Análise das passagens de Memórias Póstumas de Brás Cubas à luz do conceito de reflexão sobre o uso linguístico
Gabarito: letra C. A única alternativa que sustenta corretamente uma reflexão sobre o uso linguístico no trecho machadiano é a C, que identifica no diminutivo, na repetição e na inversão dos termos recursos que intensificam a melancolia do momento fúnebre. As demais alternativas ou contradizem o texto ou extrapolam seu conteúdo.
Recurso | Ocorrência no trecho | Efeito expressivo |
|---|
Diminutivo | "chuvinha" | Sugere delicadeza e tristeza |
Repetição | "tão constante e tão triste" | Reitera a atmosfera melancólica |
Inversão | "triste e constante" → "constante e triste" | Realça o estado de ânimo |
Alternativa A — ❌ Incorreta
A passagem “Tinha uns sessenta e quatro anos” emprega o artigo indefinido uns antes do numeral. No português, o artigo uns confere valor aproximativo, não precisão. Dizer “uns 64 anos” significa “cerca de 64”, o oposto de precisão. Logo, a afirmativa de que o artigo visa “conferir precisão” contradiz o uso real do termo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A forma verbal “hesitei” está no pretérito perfeito do indicativo (passado), não no presente. Não há qualquer verbo no presente nesse período. A afirmação de que “as formas verbais no tempo presente criam uma aproximação com o leitor” é falsa, pois o tempo verbal usado é o passado.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
No trecho:
“... peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste...”
Observamos:
Diminutivo: “chuvinha” (de chuva) sugere delicadeza e tristeza.
Repetição: “tão constante e tão triste” reitera a atmosfera melancólica.
Inversão: inicialmente “triste e constante”, depois “constante e triste” – a troca da ordem realça o estado de ânimo.
Esses recursos linguísticos reforçam o cenário de luto e a melancolia do momento, conforme o contexto fúnebre do capítulo (morte do narrador). A análise está correta e reflete o uso expressivo da linguagem.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Na passagem “um autor defunto, mas um defunto autor”, a troca de posição altera a classe gramatical dos termos:
Em “autor defunto”: autor é substantivo; defunto é adjetivo (ou substantivo em aposição, mas predominantemente adjetivo).
Em “defunto autor”: defunto passa a substantivo; autor passa a adjetivo.
Portanto, a classe gramatical muda para ambos os vocábulos, contrariando o que afirma a alternativa. O erro está em dizer que “não lhes muda a classe gramatical”.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O trecho “Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa.” Repete-se “não digo” e usa o pretérito do subjuntivo (“carpisse”, “deixasse”). A repetição serve para negar que a personagem tenha tido reações dramáticas. O narrador não expressa aversão; ele apenas constata que o óbito não era dramático. O texto diz: “Nem o meu óbito era coisa altamente dramática...”. A palavra “aversão” (forte repulsa) não encontra apoio no texto, que é irônico e distanciado, não carregado de aversão.
Conclusão: A única alternativa que faz uma reflexão correta sobre o uso linguístico no texto é a C.