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Questão de Português — Sintaxe — VUNESP 2022

PortuguêsSintaxe
Código
vu072122
Banca
VUNESP
Órgão
UNICAMP
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Engenheiro Civil - Edital nº 005

Leia o texto, para responder à questão.



      O escritor argentino Jorge Luis Borges, que não era muito simpático à etimologia, apontou a inutilidade de saber que a palavra cálculo veio do latim “calculus”, pedrinha, em referência aos pedregulhos usados antigamente para fazer contas.


      Tal conhecimento, argumentou o genial autor de “A Biblioteca de Babel”, não nos permite “dominar os arcanos da álgebra”. Verdade: ninguém aprende a calcular estudando etimologia.


      O que Borges não disse é que o estudo da história das palavras abre janelas para como a linguagem funciona, como produz seus sentidos, que de outro modo permaneceriam trancadas. É pouco?


      Exemplo: a história de “calculus” não ensina ninguém a fazer contas, mas a do vírus ilustra muito bem o mecanismo infeccioso que opera dentro dos – e entre os – idiomas.


      O latim clássico “virus”, empregado por Cícero e Virgílio, é a origem óbvia da palavra sob a qual se abriga a apavorante covid-19. Ao mesmo tempo, é uma pista falsa.


      Cícero e Virgílio não faziam ideia da existência de um troço chamado vírus. Este só seria descoberto no século 19, quando o avanço das ciências e da tecnologia já tinha tornado moda recorrer a elementos gregos e latinos para cunhar novas expressões para novos fatos.


      Contudo, a não ser pelo código genético rastreável em palavras como visgo, viscoso e virulento, fazia séculos que o “virus” latino hibernava. Foi como metáfora venenosa que, já às portas do século 20, saiu do frigorífico clássico para voltar ao quentinho das línguas.


      Em 1898, o microbiologista holandês Martinus Beijerink decidiu batizar assim certo grupo de agentes infecciosos invisíveis aos microscópios de então, com o qual o francês Louis Pasteur tinha esbarrado primeiro ao estudar a raiva.


      O vírus nasceu na linguagem científica, mas era altamente contagioso. Acabou se tornando epidêmico no vocabulário comum de diversas línguas. O vírus da palavra penetrou no vocabulário da computação em 1972, como nome de programas maliciosos que se infiltram num sistema para, reproduzindo-se, colonizá-lo e infectar outros.


      No século 21, com o mundo integrado em rede, deu até num verbo novo, viralizar. Foi a primeira vez que um membro da família ganhou sentido positivo, invejável: fazer sucesso na internet, ser replicado em larga escala nas redes sociais. 


      Mesmo essa acepção, como vimos, tinha seu lado escuro, parente de um uso metafórico bastante popular que a palavra carrega há décadas. No século passado, tornou-se possível falar em “vírus do fascismo”, por exemplo. Ou “vírus da burrice”.


      Antigamente, quando se ignorava tudo sobre os vírus, uma receita comum que as pessoas usavam para se proteger do risco de contrair as doenças provocadas por eles era rezar. Está valendo. 


(Sérgio Rodrigues. O vírus da linguagem. Folha de S.Paulo, 12.03.2020. Adaptado)

Para responder à questão, considere as expressões destacadas na seguinte passagem:


      Em 1898, o microbiologista holandês Martinus Beijerink decidiu batizar assim certo grupo de agentes infecciosos invisíveis aos microscópios de então, com o qual o francês Louis Pasteur tinha esbarrado primeiro ao estudar a raiva.



A expressão “de então” exprime a noção de

  1. Aconclusão, equivalendo a “portanto”.
  2. Blugar, equivalendo a “de lá”.
  3. Cqualidade, equivalendo a “ultrapassados”.
  4. Dconstatação, equivalendo a “de fato”.
  5. Etempo, equivalendo a “daquela época”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — tempo, equivalendo a “daquela época”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A expressão “de então” e seu valor temporal

Gabarito: letra E. A expressão “de então” exprime tempo, equivalendo a “daquela época”. No trecho, “invisíveis aos microscópios de então” refere-se aos microscópios daquele tempo (1898), e não a um lugar, qualidade ou conclusão. A prova está no próprio texto: o período situa o fato em “Em 1898”, e “de então” retoma esse marco temporal.

A chave de resolução

A questão pede o sentido de uma expressão dentro do contexto. Não se trata de interpretação ampla, mas de semântica contextual: identificar a que noção a expressão remete. A palavra “então” é um advérbio de tempo (significa “naquele momento/naquela época”), e a preposição “de” apenas a liga ao substantivo “microscópios”. Portanto, “de então” = “daquela época”.

“Em 1898, o microbiologista holandês Martinus Beijerink decidiu batizar assim certo grupo de agentes infecciosos invisíveis aos microscópios de então”

O trecho mostra que “de então” qualifica os microscópios daquele período histórico — os que existiam em 1898. A noção é claramente temporal.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Conclusão, equivalendo a “portanto”. A expressão “de então” não estabelece relação de conclusão. “Portanto” é um conectivo conclusivo, que introduz uma consequência lógica. No trecho, “de então” apenas situa os microscópios no tempo; não há ideia de conclusão. A banca tenta confundir com o valor de “então” como conjunção conclusiva (“estudou, então passou”), mas aqui o termo é advérbio de tempo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Lugar, equivalendo a “de lá”. “De lá” indicaria procedência ou localização espacial. No texto, “de então” não remete a lugar algum — os microscópios não são “de lá”, são daquela época. A banca explora a ambiguidade de “então”, que pode ter valor espacial em outros contextos (“de lá para cá”), mas aqui o contexto é temporal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Qualidade, equivalendo a “ultrapassados”. A expressão não atribui qualidade de “ultrapassados” aos microscópios. O texto apenas informa que eram invisíveis aos microscópios daquele tempo — não diz que eram obsoletos. A alternativa extrapola ao acrescentar um juízo de valor que o autor não emite. Além disso, “de então” não é adjetivo; é locução adverbial de tempo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Constatação, equivalendo a “de fato”. “De fato” é uma expressão de confirmação/realce, não de tempo. No trecho, “de então” não confirma nada; apenas localiza temporalmente os microscópios. A banca tenta confundir com o uso de “então” como partícula de realce (“então, você veio”), mas aqui o valor é temporal.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Tempo, equivalendo a “daquela época”. Como visto, “de então” remete ao tempo de 1898, referido no início do período. A expressão é uma locução adjetiva com valor temporal, equivalente a “daquela época”. A prova está no contexto: “invisíveis aos microscópios de então” = “invisíveis aos microscópios daquela época”.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o sentido de uma expressão, pergunte: “a que ela se refere no texto?”. Se remete a um momento citado antes, é tempo; se remete a um lugar, é espaço. Aqui, o marco “Em 1898” decide.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora os múltiplos valores de “então” (conclusivo, espacial, de realce) para atrair o candidato que não observa o contexto. A palavra “então” sozinha pode ter vários sentidos, mas “de então” no texto é inequivocamente temporal.

Gabarito: letra E.

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