Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Crase — VUNESP 2022

PortuguêsCrase
Código
vu071540
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Assistente Social Judiciário

        Em uma sociedade desigual, aqueles que alcançam o topo querem acreditar que seu sucesso tem justificativa moral. Em uma sociedade de meritocracia* , isso significa que os vencedores devem acreditar que conquistaram o sucesso através do próprio talento e empenho. Quem entra em uma universidade pública de prestígio com credenciais brilhantes se orgulha da conquista e considera que o fez por conta própria. Mas isso, de certa forma, é ilusório. Ainda que seja verdade o fato de a entrada refletir dedicação e empenho, não se pode dizer que foi somente resultado da própria ação. E o que dizer a respeito de pai, mãe e professores que ajudaram ao longo do caminho? E a sorte de viver em uma sociedade que cultiva e recompensa os talentos que eles por acaso têm?

        As pessoas que, por meio de um pouco de esforço e talento, prevalecem em uma meritocracia ficam endividadas de uma forma que a competição ofusca. À medida que a meritocracia se intensifica, o esforço nos absorve tanto que o fato de estarmos endividados sai de vista. Dessa maneira, até mesmo uma meritocracia justa, uma em que não haja trapaça, ou suborno, ou privilégios especiais para os ricos, induz a uma impressão equivocada: de que chegamos lá por conta própria. Os anos de árduo esforço exigidos de candidatos a universidades de elite praticamente os obriga a acreditar que o sucesso deles é resultado das próprias ações, e, se fracassarem, não terão a quem culpar, a não ser a si mesmos.

        Esse é um fardo pesado para pessoas jovens carregarem. Além disso, corrói sensibilidades cívicas. Porque quanto mais pensarmos em nós como pessoas que vencem pelo próprio esforço e que são autossuficientes, mais difícil será aprender a ter gratidão e humildade. E sem esses sentimentos é difícil se importar com o bem comum.

        O ingresso em universidades não é a única ocasião para discussões sobre mérito. Na política contemporânea, há uma abundância de debates acerca de quem merece o quê. Na superfície, esses debates são sobre o que é justo – todo mundo tem oportunidades verdadeiramente iguais para competir por bens desejáveis e posições sociais? No entanto, nossas discordâncias a propósito do mérito não são apenas em relação a ser justo mas também quanto a como definimos sucesso e fracasso, vencer e perder, e o comportamento que vencedores devem direcionar àqueles menos bem-sucedidos do que eles. Essas são questões bastante pesadas e que tentamos evitar, até o momento em que elas se lançam sobre nós. Precisamos perguntar se a solução para nossa política conflituosa é viver mais fielmente pelo princípio do mérito ou buscar um bem comum além da classificação e da luta.

* meritocracia: sistema de recompensa e/ou promoção fundamentado no mérito pessoal


(Michael J. Sandel. A tirania do mérito:

o que aconteceu com o bem comum? Trad. Bhuvi Libanio. – 4ª ed.

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021. Excerto adaptado)

Assinale a alternativa em que, na frase que completa o enunciado a seguir, o acento indicativo da crase está empregado em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa.O debate sobre a meritocracia envolve o comportamento que vencedores devem direcionar...
  1. Aà algumas pessoas que não foram exatamente bem-sucedidas.
  2. Bà uma grande quantidade de pessoas que não foram bem-sucedidas.
  3. Cà quem que não teve a chance de ser bem-sucedido.
  4. Dà parcela de pessoas que não pôde ser bem-sucedida.
  5. Eà todas as pessoas que não foram igualmente bem-sucedidas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — à parcela de pessoas que não pôde ser bem-sucedida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase: o acento grave antes de substantivo feminino determinado

Gabarito: letra D. A única alternativa em que o acento indicativo de crase está correto é a D, pois o verbo direcionar exige a preposição a e o substantivo feminino parcela admite o artigo a — ocorre a fusão a + a = à. Nas demais, a crase é proibida porque o termo seguinte não admite o artigo feminino (pronome indefinido, numeral ou pronome relativo).

A questão cobra a regra prática da crase: só há acento grave quando há preposição "a" (exigida pelo termo anterior) + artigo feminino "a" (que determina o termo seguinte). O verbo direcionar rege a preposição adirecionar algo a alguém —, como se lê no texto-base: "o comportamento que vencedores devem direcionar...". Portanto, o complemento deve ser introduzido por a. A crase ocorrerá apenas se o termo seguinte for uma palavra feminina determinada por artigo.

1Requisitos
Preposição "a" (regência)
Artigo feminino "a" (determinante)
2Proibida antes de
Pronome indefinido (algumas, todas)
Numeral (uma)
Pronome relativo (quem)
3Permitida antes de
Substantivo feminino determinado (parcela)
Crase: a + a = à
LEVELsoulevel.com.br
Crase: a + a = à: Requisitos (Preposição "a" (regência), Artigo feminino "a" (determinante)); Proibida antes de (Pronome indefinido (algumas, todas), Numeral (uma), Pronome relativo (quem)); Permitida antes de (Substantivo feminino determinado (parcela))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A crase é proibida antes de pronome indefinido. Em "à algumas pessoas", o vocábulo algumas é pronome indefinido e não admite artigo — não se diz "as algumas pessoas". Logo, há apenas a preposição a, sem artigo: direcionar a algumas pessoas. O acento grave é indevido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A crase é proibida antes de numeral. Em "à uma grande quantidade", o uma é artigo indefinido/numeral e não admite a contração com outro artigo — não existe "a uma" com crase. O correto é direcionar a uma grande quantidade. O acento grave é indevido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A crase é proibida antes do pronome relativo *quem. Em "à quem", o *quem é pronome relativo e nunca aceita artigo — não se diz "a quem" com crase. O correto é direcionar a quem. O acento grave é indevido.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Aqui há preposição + artigo feminino: direcionar exige a; parcela é substantivo feminino que admite o artigo aa parcela. A fusão a + a = à é legítima: direcionar à parcela de pessoas. É o único caso em que o termo seguinte é um substantivo feminino determinado, exatamente o que a regra exige.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A crase é proibida antes de pronome indefinido. Em "à todas as pessoas", o todas é pronome indefinido e não admite artigo — não se diz "as todas as pessoas". O correto é direcionar a todas as pessoas. O acento grave é indevido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca repete o mesmo erro em quatro alternativas — usar crase antes de palavras que não admitem artigo feminino (pronomes indefinidos, numeral e pronome relativo). A única que foge ao padrão é a D, com substantivo feminino determinado.

PEGA ESSA DICA!

Aplique a regra do troca: substitua o termo feminino por um masculino equivalente. Se aparecer ao, há crase; se aparecer apenas ao sem contração, não há. Em "à parcela", trocando por "ao grupo" (masculino), aparece ao → crase confirmada. Em "à algumas", trocando por "a alguns", não há contração → sem crase.

Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/vu071540