Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos
Código
vu078608
Banca
VUNESP
Órgão
SEDUC-SP
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Professor de Ensino Fundamental e Médio - Português
Daí, a estrutura informal e aberta dessa nova experiência narrativa, tecido de lembranças casuais, fait divers e cortes digressivos entre banais e cínicos da personagem-autor, que não transcende nunca a “filosofia” do bom senso burguês congelada pela condição irreversível de defunto.(Alfredo Bosi, 2015)Identifica-se um corte digressivo, pontuado de ironia, na seguinte passagem do texto:
ATenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora.
B... peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste...
C... se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.
DBom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.
EMoisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo...
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GabaritoD — Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.
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Corte digressivo com ironia em "Memórias Póstumas"
Gabarito: letra D. A passagem "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei" é o único trecho que combina digressão (interrupção da narrativa funerária para um comentário pessoal) com ironia (elogio sarcástico ao amigo que fez um discurso exagerado, enquanto Brás Cubas reconhece, na verdade, ter comprado a bajulação com as apólices). O tom cínico e a quebra do fluxo narrativo caracterizam o "corte digressivo" descrito no enunciado.
Corte digressivo com ironia: Digressão (Interrupção do fluxo narrativo, Comentário pessoal do narrador); Ironia (Elogio aparente, Crítica/sarcasmo dissimulado); Exemplo (alternativa D) ("Bom e fiel amigo!", "Não me arrependo das vinte apólices", Reúne digressão + ironia)
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta. "Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora." É uma interrupção direta ao leitor, mas sem ironia — apenas uma promessa de revelação futura. A digressão existe, porém falta o tom irônico.
Alternativa B — ❌ Incorreta. "... peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste..." Descrição da chuva, parte da ambientação. Não é digressão (não foge do assunto) e não contém ironia.
Alternativa C — ❌ Incorreta. "... se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte." Reflexão sobre a estrutura do livro, não uma digressão. É parte do raciocínio inicial, sem ironia marcada.
Alternativa D — ✅ Correta. "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei." O narrador interrompe a descrição do enterro para comentar, com ironia, sobre o amigo que fez o discurso. A expressão "bom e fiel amigo" soa elogiosa, mas o contexto (o discurso exagerado e a menção às apólices) revela sarcasmo: o amigo foi recompensado financeiramente, e a amizade é questionável. É um típico corte digressivo irônico.
Alternativa E — ❌ Incorreta. "Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo..." Comparação erudita para justificar o método, sem digressão (é argumento central do primeiro parágrafo) e sem ironia evidente.
Conclusão: Apenas a alternativa D reúne os dois requisitos: digressão (fuga momentânea do relato principal) e ironia (sarcasmo dissimulado). Gabarito: letra D.