Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2022
Português›Interpretação de Textos
Código
vu071951
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
V - - Bibliotecário
Leia um trecho da entrevista com o compositor João Pacífico
para responder a questão.
Em Campinas, eu arranjei um emprego na Companhia
Paulista de Estrada de Ferro. Fui um alto funcionário da Companhia, um alto funcionário de categoria: eu era ajudante de
lava-prato. Magine, ocê, um cara limpava o prato e eu lavava.
E assim foi.
Foi minha felicidade, porque um dia o cozinheiro disse:
“João, sabe quem está viajando, viaja sempre conosco? É
o doutor Guilherme de Almeida1
”. (Ele era inteligente o cozinheiro, falava “conosco”.) Eu não sabia, pensei que fosse um
diretor de futebol ou coisa assim. “João, faz um versinho daqueles que você faz de vez em quando, quando o trem dá um
descanso pra gente, e eu levo pra ele.” Eu fiz uns versinhos e
entregaram a ele. “Leva a ele o meu cartão e fala pra me procurar na Cruzeiro do Sul2
”, foi o recado do doutor Guilherme.
Aí, eu fui, vesti meu terninho branco, bonito, calça curta. Eu
de branco e estava um frio, aquela garoa fria de São Paulo, tremia que nem cabra (não sei se cabra treme, acho que treme).
Cheguei na Cruzeiro do Sul, desce um elevador com um
senhor de chapéu bonito e sobretudo Bataclan tudo pintadinho e luvas pretas. Olhava para ele e eu todo de branco, e
ele todo enfaixado. Moço (acho que foi por isso que ele me
protegeu, porque o chamei de “moço”), eu queria ir na Cruzeiro do Sul. “É no sétimo andar. Espera um pouco, você não
é aquele menino do trem?” Eu sou. “Eu que dei o cartão para
você vir aqui. Vamos subir.”
Aí eu subi aquele trenzão, o elevador rápido. Eu gostei,
gostei – avião não tinha voado, mas eu voei naquele trem.
Chegou lá em cima, ele chamou o Paraguassu3
e disse: “Aqui
tem um rapaz que escreve umas coisas bem brasileiras”.
(A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes – vol. 1
João Carlos Botezelli e Arley Pereira. SESC São Paulo. Adaptado)
1Guilherme de Almeida: poeta, jornalista, tradutor, crítico de cinema.
2Cruzeiro do Sul: emissora de rádio em São Paulo.
3Paraguassu: cantor e compositor brasileiro, cujo nome verdadeiro era
Roque Ricciardi.
João Pacífico faz um relato que pode ser considerado
Aressentido, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “quando o trem dá um descanso pra gente” / “Aí eu subi aquele trenzão”.
Bnostálgico, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “eu todo de branco, e ele todo enfaixado” / “Eu que dei o cartão para você vir aqui”.
Cdivertido, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “eu todo de branco, e ele todo enfaixado” / “Aí eu subi aquele trenzão”.
Dfantasioso, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “Eu de branco e estava um frio” / “acho que foi por isso que ele me protegeu”.
Einexato, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “quando o trem dá um descanso pra gente” / “acho que foi por isso que ele me protegeu”.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — divertido, em que se encontram expressões em sentido figurado, a exemplo de: “eu todo de branco, e ele todo enfaixado” / “Aí eu subi aquele trenzão”.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Tom do relato e sentido figurado: a graça de João Pacífico
Gabarito: letra C. O relato de João Pacífico é divertido — o narrador conta com humor as peripécias do jovem lavador de pratos que vai conhecer o poeta Guilherme de Almeida — e as duas expressões citadas, "eu todo de branco, e ele todo enfaixado" e "Aí eu subi aquele trenzão", estão em sentido figurado. A primeira é uma metáfora (o sobretudo e as luvas pretas do poeta são comparados a uma "enfaixadura", como se ele estivesse enfaixado); a segunda é uma metáfora também (o elevador é chamado de "trenzão", transferindo a imagem de um trem para o elevador). Como se lê no texto: "desce um elevador com um senhor de chapéu bonito e sobretudo Bataclan tudo pintadinho e luvas pretas. Olhava para ele e eu todo de branco, e ele todo enfaixado" e "Aí eu subi aquele trenzão, o elevador rápido".
A questão pede que você identifique, primeiro, o tom do relato (como o narrador conta a história) e, depois, reconheça expressões em sentido figurado (conotação). O comando é de compreensão — a resposta está no texto, não exige dedução. Vamos analisar cada alternativa.
Tom do relato
1Divertido (gabarito)
Humor nas escolhas do narrador
Riso de si mesmo
2Distratores
Ressentido (não há mágoa)
Nostálgico (não há saudade pesarosa)
Fantasioso (fatos reais)
Inexato (detalhes precisos)
3Sentido figurado (conotação)
Metáforas do texto
"eu todo de branco, e ele todo enfaixado"
"Aí eu subi aquele trenzão"
Literais (não figuradas)
"Eu que dei o cartão para você vir aqui"
"Eu de branco e estava um frio"
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
O relato não é ressentido. João Pacífico não demonstra mágoa ou amargura ao lembrar do tempo em que era ajudante de lava-prato; pelo contrário, ele narra com leveza e até com humor, como em "Magine, ocê, um cara limpava o prato e eu lavava". Além disso, a expressão "quando o trem dá um descanso pra gente" é figurada (o trem não "descansa" literalmente; é uma forma de dizer que havia uma pausa no trabalho), mas a outra expressão citada, "Aí eu subi aquele trenzão", também é figurada — porém o problema da alternativa está no tom: não há ressentimento. A banca tenta fazer você acreditar que a humilhação da função geraria rancor, mas o texto mostra o contrário.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O relato não é nostálgico no sentido de saudade melancólica. Há uma lembrança do passado, mas o tom é de alegria e humor, não de saudade pesarosa. Além disso, a expressão "eu todo de branco, e ele todo enfaixado" é figurada (metáfora), mas "Eu que dei o cartão para você vir aqui" é literal — é uma fala direta de Guilherme de Almeida, sem qualquer sentido figurado. A alternativa erra ao citar uma expressão que não é figurada.
Alternativa C — ✅ Correta
O relato é divertido: João Pacífico conta com graça a situação, rindo de si mesmo ("tremia que nem cabra") e das diferenças entre ele e o poeta ("eu todo de branco, e ele todo enfaixado"). As duas expressões citadas são figuradas: "eu todo de branco, e ele todo enfaixado" é uma metáfora — o sobretudo e as luvas pretas fazem o poeta parecer "enfaixado", como se estivesse coberto de faixas; "Aí eu subi aquele trenzão" é outra metáfora — o elevador é chamado de "trenzão", comparando-o a um trem. Ambas estão no texto e são exemplos claros de conotação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O relato não é fantasioso. João Pacífico narra fatos que realmente aconteceram (o emprego, o encontro com o poeta, a ida à rádio), sem inventar ou exagerar a ponto de criar uma fantasia. A expressão "Eu de branco e estava um frio" é literal (descreve a roupa e o frio), e "acho que foi por isso que ele me protegeu" é uma suposição do narrador, não uma expressão figurada. A alternativa erra ao classificar o relato como fantasioso e ao citar expressões que não são figuradas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O relato não é inexato. João Pacífico conta os fatos com detalhes precisos (o emprego, o cartão, o elevador, o encontro), sem intenção de distorcer a verdade. A expressão "quando o trem dá um descanso pra gente" é figurada, mas "acho que foi por isso que ele me protegeu" é uma opinião/suposição do narrador, não uma expressão figurada. A alternativa erra ao classificar o relato como inexato e ao citar uma expressão que não é figurada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura o tom do relato com a identificação de expressões figuradas. As distratoras usam expressões que não são figuradas (como "Eu que dei o cartão") ou atribuem um tom que o texto não sustenta (ressentido, nostálgico, fantasioso, inexato). Fique atento: o tom é divertido e as expressões figuradas são metáforas.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar sentido figurado, pergunte: "a palavra tem sentido literal aqui?" Se não, é conotação. E para o tom, observe o humor nas escolhas do narrador ("tremia que nem cabra", "eu todo de branco, e ele todo enfaixado").