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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2023

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu073932
Banca
VUNESP
Órgão
EPC
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Locutor Apresentador
Leia o texto, para responder à questão. 


    Quando Nancy Pelosi, então presidente da Câmara norte-americana, estendeu a mão para o ex-presidente Donald Trump, antes da apresentação do discurso anual do Estado da União, ele se recusou a apertá-la e virou as costas de forma grosseira. Ao fim do discurso, Pelosi rasgou a transcrição ostensivamente como se o texto não valesse o papel em que foi impresso e devesse ser expurgado por completo dos registros históricos.

    Esses dois gestos, infantis e impulsivos, podem ser considerados insignificantes, mas na verdade foram emblemáticos da maneira como a oposição foi transformada em algo muito mais profundo – um ódio e uma animosidade reais.
   
     Naturalmente, a gentileza precisa ser uma via de mão dupla, é difícil ser gentil com aqueles que são abertamente desdenhosos conosco, ainda que talvez isso seja possível para os santos. A santidade, entretanto, não é uma qualidade que se costuma encontrar na vida política, e, dessa forma, não se pode contar com ela para a promoção de um comportamento decente. Apenas a cultura da tolerância pode fazer isso.

     Lamentavelmente, quanto mais a tolerância é alardeada como uma grande virtude, ou até mesmo como a maior das virtudes, menos ela é praticada na vida cotidiana. Se as pessoas fossem tolerantes, não haveria necessidade de exaltá-la. Na realidade somos assim com os preceitos morais sobre a tolerância: somos tolerantes, mas odiamos pessoas que não concordam conosco.

    A tolerância requer um devido exercício de falta de sinceridade. Toleramos apenas o que nos causa desagrado, porque não há necessidade de tolerar coisas de que gostamos. Podemos pensar que alguém que tem uma opinião diferente da nossa é um canalha, mas não podemos ter uma discussão civilizada com essa pessoa se revelarmos nossa opinião sincera.

     Infelizmente, existe um culto de sinceridade no mundo moderno de acordo com o qual nada que esteja na mente de alguém deve ser contido. Porque, se for, vai infectar e acabar causando uma espécie de septicemia psicológica, que vai entrar em erupção como algo terrível. Nessa escala de valores, a insinceridade é o pior dos pecados, e não algo muitas vezes virtuoso e necessário, o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção.

     Dessa forma, estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante. Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar. Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, ao totalitarismo em nome da tolerância.


(Theodore Dalryme, A novilíngua como língua nativa. Disponível em: <revistaoeste.com<. Acesso em 14.02.2023. Adaptado)
É correto concluir que esse texto
  1. Arelata episódios em que pessoas se veem involuntariamente envolvidas em situações constrangedoras, nas quais a revanche se mostra a única saída a ser adotada.
  2. Bdescreve pormenorizadamente o conflito que se estabelece quando o indivíduo prima pela sinceridade, mas encontra a sua frente um oponente que se mostra intolerante.
  3. Cdiscute o problema da insatisfação gerada pelo conflito de ideias, principalmente quando se opõem pessoas públicas de destaque, as quais deveriam dar exemplo à sociedade.
  4. Ddesenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca.
  5. Ese reporta a situações exemplares para fazer recomendações ao leitor acerca de como proceder em caso de discordância de ideias, recorrendo ao exercício da condescendência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — desenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conclusão correta sobre o texto – conflito entre tolerância e sinceridade

Gabarito: letra D. O texto desenvolve a tese de que vivemos sob dois imperativos opostos – ser tolerante e ser sincero – e que essa contradição acaba gerando um totalitarismo em nome da tolerância. A alternativa D capta exatamente esse embate contemporâneo.

"Dessa forma, estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante."

É a partir dessa passagem que se confirma a ideia central: o conflito entre a indulgência (tolerância) e a manifestação franca (sinceridade).

Alternativa

Descrição da alternativa

Erro/Acerto

Motivo

A

Relata episódios em que pessoas se veem involuntariamente envolvidas em situações constrangedoras, nas quais a revanche se mostra a única saída a ser adotada.

❌ Incorreta

Extrapolação: o texto narra um episódio como exemplo, mas não afirma que as pessoas se envolvem "involuntariamente" nem que a revanche é a única saída.

B

Descreve pormenorizadamente o conflito que se estabelece quando o indivíduo prima pela sinceridade, mas encontra a sua frente um oponente que se mostra intolerante.

❌ Incorreta

Contradiz o texto / incompletude: o texto não descreve pormenorizadamente nenhum conflito específico, sendo uma reflexão genérica.

C

Discute o problema da insatisfação gerada pelo conflito de ideias, principalmente quando se opõem pessoas públicas de destaque, as quais deveriam dar exemplo à sociedade.

❌ Incorreta

Acrescenta opinião: o texto não afirma que as figuras públicas "deveriam dar exemplo à sociedade", sendo um juízo de valor externo.

D

Desenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca.

✅ Correta (Gabarito)

Acerto: capta exatamente o embate contemporâneo entre tolerância (indulgência) e sinceridade (manifestação franca), que é a tese central do texto.

E

Se reporta a situações exemplares para fazer recomendações ao leitor acerca de como proceder em caso de discordância de ideias, recorrendo ao exercício da condescendência.

❌ Incorreta

Erro: o texto não faz recomendações ao leitor nem prescreve a condescendência como solução; apenas expõe a contradição entre os imperativos.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"relata episódios em que pessoas se veem involuntariamente envolvidas em situações constrangedoras, nas quais a revanche se mostra a única saída a ser adotada."

Erro: extrapolação. O texto narra o episódio Pelosi–Trump como exemplo de animosidade, mas não afirma que as pessoas se envolvem "involuntariamente" nem que a revanche é a única saída. A discussão posterior sobre tolerância e sinceridade não aborda revanche.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"descreve pormenorizadamente o conflito que se estabelece quando o indivíduo prima pela sinceridade, mas encontra a sua frente um oponente que se mostra intolerante."

Erro: contradiz o texto / incompletude. O texto não descreve pormenorizadamente nenhum conflito específico entre um indivíduo sincero e um oponente intolerante. Trata-se de uma reflexão genérica sobre a sociedade, não de uma narrativa detalhada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"discute o problema da insatisfação gerada pelo conflito de ideias, principalmente quando se opõem pessoas públicas de destaque, as quais deveriam dar exemplo à sociedade."

Erro: acrescenta opinião. O texto menciona figuras públicas, mas não afirma que elas "deveriam dar exemplo à sociedade" – isso é um juízo de valor externo. O foco não é a "insatisfação", mas a contradição entre os imperativos.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"desenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca."

Acertou a tese. O texto inteiro gira em torno desse embate: tolerância (indulgência) versus sinceridade (manifestação franca). A conclusão sobre o totalitarismo em nome da tolerância confirma o conflito.

"Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar. Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo."

Alternativa E — ❌ Incorreta

"se reporta a situações exemplares para fazer recomendações ao leitor acerca de como proceder em caso de discordância de ideias, recorrendo ao exercício da condescendência."

Erro: tangencia / foge ao tema. O texto não faz recomendações ao leitor; é uma análise crítica, não prescritiva. Além disso, o termo "condescendência" (atitude de superioridade) não equivale à tolerância discutida pelo autor.

PEGA ESSA DICA!

Ao buscar a conclusão correta, identifique a TESE do texto (o que o autor defende). O primeiro e o último parágrafo geralmente a contêm. No caso, o último parágrafo anuncia explicitamente os "dois imperativos opostos".

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta seduzir o candidato com alternativas que se prendem ao episódio inicial (A, C) ou que introduzem uma função prescritiva inexistente (E). A correta é a que sintetiza o conflito central.

Gabarito: letra D

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