Médico Ambulatorial em Clínicas Básicas e Especialidades - Neurologista
Paciente do gênero feminino, 27 anos de idade, com sinais e sintomas agudos de agitação, ansiedade, desorientação, irritabilidade, tremor, clonus, hiperreflexia, rigidez muscular, sinal de Babinski bilateral, hipertensão arterial, taquicardia, taquipneia hipertermia, midríase, náuseas e vômitos. Assinale a alternativa que apresenta qual seria a sua primeira suspeita diagnóstica.
ASíndrome serotoninérgica.
BSíndrome neuroléptica maligna.
CHipertermia maligna.
DToxicidade anticolinérgica ou simpatomimética.
EEncefalite.
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GabaritoA — Síndrome serotoninérgica.
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Síndromes tóxicas: diagnóstico diferencial na emergência
Gabarito: letra A. O quadro descrito — agitação, tremor, clonus, hiperreflexia, rigidez muscular, hipertermia, taquicardia, hipertensão, taquipneia, midríase, náuseas e vômitos — é a apresentação clássica da síndrome serotoninérgica, que cursa com a tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e hiperatividade neuromuscular (clonus, hiperreflexia, tremor). O diagnóstico é clínico, baseado no uso de droga serotoninérgica associado a esses achados, conforme os critérios de Hunter.
A síndrome serotoninérgica (SS) é uma condição potencialmente fatal, causada pelo excesso de serotonina no sistema nervoso central e periférico, geralmente desencadeada pela associação de fármacos serotoninérgicos (como inibidores seletivos da recaptação de serotonina — ISRS, inibidores da monoamina oxidase — IMAO, antidepressivos tricíclicos, tramadol, entre outros). O quadro clínico é caracterizado por uma tríade clássica: alterações do estado mental (agitação, ansiedade, desorientação, confusão), hiperatividade autonômica (hipertermia, taquicardia, hipertensão, taquipneia, diaforese, midríase, náuseas, vômitos, diarreia) e hiperatividade neuromuscular (tremor, clonus, hiperreflexia, rigidez muscular, sinal de Babinski bilateral). O clonus (espontâneo, induzido ou ocular) é o sinal mais específico e importante para o diagnóstico. A apresentação costuma ser aguda, surgindo horas após a introdução ou aumento da dose do fármaco.
O diagnóstico é essencialmente clínico, e os critérios de Hunter são os mais utilizados. Eles exigem o uso de um agente serotoninérgico e a presença de um dos seguintes: clonus espontâneo; clonus induzido com agitação ou diaforese; clonus ocular com agitação ou diaforese; tremor e hiperreflexia; ou hipertonia, temperatura > 38°C e clonus ocular ou induzido. A tabela abaixo resume as principais síndromes tóxicas que entram no diagnóstico diferencial, destacando as diferenças cruciais:
Característica
Síndrome serotoninérgica
Síndrome neuroléptica maligna
Hipertermia maligna
Toxicidade anticolinérgica
Toxicidade simpatomimética
Início
Agudo (horas)
Subagudo (dias)
Agudo (durante anestesia)
Agudo
Agudo
Mecanismo
Excesso de serotonina
Bloqueio dopaminérgico
Liberação de cálcio no músculo
Bloqueio muscarínico
Excesso de catecolaminas
Clonus
Presente (muito característico)
Ausente
Ausente
Ausente
Pode estar presente
Hiperreflexia
Presente
Presente (mas menos proeminente)
Presente
Diminuída
Presente
Rigidez muscular
Presente (pode ser grave)
Presente (muito grave, "roda dentada")
Presente (generalizada, masseter)
Ausente (hipotonia)
Presente (leve)
Pele/mucosas
Sudorese, diaforese
Sudorese
Sudorese
Pele seca, quente, mucosas secas
Sudorese
Peristalse
Aumentada (diarreia)
Diminuída (íleo)
Normal
Diminuída (íleo)
Normal ou aumentada
Fármacos associados
ISRS, IMAO, tricíclicos, tramadol
Antipsicóticos (haloperidol, risperidona)
Anestésicos inalatórios, succinilcolina
Anti-histamínicos, tricíclicos, atropina
Cocaína, anfetaminas, efedrina
A distinção entre a síndrome serotoninérgica e a síndrome neuroléptica maligna (SNM) é um dos desafios mais comuns na emergência. Ambas cursam com hipertermia, rigidez muscular, alteração do estado mental e instabilidade autonômica. No entanto, a SNM tem início mais insidioso (dias), está associada ao uso de antipsicóticos, apresenta rigidez muscular extrema em "roda dentada", bradicinesia e ausência de clonus — que é o achado mais importante para diferenciar. A SS, por sua vez, tem início agudo, está associada a fármacos serotoninérgicos e cursa com clonus e hiperreflexia, além de hipercinesia (agitação, tremor). A presença de clonus e hiperreflexia no enunciado é o ponto-chave que direciona para a síndrome serotoninérgica.
A hipertermia maligna é uma síndrome hereditária, desencadeada por anestésicos inalatórios e succinilcolina, caracterizada por rigidez muscular, hipertermia e acidose metabólica. O contexto de uso de anestésicos não está presente no enunciado, o que a torna improvável. A toxicidade anticolinérgica cursa com agitação, midríase, hipertermia, taquicardia e pele seca, mas o achado de clonus e hiperreflexia não faz parte do quadro — na verdade, há hiporreflexia. A toxicidade simpatomimética (cocaína, anfetaminas) pode causar agitação, hipertermia, taquicardia, hipertensão e midríase, mas o clonus e a hiperreflexia são menos proeminentes, e a rigidez muscular não é característica. A encefalite pode causar alteração do estado mental, febre e sinais neurológicos focais, mas o quadro autonômico e neuromuscular difuso, com clonus e hiperreflexia, é mais sugestivo de uma síndrome tóxica.
A pegadinha desta questão está em diferenciar a síndrome serotoninérgica da síndrome neuroléptica maligna, que são as duas principais confusões. A banca explora exatamente a presença de clonus e hiperreflexia, que são altamente específicos da SS e ausentes na SNM. Além disso, a rigidez muscular, que aparece em ambas, pode confundir o candidato. O raciocínio clínico deve se basear na tríade completa e nos sinais neurológicos específicos.
Síndrome serotoninérgica: Tríade clássica (Alteração do estado mental, Hiperatividade autonômica, Hiperatividade neuromuscular); Sinais-chave (Clonus (mais específico), Hiperreflexia, Tremor); Causa (Excesso de serotonina, Fármacos serotoninérgicos); Diagnóstico (Clínico (critérios de Hunter))
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A síndrome serotoninérgica é a primeira suspeita diagnóstica, pois o quadro clínico apresentado — agitação, ansiedade, desorientação, tremor, clonus, hiperreflexia, rigidez muscular, sinal de Babinski bilateral, hipertermia, taquicardia, hipertensão, taquipneia, midríase, náuseas e vômitos — é a manifestação clássica da síndrome. A tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e hiperatividade neuromuscular, com destaque para o clonus e a hiperreflexia, é altamente sugestiva. O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios de Hunter, que exigem o uso de agente serotoninérgico e a presença de clonus, hiperreflexia, tremor, hipertonia e hipertermia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síndrome neuroléptica maligna (SNM) também cursa com hipertermia, rigidez muscular, alteração do estado mental e instabilidade autonômica, mas o início é mais insidioso (dias), está associada ao uso de antipsicóticos e, crucialmente, não apresenta clonus. A rigidez muscular na SNM é extrema, em "roda dentada", e há bradicinesia, enquanto na síndrome serotoninérgica há hipercinesia (agitação, tremor) e clonus. A presença de clonus e hiperreflexia no enunciado praticamente exclui a SNM.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hipertermia maligna é uma síndrome hereditária desencadeada por anestésicos inalatórios e succinilcolina, caracterizada por rigidez muscular, hipertermia e acidose metabólica. O quadro descrito no enunciado não menciona exposição a anestésicos, e a presença de clonus e hiperreflexia não é típica. Além disso, a hipertermia maligna cursa com rigidez muscular generalizada, mas o clonus e a hiperreflexia não fazem parte do quadro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A toxicidade anticolinérgica cursa com agitação, alucinação, midríase, hipertermia, taquicardia, hipertensão, taquipneia, pele seca e quente, mucosas secas, retenção urinária e redução do peristaltismo. No entanto, o achado de clonus e hiperreflexia não está presente — na verdade, há hiporreflexia. A toxicidade simpatomimética (cocaína, anfetaminas) pode causar agitação, hipertermia, taquicardia, hipertensão e midríase, mas o clonus e a hiperreflexia são menos proeminentes, e a rigidez muscular não é característica. A presença de clonus e hiperreflexia, juntamente com a rigidez muscular, direciona o diagnóstico para a síndrome serotoninérgica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A encefalite pode causar alteração do estado mental, febre, convulsões e déficits neurológicos focais, mas o quadro autonômico e neuromuscular difuso, com clonus, hiperreflexia, rigidez muscular e instabilidade autonômica, é mais sugestivo de uma síndrome tóxica. A encefalite geralmente cursa com sinais meníngeos (rigidez de nuca, Kernig, Brudzinski) e déficits focais, que não estão presentes no enunciado. A ausência de sinais de irritação meníngea e a presença de clonus e hiperreflexia tornam a encefalite uma hipótese menos provável.