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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu071612
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Psicólogo Judiciário
Leia o texto para responder à questão.

   Aspas têm sido úteis no decorrer da minha vida e, imagino, na de inúmeras pessoas também. Na escola, ao usá-las pela primeira vez numa redação, provoquei até emoção na professora. Ganhei elogios. Coisa de que nunca se esquece.
   Utilizar aspas em uma palavra ou expressão não significa perdão ou redenção. É falso, também, dizer que amenizam o próprio conteúdo ou o impacto dessas expressões. Ao contrário, todo pensamento escrito, sinalizado ou falado “entre aspas” vale mais ainda, e por duas razões.
   Primeiro: usar aspas é uma escolha consciente. Não decidimos abrir aspas pela ameaça de um revólver na cabeça, por chantagem emocional ou financeira. Palavras e expressões entre aspas são selecionadas com autonomia e independência e, assim, refletem e registram opiniões e intenções.
   Segundo, ao usar aspas, a pessoa faz uma denúncia de si mesma. Algo do inconsciente humano vive precisamente entre o abre aspas e o fecha aspas. Ao utilizá-las, revelamos um pouquinho do que habitualmente escondemos ou contamos só pela metade, devagarinho, de modo a ir calibrando a reação da sociedade, de quem amamos, de qualquer pessoa ou grupo que nos afete.
   Apenas nos últimos dias ecoou dentro de mim um alerta sobre o uso das aspas, pois me dei conta de que esse sinal gráfico em forma de pequenas alças – como as aspas são descritas nos dicionários – é de uso arriscado, enganoso e potencialmente danoso. Seu uso, hoje deduzo, não é tão inofensivo.

(Cláudia Werneck. Aspas nunca mais. www1.folha.uol.com.br, 08.09.2021. Adaptado)
O trecho reescrito encontra-se em conformidade com o sentido original e com a norma-padrão da língua portuguesa em:
  1. A“Na escola, ao usá-las pela primeira vez numa redação, provoquei até emoção na professora” (1º parágrafo) / Na escola, ao usá-las primordialmente numa redação, provoquei até emoção na professora.
  2. B“Palavras e expressões entre aspas são selecionadas com autonomia e independência…” (3º parágrafo) / Palavras e expressões entre aspas são selecionadas autonoma e independentemente…
  3. C“… é de uso arriscado, enganoso e potencialmente danoso” (5º parágrafo) / … é arriscadamente e enganosamente usual e potencialmente danoso.
  4. D“… revelamos um pouquinho do que habitualmente escondemos ou contamos só pela metade…” (4º parágrafo) / … revelamos um pouquinho do que escondemos de modo habitual ou contamos só parcialmente…
  5. E“Algo do inconsciente humano vive precisamente entre o abre aspas e o fecha aspas” (4º parágrafo) / Algo do inconsciente humano precisa viver entre o abre aspas e o fecha aspas.
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GabaritoD — “… revelamos um pouquinho do que habitualmente escondemos ou contamos só pela metade…” (4º parágrafo) / … revelamos um pouquinho do que escondemos de modo habitual ou contamos só parcialmente…

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Reescrita sem alteração de sentido e com norma-padrão

Gabarito: letra D. A alternativa D preserva o sentido original e obedece à norma-padrão, pois substitui a locução adverbial "habitualmente" por "de modo habitual" e a expressão "só pela metade" por "só parcialmente", mantendo exatamente o mesmo valor semântico. As demais alternativas ou alteram o sentido (A, C, E) ou apresentam erro gramatical (B).

A questão pede que você verifique se a reescrita mantém o sentido e está de acordo com a norma-padrão. O comando é claro: "encontra-se em conformidade com o sentido original e com a norma-padrão". Portanto, você deve testar cada alternativa em dois aspectos: (1) o sentido não pode mudar; (2) a gramática não pode ser violada.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: troca de sentido (extrapolação). A reescrita troca "pela primeira vez" por "primordialmente". No texto, "pela primeira vez" indica ordem temporal (a primeira ocasião em que usou aspas). "Primordialmente" significa "principalmente", "acima de tudo" — sentido de prioridade, não de sequência. A troca altera o significado original.

"Na escola, ao usá-las pela primeira vez numa redação, provoquei até emoção na professora."

A passagem mostra que o fato de ser a primeira vez é o que importa; "primordialmente" não transmite essa ideia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: violação da norma-padrão (grafia). A reescrita escreve "autonoma" sem acento. A forma correta é "autônoma" (proparoxítona, acento obrigatório). Além disso, a construção "autonoma e independentemente" mistura adjetivo e advérbio sem paralelismo adequado. O original usa substantivos: "com autonomia e independência". A reescrita quebra a estrutura e comete erro de acentuação.

"Palavras e expressões entre aspas são selecionadas com autonomia e independência…"

A forma correta seria "autônoma e independentemente" (com acento), mas ainda assim a mudança de classe gramatical altera o estilo, embora o sentido permaneça. O erro de grafia já basta para eliminar.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de sentido e violação da norma-padrão. A reescrita transforma os adjetivos "arriscado, enganoso e danoso" em advérbios: "arriscadamente e enganosamente usual". Isso inverte a lógica: no original, o uso é arriscado, enganoso e danoso; na reescrita, o uso é "arriscadamente e enganosamente usual", ou seja, o que é usual é que é arriscado e enganoso — sentido completamente diferente. Além disso, "potencialmente danoso" foi mantido, mas a estrutura "arriscadamente e enganosamente usual" é artificial e não padrão.

"… é de uso arriscado, enganoso e potencialmente danoso"

O original atribui três qualidades ao uso; a reescrita embaralha essas qualidades.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A reescrita preserva o sentido e está na norma-padrão. Vejamos:

  • "habitualmente""de modo habitual": ambas expressam frequência (o que se faz com regularidade). São equivalentes semânticos.

  • "só pela metade""só parcialmente": ambas indicam incompletude (não inteiramente). "Pela metade" é uma expressão figurada que significa "parcialmente"; a troca mantém o sentido.

"… revelamos um pouquinho do que habitualmente escondemos ou contamos só pela metade…"

A reescrita "revelamos um pouquinho do que escondemos de modo habitual ou contamos só parcialmente" mantém exatamente o mesmo conteúdo: revelamos pouco do que escondemos com frequência ou contamos de forma incompleta. Não há mudança de sentido nem erro gramatical.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de sentido (mudança de classe gramatical). O original usa "precisamente" como advérbio, significando "exatamente". A reescrita usa "precisa" como verbo (precisar = necessitar), alterando completamente o sentido: "Algo do inconsciente humano precisa viver" significa que o inconsciente necessita viver, enquanto o original afirma que algo vive exatamente entre as aspas. A troca de advérbio por verbo muda o significado.

"Algo do inconsciente humano vive precisamente entre o abre aspas e o fecha aspas"

A reescrita "precisa viver" inverte a ideia: de uma constatação para uma necessidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia e a mudança de classe gramatical. Em E, "precisamente" (advérbio) vira "precisa" (verbo) — a pegadinha clássica de trocar uma palavra por outra parecida, mas de classe diferente, que altera o sentido. Em A, troca-se "pela primeira vez" por "primordialmente", que parece sinônimo, mas não é.

PEGA ESSA DICA!

Ao reescrever, teste cada palavra trocada: pergunte-se "essa palavra tem o mesmo sentido no contexto?" e "a classe gramatical é a mesma?". Desconfie de trocas que mudam advérbio por verbo, adjetivo por advérbio, ou que usam palavras parecidas com sentido diferente.

Gabarito: letra D.

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