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Questão de Português — Crase — VUNESP 2022

PortuguêsCrase
Código
vu071884
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
V - - Assistente Técnico Administrativo I
Leia o texto de Rubem Braga, escrito em novembro de 1944, quando o autor era correspondente de guerra, para responder à questão.

A procissão de guerra

   Corremos pela estrada, mas o jipe tem de ir lentamente.
   Em sentido contrário, um pesado e lento comboio de enormes caminhões avança – e em nossa frente, na mesma direção em que vamos, se arrasta outro.
   É impossível passar. As estradas da Itália são boas, mas são estreitas. É preciso ter paciência.
    A esta hora, em milhares de outras estradas do mundo os caminhões estão assim, em comboios, rodando para a guerra ou para a retaguarda.
    É a procissão da guerra.
   Tu segues com uma caneta-tinteiro e um pedaço de chocolate no bolso. Aquele leva caixas de comida, o outro caixas de munição, óculos para ver o inimigo, armas para matá-lo, botinas, braços e pernas, mapas, cérebros, cartas de mulheres distantes, saudosas ou não, com retratos de crianças, capotes – uma guerra se faz com tudo, exige tudo, engole tudo.
    Entramos em uma cidade e durante 20 minutos avançamos por ruas onde não há uma só casa em pé.
    Da primeira vez, confrangem essas ruas de casas estripadas que mostram as vísceras de suas paredes íntimas, num despudor de ruína completa.
    Nesses montes de escombros estão soterrados os reinos íntimos, as antigas ternuras, as inúteis e longas discussões domésticas – e, às vezes, num pedaço de parede que se equilibra entre ruínas, aparece, num ridículo macabro, a legenda da última fanfarronada fascista: Vincere!*
     Avançamos entre os montões de tijolos, pó e traves quebradas.
    Agora isso já não interessa aos nossos olhos: essa desgraça é monótona. Entretanto, nessa cidade devastada pela maldição da guerra, onde nem os ratos se arriscam mais, há alguma coisa que chama a atenção e comove.
     É um arbusto que tombou entre os escombros – mas em meio à montoeira de entulho ainda tenta sobreviver, e permanece verde, sugando, por escassos canais, debaixo da terra calcinada, alguma seiva rara.
    E essa pequena árvore que se recusa a morrer, essa pequena árvore patética, é a única nota de humanidade do quarteirão arrasado.
      Prossegue a nossa procissão e, afinal, nosso jipe se liberta e corre entre as campinas.


(Coleção melhores crônicas: Rubem Braga.
Seleção de Carlos Ribeiro. Global, 2013. Adaptado)

*“Vencer”, frase dita por Benito Mussolini.
O sinal indicativo de crase está corretamente empregado em:
  1. AOs soldados, em meio à devastação sem precedentes, tornam-se insensíveis à qualquer sofrimento.
  2. BTrabalhando à serviço da imprensa, Rubem Braga se dedicava à relatar as consequências da guerra.
  3. CÀ certo momento, quando a estrada fica livre à frente do jipe, surge uma sensação de liberdade.
  4. DQuanto à figura de Mussolini, o autor alude à ela externando desprezo e sarcasmo.
  5. EO autor rende-se à imagem do arbusto que se opõe aguerridamente à própria morte.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — O autor rende-se à imagem do arbusto que se opõe aguerridamente à própria morte.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase: a fusão da preposição "a" com o artigo feminino

Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que o acento grave é obrigatório e correto: "O autor rende-se à imagem do arbusto que se opõe aguerridamente à própria morte." A primeira crase ocorre porque o verbo "render-se" exige a preposição "a" e "imagem" admite o artigo feminino "a" (render-se a + a imagem = à imagem). A segunda, porque "opõe-se" também pede "a" e "morte" é palavra feminina que aceita artigo (opõe-se a + a morte = à morte). As demais alternativas erram por usar crase diante de palavra masculina, verbo, pronome indefinido ou pronome pessoal — casos em que a crase é proibida.

A questão cobra crase em sua dimensão sintática: é preciso verificar, em cada caso, se há a fusão da preposição "a" (exigida pela regência do verbo ou do nome) com o artigo feminino "a" (ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos/relativos). O texto-base de Rubem Braga serve de pano de fundo, mas a resolução é puramente gramatical: analisar a regência de cada verbo e a classe da palavra seguinte.

Crase (fusão a + a)
  • 1Obrigatória
    • Verbo exige "a" + palavra feminina com artigo
      • render-se a + a imagem = à imagem
      • opor-se a + a morte = à morte
    • Locuções adverbiais femininas
      • à frente
  • 2Proibida
    • Antes de palavra masculina
      • a serviço
    • Antes de verbo
      • a relatar
    • Antes de pronome indefinido
      • a qualquer
      • a certo
    • Antes de pronome pessoal
      • a ela
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os soldados, em meio à devastação sem precedentes, tornam-se insensíveis à qualquer sofrimento."

O erro está em "à qualquer": "qualquer" é pronome indefinido, e antes de pronome indefinido a crase é proibida — não há artigo feminino "a" para fundir com a preposição. O correto seria "a qualquer sofrimento" (apenas preposição). A banca explora a associação automática com a palavra feminina "sofrimento"? Não: "sofrimento" é masculino, mas o pronome indefinido bloqueia a crase independentemente do gênero. Erro: generalização indevida — o candidato vê "à" antes de palavra feminina e aceita, sem notar que o termo é pronome indefinido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Trabalhando à serviço da imprensa, Rubem Braga se dedicava à relatar as consequências da guerra."

Dois erros: (1) "à serviço" — "serviço" é palavra masculina, e crase antes de palavra masculina é proibida; o correto é "a serviço" (locução adverbial sem artigo). (2) "à relatar" — antes de verbo a crase é proibida; o correto é "a relatar" (preposição + infinitivo). A banca mistura dois casos clássicos de crase proibida na mesma alternativa. Erro: troca de conceito — o candidato confunde a preposição "a" (sem acento) com a crase.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"À certo momento, quando a estrada fica livre à frente do jipe, surge uma sensação de liberdade."

O erro está em "À certo": "certo" é pronome indefinido (ou adjetivo), e antes de pronome indefinido a crase é proibida; o correto é "A certo momento" (preposição). Já "à frente" está correto: é locução adverbial feminina, com crase obrigatória. A alternativa mistura um caso proibido com um obrigatório — o candidato pode ser atraído pelo acerto de "à frente" e não perceber o erro em "À certo". Erro: generalização indevida — a presença de uma crase correta mascara a incorreta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Quanto à figura de Mussolini, o autor alude à ela externando desprezo e sarcasmo."

O erro está em "à ela": antes de pronome pessoal (ela) a crase é proibida — pronomes pessoais não admitem artigo. O correto é "alude a ela" (preposição + pronome). Note que "Quanto à figura" está correto (locução prepositiva feminina), mas isso não salva a alternativa. Erro: troca de conceito — o candidato confunde a preposição "a" exigida por "aludir" com a crase, esquecendo que pronome pessoal bloqueia a fusão.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O autor rende-se à imagem do arbusto que se opõe aguerridamente à própria morte."

Duas crases corretas: (1) "rende-se à imagem" — o verbo "render-se" exige preposição "a" (quem se rende, rende-se a algo) e "imagem" é substantivo feminino que admite artigo "a": a + a = à. (2) "opõe-se à própria morte" — o verbo "opor-se" exige preposição "a" (quem se opõe, opõe-se a algo) e "morte" é substantivo feminino com artigo "a": a + a = à. Ambas são casos de crase obrigatória (preposição + artigo feminino). A alternativa é a única em que todas as ocorrências de "a" são crase legítima.

PEGA ESSA DICA!

Para testar a crase, substitua a palavra feminina por uma masculina equivalente: se aparecer "ao", há crase; se aparecer "ao" e a frase fizer sentido, confirme. Ex.: "rende-se ao arbusto" (masculino) → "rende-se à imagem" (feminino) = crase. Se a palavra for masculina, verbo, pronome indefinido ou pronome pessoal, a crase é proibida.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura casos corretos e incorretos na mesma alternativa (C e D), tentando fazer o candidato aceitar o erro por associação com o acerto. Fique atento a cada ocorrência de "a" — analise uma por uma.

Gabarito: letra E — a única em que todas as crases são obrigatórias e corretas.

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