Professores de uma escola de elite me contaram algo espantoso. Perguntaram aos alunos o que aconteceria se caminhassem sempre em frente, pela calçada diante da escola, sem
atravessar a rua. Pouquíssimos deles sabiam que voltariam à
frente do colégio. Como sempre se deslocavam pela cidade de
carro, não sabiam que a calçada de um quarteirão forma um
quadrado, e que, se você segui-la, volta ao mesmo lugar.
O ser humano nasce com enorme capacidade de se
orientar no ambiente em que vive. Prova disso é que indígenas, em florestas tropicais densas, são capazes de caminhar
dias de uma aldeia a outra sem se perder. Mas isso depende
de treino e prática, como mostra claramente o exemplo dos
alunos dessa escola.
A novidade é que os cientistas conseguiram demonstrar
que adultos têm diferentes capacidades de orientação dependendo de onde passaram a infância. Qual seria a capacidade de alguém que cresceu no campo? E como ela se
compara com a de quem cresceu em cidades organizadas ou
em cidades que parecem um labirinto?
Para conseguir medir objetivamente a capacidade de
orientação de milhares de adultos que cresceram em diferentes ambientes, os cientistas usaram o jogo de computador
Sea Hero Quest (SHQ), desenvolvido para pacientes com
Alzheimer. O jogador tem de se orientar em um labirinto de
canais ou ruas para sair de um ponto e chegar a outro. Em
cada nível, o desafio fica mais complexo, e já foi demonstrado que o sucesso nesse jogo mede muito bem a capacidade
de orientação de pessoas saudáveis no mundo real.
Os cientistas usaram dados de 3,9 milhões de jogadores
de SHQ e pediram para eles preencherem um questionário
sobre onde passaram a infância. Analisaram-se os mapas
das cidades em que os 397.162 exitosos no desafio haviam
crescido. Constatou-se que o sucesso no jogo é maior quanto
maior é a complexidade do ambiente onde a pessoa cresceu.
Quem teve poucos desafios na infância tem menos vantagens no jogo e menor capacidade de se orientar. É uma
lição importante: nas cidades de baixa complexidade, privamos crianças de desenvolverem a capacidade de orientação.
Mas tudo bem, existe o Waze para sanar essa deficiência
educacional...
Considere a frase reescrita do segundo parágrafo.A capacidade de se orientar no ambiente _______ vive é __________ ser humano desde o nascimento.Em conformidade com a norma-padrão de regência, as lacunas dessa frase devem ser preenchidas, respectivamente, por:
Ado qual ... indissociável do
Bno qual ... intrínseca ao
Cao qual ... peculiar ao
Dpelo que ... inerente com o
Ecom que ... atinente com o
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — no qual ... intrínseca ao
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Regência nominal e pronome relativo: "no qual" e "intrínseca ao"
Gabarito: letra B. A frase correta é "A capacidade de se orientar no ambiente no qual vive é intrínseca ao ser humano desde o nascimento." A primeira lacuna exige o pronome relativo regido pela preposição em (quem vive, vive em algum lugar), e a segunda exige o adjetivo intrínseca seguido da preposição a (algo é intrínseco a algo). A alternativa B é a única que combina corretamente as duas regências.
A questão cobra regência nominal e o uso do pronome relativo com preposição. O comando pede que você preencha as lacunas "em conformidade com a norma-padrão de regência", ou seja, a banca quer que você analise a relação de dependência entre os termos — não é uma questão de interpretação de texto, mas de gramática aplicada à reescrita.
Regência verbal: o verbo viver é intransitivo, mas, quando indica lugar, exige a preposição em (vive em algum lugar). No texto-base, o segundo parágrafo afirma: "O ser humano nasce com enorme capacidade de se orientar no ambiente em que vive". Perceba: "no ambiente em que vive" — o pronome relativo que retoma ambiente e vem regido pela preposição em (em + o = no). Na reescrita, o pronome relativo o qual deve manter essa mesma preposição: no qual (em + o qual).
Regência nominal: o adjetivo intrínseco exige a preposição a (algo é intrínseco a algo). No texto, a ideia é que a capacidade de orientação é própria do ser humano, nasce com ele. A forma correta é "intrínseca ao ser humano" (a + o = ao).
Crase: na contração da preposição a com o artigo o (ser humano), não há acento grave, pois o termo seguinte é masculino. A crase só ocorreria se houvesse fusão de dois a (preposição + artigo feminino), como em "intrínseca à natureza humana".
Regência: Verbal: viver (Quem vive, vive em algum lugar, Pronome relativo: no qual (em + o qual)); Nominal: intrínseco (Algo é intrínseco a algo, Contrações: ao (a + o), à (a + a)); Adjetivos que regem "a" (Intrínseco, Inerente, Peculiar, Atinente); Adjetivo que rege "de" (Indissociável)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A primeira lacuna, "do qual", está errada. O pronome relativo do qual indica procedência, origem ou posse (ex.: "o lugar do qual vim"), mas o verbo viver exige a preposição em, não de. A segunda lacuna, "indissociável do", também falha: indissociável rege a preposição de (indissociável de algo), mas o sentido do texto é de qualidade inerente, não de vínculo inseparável. A banca troca o adjetivo por um sinônimo aproximado, mas com regência e sentido diferentes.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A primeira lacuna, "no qual", está correta: o pronome relativo o qual retoma ambiente e vem regido pela preposição em (em + o = no), exigida pelo verbo viver. A segunda lacuna, "intrínseca ao", está correta: o adjetivo intrínseco rege a preposição a (intrínseco a algo), e a contração com o artigo o (ser humano) resulta em ao. A frase final: "A capacidade de se orientar no ambiente no qual vive é intrínseca ao ser humano desde o nascimento." — exatamente o que o texto afirma no segundo parágrafo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A primeira lacuna, "ao qual", está errada. O pronome relativo ao qual exige que o verbo da oração adjetiva peça a preposição a (ex.: "o lugar ao qual me refiro"), mas viver pede em. A segunda lacuna, "peculiar ao", está gramaticalmente correta (peculiar a algo), mas o sentido é diferente: peculiar significa "característico, específico", enquanto o texto quer dizer que a capacidade é parte constitutiva do ser humano, não apenas uma característica. A banca usa um adjetivo com regência correta, mas com sentido deslocado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A primeira lacuna, "pelo que", está errada. A locução pelo que indica causa, meio ou instrumento (ex.: "pelo que vejo"), não lugar. O verbo viver exige a preposição em. A segunda lacuna, "inerente com o", está duplamente errada: o adjetivo inerente rege a preposição a (inerente a algo), não com. A forma correta seria "inerente ao ser humano". A banca mistura a preposição errada com um adjetivo que, embora tenha sentido próximo, não aceita com.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A primeira lacuna, "com que", está errada. A preposição com indica companhia, instrumento ou modo (ex.: "a caneta com que escrevo"), não lugar. O verbo viver exige em. A segunda lacuna, "atinente com o", está errada: o adjetivo atinente rege a preposição a (atinente a algo), não com. A forma correta seria "atinente ao ser humano". A banca repete o mesmo erro da D: preposição inadequada para o adjetivo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura regência verbal (viver em) com regência nominal (intrínseco a) e ainda testa a crase na contração "ao". O candidato que decora listas de verbos e adjetivos sem entender a lógica da preposição erra. A dica é: pergunte sempre "quem vive, vive onde?" e "intrínseco a quê?".
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de regência com pronome relativo, isole a oração adjetiva e pergunte ao verbo "o quê?" ou "onde?". Se o verbo pedir preposição, ela deve aparecer antes do pronome relativo. Para a regência nominal, pergunte "qual a preposição que o adjetivo exige?" — intrínseco, inerente, peculiar e atinente pedem a; indissociável pede de.