Céu e mar estão competindo pelo azul nesta primavera
carioca – um azul de tinteiro, de caneta Parker. Todas as manhãs, o calçadão Ipanema-Leblon transborda de gente contente por apenas estar ali, exercendo o seu direito de viver.
É gente de vários estratos, idades, cores, línguas e de todos
os estilos de caminhar ou correr. A exceção é a minoria que,
indiferente ao azul, caminha atracada ao celular, o cenho
franzido, discutindo coisas inadiáveis.
Minoria na orla, mas maioria ao redor. No próprio calçadão, já vi um sem-teto em andrajos, sentado na escadaria
do Leblon, falando ao celular. Sentei-me ao seu lado como
quem não quer nada, tentando ouvir retalhos da conversa.
Falava numa língua que eu não entendia, talvez português.
Tudo bem, o importante era o homem falando ao celular – o
meio era a mensagem.
Há pouco, num shopping, um menino de quatro ou cinco
anos levava ao ouvido um ursinho de pelúcia. Não sei se o
ursinho tinha um celular embutido. Podia ser como o menino
enxergava os adultos – todos com um objeto à orelha – e
achasse que aquela era a maneira de usar o mundo.
Não seria uma visão absurda. Descendo no Aeroporto
Santos-Dumont na semana passada, eu era o único passageiro sem o telefone ao ouvido. Em vez disso, trazia na mão
um objeto outrora tão popular quanto o celular: um livro. Por
acaso, uma edição de bolso do clássico “Memórias de um
Sargento de Milícias”.
Instintivamente, repeti o gesto de todo mundo e levei o
livro à orelha. E, então, deu-se o milagre. Escutei a voz dos
personagens de Manuel Antonio de Almeida. Vozes vindas de
um tempo remoto – mas que chegavam a mim com incrível
nitidez.
(Ruy Castro. A arte de querer bem - Crônicas.
Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2018. Excerto adaptado)
Para responder à questão, considere a seguinte passagem do 1° parágrafo:
Todas as manhãs, o calçadão Ipanema-Leblon transborda de gente contente por apenas estar ali, exercendo o seu direito de viver. É gente de vários estratos, idades, cores, línguas e de todos os estilos de caminhar ou correr.
O termo destacado na frase – ... gente contente por apenas estar ali... – exprime a noção de
Acausa.
Bmodo.
Cposse.
Dtempo.
Eoposição.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — causa.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Valor semântico de "por" em "contentes por apenas estar ali"
Gabarito: letra A. O termo "por" exprime causa: as pessoas estão contentes porque apenas estão ali, ou seja, o simples fato de estar no calçadão é o motivo da contentamento. A prova está na própria passagem: "gente contente por apenas estar ali" — a preposição "por" + infinitivo equivale a "porque estão ali", instaurando uma relação de causa e consequência.
A questão é de interpretação de valor semântico de conectivo: não se pergunta o que o texto diz, mas que relação lógica o termo destacado estabelece. Para resolver, basta substituir mentalmente "por" por "porque" e verificar se a frase mantém o sentido: "contentes porque apenas estão ali" — perfeito, é causa.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Todas as manhãs, o calçadão Ipanema-Leblon transborda de gente contente por apenas estar ali, exercendo o seu direito de viver."
A preposição por + infinitivo (por estar) tem valor causal: indica o motivo que torna as pessoas contentes. A oração "por apenas estar ali" responde à pergunta "por que estão contentes?" — exatamente a função de uma causa. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Modo indicaria como se dá a ação (ex.: "contentes por andar depressa"). O texto não descreve a maneira de estar ali, mas o motivo de estar contente. A banca tenta confundir porque "por" também pode indicar modo em outros contextos, mas aqui o sentido é claramente causal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Posse é relação de pertencimento (ex.: "o livro de Pedro"). Não há qualquer ideia de posse na expressão "por apenas estar ali". A alternativa tangencia o texto: fala de um valor semântico que a preposição pode ter, mas que não ocorre neste trecho.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Tempo indicaria quando (ex.: "contentes por manhãs de sol"). O trecho não expressa circunstância temporal; o "por" não equivale a "durante" ou "em". A relação é de causa, não de tempo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Oposição seria marcada por conectivos como "mas", "porém", "embora". Não há qualquer contraste ou ressalva na passagem. A alternativa contradiz a relação estabelecida: o texto afirma uma consequência (contentamento) de uma causa (estar ali), não uma oposição.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia da preposição "por", que pode indicar causa, modo, lugar, meio etc. O candidato que não substitui o termo por "porque" cai na armadilha de escolher "modo".
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o valor de um conectivo, substitua-o por outro de mesmo valor e veja se o sentido se mantém. "Por" = "porque" → causa; "por" = "através de" → meio; "por" = "durante" → tempo.