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Questão de Português — Gêneros Textuais — VUNESP 2023

PortuguêsGêneros Textuais
Código
vu073942
Banca
VUNESP
Órgão
EPC
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Locutor Apresentador

Leia o texto para responder à questão. 



A imprensa nos tempos de Balzac



   Releio “Os jornalistas”, de Honoré de Balzac, ele-mesmo um escritor jornalista a apontar desvios da ética na imprensa de seu tempo. Com estilete do sarcasmo, indicou a prevalência de “lados da notícia”, a duração dos fatos nas páginas e escondimentos propositais. Beliscou a venalidade de articulistas franceses de meados do século 19. As ambições particulares se sobrepunham às carências coletivas; as impressoras se alocavam às conveniências individuais, governos, corporações ideológicas. Mostrou o jesuitismo artificial de colunistas cercados de bajuladores a aplaudi-los. Encenando imparcialidade, curvavam-se aos influentes e poderosos. Altissonantes, fingiam defender grandes causas, mormente as acenadas como modernas, libertárias.

   Sobre editores-proprietários-gerentes, Balzac foi ainda mais incisivo. Alinhavam-se ao sistema dominante cujo triunfo lhes interessava. E eram respeitados por temor. Viam na imprensa uma aplicação de capitais cujos juros lhes eram pagos em favores econômicos e autoridade. Quando unida às oposições, tinha consciência de que elas eram aferradas em tomar para si os anseios e necessidades sociais, sem que o cidadão comum lhes desse crédito.

      No estilo escrutínio da escola realista, palavras do livro se articulam para escancarar hipocrisias, falsidades. Alegando que os franceses tinham inclinação por tudo que é tedioso, caçoava duma categoria de redatores a chamá-los de “nadólogos”. Eram notários que falavam, falavam e nada diziam. Alcoviteiros da política, negociantes de frases, mostravam-se superiores, promoviam gracejos para admiração de colunistas severos. Mas estes se calavam ao ingressarem no serviço público. Lá se domesticavam a gozarem do silêncio de colegas na espera de convites e cargos.

    Irritado com os críticos de arte a não lhe darem sossego, Balzac apontou-lhes o dedo. Pintou-os como vaidosos, incultos, falaciosos que, sem talento para a arte, erguiam muralhas de censura das ideias. Para o autor, a crítica tinha apenas uma serventia: a sobrevivência dos críticos.

    Ficção e agudo exame da sociedade se mesclaram na obstinada defesa do bom jornalismo. Escreveu: “Se a imprensa não existisse, seria preciso inventá-la”. São mensagens que instigam raciocínios, convidam à reflexão. Mormente dos que buscam notícias isentas, o jornalismo amigo dos fatos.


(Romildo Sant’Anna. Diário da Região, 05.02.2023. Adaptado)

Quanto ao gênero, os elementos textuais permitem concluir que se trata de
  1. Aum editorial jornalístico que faz uma crítica ao livro de Balzac e expõe o ponto de vista discordante do jornal, com o objetivo de persuadir o leitor.
  2. Bum manifesto crítico acerca da imparcialidade dos jornalistas no tratamento dos fatos, desde os tempos de Balzac até a atualidade.
  3. Cuma carta expressando opinião do leitor, que expõe as mazelas do jornalismo de outros tempos e a parcialidade dos críticos que Balzac denuncia em sua obra.
  4. Duma crônica que, expondo as ideias expressas em um livro de Balzac, suscita reflexões acerca da postura da mídia jornalística no tratamento que dá aos fatos.
  5. Eum conto curto narrando a experiência de Balzac com o jornalismo de seu tempo, a qual resultou em uma obra do escritor francês.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — uma crônica que, expondo as ideias expressas em um livro de Balzac, suscita reflexões acerca da postura da mídia jornalística no tratamento que dá aos fatos.

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Gênero textual do texto sobre Balzac e a imprensa

Gabarito: letra D. O texto é uma crônica porque apresenta uma reflexão pessoal e crítica a partir da releitura de uma obra de Balzac, sem a pretensão de um editorial institucional ou de um manifesto, e sem estrutura narrativa ficcional (conto). A crônica se caracteriza por abordar temas cotidianos (no caso, o jornalismo) com um tom ensaístico e subjetivo, exatamente como se vê no texto.

O primeiro parágrafo já revela o tom pessoal: "Releio 'Os jornalistas', de Honoré de Balzac, ele-mesmo um escritor jornalista a apontar desvios da ética na imprensa de seu tempo." O autor (Romildo Sant'Anna) não está escrevendo em nome de um jornal (editorial), nem fazendo uma declaração pública de princípios (manifesto), nem se dirigindo ao jornal como leitor (carta), nem narrando uma história ficcional (conto). Ele compartilha suas impressões sobre o livro e as relaciona com questões atuais do jornalismo – típico da crônica jornalística.

Gênero Textual

Característica Principal

Exemplo no Texto

Relação com Balzac

Tom/Estilo

Crônica (D)

Reflexão pessoal e crítica a partir de um fato/leitura cotidiana

"Releio 'Os jornalistas', de Honoré de Balzac..."

Ponto de partida para comentar o jornalismo atual

Ensaístico, subjetivo, pessoal

Editorial (A)

Posição oficial do veículo de comunicação

Ausência de marcas institucionais ("o jornal entende que")

Crítica ao livro de Balzac

Impessoal, institucional

Manifesto (B)

Declaração pública de posicionamento coletivo/político

Ausência de proclamação ou convocação

Denúncia da imparcialidade jornalística

Proclamatório, coletivo

Carta de leitor (C)

Opinião de leitor dirigida ao jornal

Ausência de saudação, despedida ou assinatura de leitor

Exposição das mazelas do jornalismo

Pessoal, mas de leitor anônimo

Conto (E)

Narrativa ficcional curta

Ausência de estrutura narrativa ficcional

Experiência de Balzac com o jornalismo

Ficcional, narrativo

Alternativa A — ❌ Incorreta

Um editorial é um texto opinativo que representa a posição oficial do veículo de comunicação. O texto não traz marcas de institucionalidade (como "o jornal entende que") e não defende uma tese específica do periódico; é uma reflexão pessoal do colunista. Erro: confunde gênero editorial com crônica.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Manifesto crítico seria uma declaração pública de posicionamento, geralmente coletivo ou político. O texto não tem caráter de proclamação, nem convoca ações; é uma análise literária e jornalística. Erro: classifica como manifesto o que é crônica analítica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Carta de leitor é um gênero em que o leitor se dirige ao jornal para opinar sobre algum assunto. O texto não tem saudação, despedida ou assinatura de leitor comum; é assinado pelo colunista como artigo. Erro: toma a voz do autor como de um leitor anônimo, quando é um texto de colunista.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A crônica é um texto curto, de tom pessoal e reflexivo, que parte de um fato ou leitura para comentar aspectos da sociedade. Exatamente o que ocorre: o autor lê Balzac e, a partir disso, tece considerações sobre o jornalismo ontem e hoje. O fechamento – "São mensagens que instigam raciocínios, convidam à reflexão. Mormente dos que buscam notícias isentas, o jornalismo amigo dos fatos." – reforça o tom conclusivo e reflexivo, próprio da crônica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Conto curto é um gênero narrativo ficcional, com personagens, enredo e desfecho. O texto não narra uma história; expõe ideias e comentários. Erro: classifica um texto dissertativo-argumentativo como narrativo ficcional.

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