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Questão de Português — Morfologia - Pronomes — VUNESP 2022

PortuguêsMorfologia - Pronomes
Código
vu071888
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
V - - Assistente Técnico Administrativo I
Leia o texto de Rubem Braga, escrito em novembro de 1944, quando o autor era correspondente de guerra, para responder à questão.

A procissão de guerra

   Corremos pela estrada, mas o jipe tem de ir lentamente.
   Em sentido contrário, um pesado e lento comboio de enormes caminhões avança – e em nossa frente, na mesma direção em que vamos, se arrasta outro.
   É impossível passar. As estradas da Itália são boas, mas são estreitas. É preciso ter paciência.
    A esta hora, em milhares de outras estradas do mundo os caminhões estão assim, em comboios, rodando para a guerra ou para a retaguarda.
    É a procissão da guerra.
   Tu segues com uma caneta-tinteiro e um pedaço de chocolate no bolso. Aquele leva caixas de comida, o outro caixas de munição, óculos para ver o inimigo, armas para matá-lo, botinas, braços e pernas, mapas, cérebros, cartas de mulheres distantes, saudosas ou não, com retratos de crianças, capotes – uma guerra se faz com tudo, exige tudo, engole tudo.
    Entramos em uma cidade e durante 20 minutos avançamos por ruas onde não há uma só casa em pé.
    Da primeira vez, confrangem essas ruas de casas estripadas que mostram as vísceras de suas paredes íntimas, num despudor de ruína completa.
    Nesses montes de escombros estão soterrados os reinos íntimos, as antigas ternuras, as inúteis e longas discussões domésticas – e, às vezes, num pedaço de parede que se equilibra entre ruínas, aparece, num ridículo macabro, a legenda da última fanfarronada fascista: Vincere!*
     Avançamos entre os montões de tijolos, pó e traves quebradas.
    Agora isso já não interessa aos nossos olhos: essa desgraça é monótona. Entretanto, nessa cidade devastada pela maldição da guerra, onde nem os ratos se arriscam mais, há alguma coisa que chama a atenção e comove.
     É um arbusto que tombou entre os escombros – mas em meio à montoeira de entulho ainda tenta sobreviver, e permanece verde, sugando, por escassos canais, debaixo da terra calcinada, alguma seiva rara.
    E essa pequena árvore que se recusa a morrer, essa pequena árvore patética, é a única nota de humanidade do quarteirão arrasado.
      Prossegue a nossa procissão e, afinal, nosso jipe se liberta e corre entre as campinas.


(Coleção melhores crônicas: Rubem Braga.
Seleção de Carlos Ribeiro. Global, 2013. Adaptado)

*“Vencer”, frase dita por Benito Mussolini.
Considerando a frase – Agora isso já não interessa aos nossos olhos: essa desgraça é monótona. (11º parágrafo) –, assinale a alternativa que, correta e respectivamente, indica à qual informação o pronome “isso” faz referência e traz observação pertinente acerca da declaração introduzida pelos dois-pontos.
  1. AAos poucos suprimentos que todos têm à disposição; nota-se indiferença.
  2. BAo tumultuado deslocamento pelas estradas italianas; nota-se indignação.
  3. CÀ destruição das cidades atingidas pela violência da guerra; nota-se desalento.
  4. DÀs bravatas dos líderes políticos fascistas; nota-se dissimulação.
  5. EÀ expectativa de que o jipe possa avançar com rapidez; nota-se passividade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — À destruição das cidades atingidas pela violência da guerra; nota-se desalento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A referência de "isso" e o desalento do narrador

Gabarito: letra C. O pronome "isso" retoma a destruição das cidades atingidas pela violência da guerra — como se lê no 11º parágrafo: "Avançamos entre os montões de tijolos, pó e traves quebradas. Agora isso já não interessa aos nossos olhos: essa desgraça é monótona." Os dois-pontos introduzem uma explicação que revela desalento: o narrador se entedia com a repetição da ruína, não se indigna nem se comove mais.

A questão combina dois conhecimentos: coesão referencial (o pronome demonstrativo "isso" retoma uma ideia já mencionada) e pontuação (os dois-pontos introduzem uma explicação). Vamos ver cada alternativa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "poucos suprimentos que todos têm à disposição", mas o texto não menciona suprimentos nesse trecho. O pronome "isso" não se refere a suprimentos, e sim à destruição das cidades. Além disso, o sentimento não é de indiferença, mas de desalento — o narrador diz que a desgraça é monótona, o que denota cansaço e tristeza, não indiferença.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "tumultuado deslocamento pelas estradas italianas", mas o texto não associa "isso" ao deslocamento. O deslocamento é descrito no início da crônica, mas o pronome "isso" no 11º parágrafo retoma a destruição das cidades. O sentimento de "indignação" também não é o que o texto expressa: o narrador não se indigna, ele se entedia com a repetição da desgraça.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa C acerta ao dizer que "isso" se refere à destruição das cidades atingidas pela violência da guerra e que a declaração revela desalento. Veja o trecho:

"Avançamos entre os montões de tijolos, pó e traves quebradas. Agora isso já não interessa aos nossos olhos: essa desgraça é monótona."

O pronome "isso" retoma a ideia de destruição descrita nos parágrafos anteriores (as ruínas, os escombros, as casas estripadas). Os dois-pontos introduzem uma explicação: "essa desgraça é monótona". O adjetivo "monótona" revela desalento — o narrador está cansado de ver tanta destruição, ela se tornou repetitiva e entediante.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "bravatas dos líderes políticos fascistas", mas o texto menciona a legenda "Vincere!" como um detalhe macabro, não como o referente de "isso". O pronome "isso" retoma a destruição, não as bravatas. O sentimento de "dissimulação" também não é expresso no trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "expectativa de que o jipe possa avançar com rapidez", mas o texto não associa "isso" a essa expectativa. O pronome "isso" retoma a destruição, não a expectativa de avanço. O sentimento de "passividade" também não é o que o texto expressa: o narrador não é passivo, ele está desalentado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o referente do pronome "isso" e o sentimento expresso. A alternativa correta exige identificar que "isso" retoma a destruição das cidades e que a declaração revela desalento, não indiferença ou indignação.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de pronome demonstrativo, pergunte-se: "a que termo ou ideia o pronome se refere?" Volte ao texto e localize o antecedente. Para os dois-pontos, verifique se eles introduzem explicação, enumeração ou citação — aqui, é explicação.

Gabarito: letra C.

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