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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu071393
Banca
VUNESP
Órgão
Prodesan - SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Administrador Pleno
Leia o texto para responder a questão.

        Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, suores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado: HIV positivo. O médico viajara para Yokohama, no Japão. O teste na mão, fiquei três dias bem natural, comunicando à família, aos amigos. Na terceira noite, amigos em casa, me sentindo seguro – enlouqueci. Não sei detalhes. Por autoproteção, talvez, não lembro. Fui levado para o pronto-socorro do Hospital Emílio Ribas com a suspeita de um tumor no cérebro. No dia seguinte, acordei de um sono drogado num leito de enfermaria de infectologia, com minha irmã entrando no quarto. Depois, foram 27 dias habitados por sustos e anjos – médicos, enfermeiras, amigos, família, sem falar nos próprios – e uma corrente tão forte de amor e energia que amor e energia brotaram de dentro de mim até tornarem-se uma coisa só. O de dentro e o de fora unidos em pura fé.

        A vida me dava pena, e eu não sabia que o corpo podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério no outro lado da rua. Mas à noite, quando os neons acendiam, de certo ângulo a Dr. Arnaldo parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada. Após, o voo de Ícaro perseguindo Apolo. E a queda?

(“Última carta para além dos muros”. Caio Fernando Abreu, Pequenas epifanias: 2014. [Publicado originalmente em 1994]. Adaptado)
O texto apresenta
  1. Auma história fantasiosa do narrador, exagerada por ele pelo medo das consequências da doença.
  2. Bum fato da própria vida do narrador, relatado em comparação com um sonho do qual saiu ileso.
  3. Cum relato da vivência do narrador, marcado pela descoberta da infecção pelo vírus do HIV.
  4. Dum comentário do narrador, trazido à discussão pelos perigos que o HIV pode representar.
  5. Euma denúncia do narrador, produzida com a finalidade de mostrar a importância da ciência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — um relato da vivência do narrador, marcado pela descoberta da infecção pelo vírus do HIV.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Identificação do tipo textual: relato de vivência pessoal

Gabarito: letra C. O texto apresenta um relato da vivência do narrador, marcado pela descoberta da infecção pelo vírus do HIV, como se comprova na passagem em que ele narra:

"fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado: HIV positivo."

A chave da questão está em reconhecer que o texto é uma narrativa em primeira pessoa — um relato pessoal de um episódio real da vida do narrador — e não uma fantasia, um sonho, um comentário genérico ou uma denúncia. O comando pede apenas que se identifique o que o texto apresenta (compreensão/recorrência), não que se faça uma inferência profunda.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto é uma "história fantasiosa do narrador, exagerada por ele pelo medo das consequências da doença". Isso contradiz o texto: o narrador relata fatos concretos e verossímeis — sintomas, exame, resultado, internação — sem nenhum elemento que indique fantasia ou exagero. O medo aparece, mas como reação emocional, não como causa de uma narrativa fantasiosa. A alternativa extrapola ao atribuir ao texto uma intenção de exagero que não está registrada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o texto relata "um fato da própria vida do narrador, relatado em comparação com um sonho do qual saiu ileso". O texto realmente relata um fato da vida do narrador, mas não há comparação com um sonho — o narrador fala de uma internação real, de 27 dias no hospital, e não de um sonho. A expressão "saiu ileso" também não encontra apoio: o narrador descreve sofrimento, dor e fragilidade. A alternativa tangencia o tema ao introduzir a ideia de sonho, que não existe no texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa correta resume com precisão o conteúdo do texto: um relato em primeira pessoa da descoberta da infecção pelo HIV. O trecho citado na abertura — "o resultado: HIV positivo" — é a confirmação explícita. Além disso, o narrador descreve a sequência de eventos: sintomas, exame, espera, resultado, crise, internação e recuperação. É exatamente isso que a alternativa C afirma: "um relato da vivência do narrador, marcado pela descoberta da infecção pelo vírus do HIV".

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto é "um comentário do narrador, trazido à discussão pelos perigos que o HIV pode representar". O texto não é um comentário nem uma discussão sobre os perigos do HIV em geral; é a narração de uma experiência pessoal. A palavra "comentário" sugere um texto opinativo ou expositivo, o que não corresponde à tipologia do texto, que é claramente narrativa. A alternativa troca o tipo textual e tangencia o tema central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o texto é "uma denúncia do narrador, produzida com a finalidade de mostrar a importância da ciência". Não há denúncia no texto — o narrador não acusa ninguém nem critica instituições. Tampouco há a finalidade de "mostrar a importância da ciência": o médico aparece, mas não há defesa ou exaltação da ciência. A alternativa extrapola ao inventar um propósito que o texto não declara.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre relato de vivência pessoal e outros propósitos textuais (fantasia, denúncia, comentário). A alternativa B é a mais sedutora porque começa correta ("um fato da própria vida do narrador"), mas acrescenta a ideia de "sonho" — que não existe no texto. Fique atento a alternativas que misturam uma parte verdadeira com uma invenção.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o tipo textual, pergunte-se: o texto conta uma história com personagens, tempo e espaço (narrativo)? Ou defende uma tese (argumentativo)? Ou explica um assunto (expositivo)? Aqui, a presença de verbos no pretérito ("voltei", "fiz", "fiquei", "acordei") e a sequência de eventos confirmam a narração.

Gabarito: letra C — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, que é um relato pessoal da descoberta da infecção pelo HIV.

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