso, o texto não diz que “aquele dia era uma exceção” — essa informação é extrapolada, pois o texto apenas afirma que ela “praticamente não andava na rua – era de carro de porta a porta”. A alternativa acrescenta um dado que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C contém erros de grafia: “Paralizado” (o correto é “Paralisado”) e “bem vindo” (o correto é “bem-vindo”, com hífen). Além disso, o texto não diz que o homem pensou “não sou bem vindo” — essa fala não existe no texto. O pensamento do mendigo é: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”. A alternativa contradiz o texto ao inserir uma fala que não ocorre.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D está coerente com o texto e gramaticalmente correta. O texto afirma:

“Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel onde ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse.”

Essa passagem mostra que a mulher associava a Avenida Atlântica a um público mais seleto (o hotel não permitiria a aproximação de “essa gente”), em contraste com a Avenida Copacabana, onde “tudo era possível: pessoas de toda a espécie”. A alternativa D parafraseia essa ideia ao dizer que a mulher entendia que a infraestrutura do hotel “atraía um público mais confiável do que o da Avenida Copacabana”. A palavra “infraestrutura” está grafada corretamente (com “infra-” + “estrutura”), e a frase está acentuada conforme a norma-padrão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E contém erro de grafia: “crêem” (o correto é “creem”, sem acento, pois a regra do hiato em “-eem” foi abolida). Além disso, a fala atribuída ao homem está parcialmente correta quanto ao sentido, mas o erro ortográfico já a invalida. O texto diz: “Olhe – disse ele –, ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que a roubei, ninguém vai me acreditar.” A alternativa E parafraseia essa fala, mas com o erro de grafia em “crêem”.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura erros de grafia/acentuação com incoerências textuais. A alternativa D é a única que não tropeça em nenhum dos dois filtros. Desconfie de palavras como “pára”, “excessão”, “paralizado”, “bem vindo” e “crêem” — todas violam a norma-padrão.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões que pedem “coerência com o texto” e “norma-padrão”, teste primeiro a grafia (elimina muitas alternativas) e depois confronte o sentido com o texto. A alternativa D é a única que passa nos dois testes.

Gabarito: letra D.

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