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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2022

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu068703
Banca
VUNESP
Órgão
PC-SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Médico Legista

      Um homem sem perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse:

      – Moça, me dá um dinheiro para eu comer?

      “Socorro!!!” gritou para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “Socorre-me, Deus”, disse baixinho. 

      Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel onde ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela. “Da dela?” “Que espécie de ela era para ser ‘da dela’?”

      Pensamento do mendigo: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”. Ocorreu-lhe então, um pouco cansado: “ou dará quase nada”.

      Ela estava espantada: como praticamente não andava na rua – era de carro de porta a porta – chegou a pensar: ele vai me matar? Estava atarantada e perguntou:

      – Quanto é que se costuma dar?

      – O que a pessoa pode dar e quer dar – respondeu o mendigo espantadíssimo.

      Ela, que não pagava salão de beleza, o gerente deste mandava cada mês sua conta para a secretária de seu marido. “Marido”. Ela pensou: o marido o que faria com o mendigo? Sabia que: nada. Eles não fazem nada. E ela – ela era “eles” também.

      Perguntou:

      – Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.

      O mendigo olhou-a espantado.

      – Está rindo de mim, moça?

      – Eu?? Não estou não, eu tenho mesmo os quinhentos na bolsa... 

      Abriu-a, tirou a nota e estendeu-a humildemente ao homem, quase lhe pedindo desculpas.

      O homem perplexo.

      E depois rindo, mostrando as gengivas quase vazias:

      – Olhe – disse ele –, ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que a roubei, ninguém vai me acreditar.

      – Eu não tenho trocado, só tenho essa nota de quinhentos.



(Clarice Lispector, “A Bela e a Fera ou a Ferida Grande Demais”. O primeiro beijo e outros contos. Fragmento)


No texto, a tensão estabelecida entre as personagens se dá, também, por uma relação de
  1. Adesdém, como se comprova com a passagem: Ocorreu-lhe então, um pouco cansado: “ou dará quase nada”.
  2. Bviolência, como se comprova com a passagem: Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta.
  3. Creligiosidade, como se comprova com a passagem: “Socorro!!!” gritou para sim mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem.
  4. Dempatia, como se comprova com a passagem: – Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.
  5. Eclasses sociais, como se comprova com a passagem: Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie.
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GabaritoE — classes sociais, como se comprova com a passagem: Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie.

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A tensão entre as personagens: a relação de classes sociais

Gabarito: letra E. A tensão entre a moça e o mendigo se dá, também, por uma relação de classes sociais, como se comprova na passagem: “Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie.” A chave está na oposição entre o mundo protegido da moça (que “não andava na rua – era de carro de porta a porta”) e o mundo exposto do mendigo, marcado pela diferença de “espécie”.

O comando pede interpretação (“a tensão se dá, também, por uma relação de...”), ou seja, exige que você identifique o tema subjacente que organiza o conflito. Não basta achar uma frase que mencione um sentimento; é preciso ver qual categoria social estrutura o embate. O texto é um fragmento de Clarice Lispector em que a moça, rica e protegida, encontra um mendigo mutilado. A tensão nasce do estranhamento entre dois universos sociais: ela pensa “pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela”, e o mendigo a vê como “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa”.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A passagem “Ocorreu-lhe então, um pouco cansado: ‘ou dará quase nada’” expressa a expectativa do mendigo sobre a quantia que receberá, não desdém da moça. O desdém seria um sentimento de superioridade explícito; aqui há apenas ceticismo (“ou dará quase nada”). A alternativa extrapola o sentido: atribui ao mendigo um sentimento que o texto não autoriza — ele está “cansado” e “espantadíssimo”, não desdenhoso.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta” descreve a sensação de vulnerabilidade da moça diante do mendigo, não uma relação de violência. Não há agressão física ou ameaça explícita; o medo dela (“ele vai me matar?”) é uma fantasia gerada pelo desconforto, não um fato narrado. A alternativa contradiz o texto: a exposição é psicológica, não violenta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Socorro!!! gritou para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem” mostra o pavor da moça diante da ferida, não religiosidade. O “Socorre-me, Deus” é uma interjeição de desespero, não uma prática religiosa. A alternativa troca o conceito: confunde um pedido de socorro (apelo emocional) com devoção religiosa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho” revela a generosidade da moça, mas não empatia no sentido de compreender o outro. Ela dá o dinheiro por culpa e constrangimento (“quase lhe pedindo desculpas”), não por identificação com a dor do mendigo. A alternativa acrescenta opinião: o texto não diz que ela sente o que ele sente; ela apenas reage com piedade e desconforto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A passagem “Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie” é a âncora da relação de classes. O “Mas” opõe a Avenida Copacabana (onde “tudo era possível”) ao mundo protegido da moça, que “não andava na rua – era de carro de porta a porta”. A expressão “pessoas de toda a espécie” e o pensamento seguinte — “Pelo menos de espécie diferente da dela” — explicitam a distância social entre os dois. A tensão é, portanto, entre classes sociais: a moça rica e o mendigo pobre, separados por um abismo que o encontro na rua expõe.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com sentimentos (desdém, violência, religiosidade, empatia) que o texto não sustenta. A única alternativa que se ancora em uma categoria social — e não em um sentimento — é a E.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de “relação entre personagens”, pergunte-se: qual eixo organiza o conflito? Sentimento (medo, pena) ou estrutura social (classe, poder)? O texto de Lispector é sobre o abismo de classe, não sobre emoções individuais.

Gabarito: letra E.

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