Mulher de 19 anos é avaliada com diarreia persistente não sanguinolenta, cólicas abdominais e distensão abdominal há cerca de 7 dias. Relata que viajou recentemente para o interior do Nordeste. Uma amostra fecal é coletada e mostra: coprocultura negativa; pesquisa de Giardia lamblia por reação em cadeia da polimerase é positiva.Nesse sentido, é correto afirmar que
Aos trofozoítos invadem o epitélio e alteram o equilíbrio dos hormônios intestinais, ocasionando perda de fluidos e eletrólitos.
Bao entrar no duodeno, as bactérias intestinais quebram os cistos da Giardia, liberando o trofozoíto.
Ca colonização de trofozoítos é limitada ao intestino delgado superior.
Dos trofozoítos aderem à superfície da mucosa, causando liberação de citocinas e consequente perda de fluidos e eletrólitos.
Eos trofozoítos invadem os tecidos e se entrelaçam no sistema linfático, facilitando a disseminação sistêmica.
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GabaritoD — os trofozoítos aderem à superfície da mucosa, causando liberação de citocinas e consequente perda de fluidos e eletrólitos.
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Giardíase: mecanismo de diarreia e patogenia
Gabarito: letra D. Na giardíase, os trofozoítos de Giardia lamblia aderem à superfície da mucosa do intestino delgado (sem invasão tecidual), e a diarreia decorre de uma combinação de lesão da borda em escova, atrofia vilositária e resposta imune local com liberação de citocinas, que culmina em perda de fluidos e eletrólitos. As demais alternativas erram ao descrever invasão epitelial, disseminação sistêmica ou papel das bactérias intestinais na quebra dos cistos.
A Giardia lamblia é um protozoário flagelado que causa uma das principais parasitoses intestinais do mundo, transmitida pela ingestão de cistos presentes em água ou alimentos contaminados (via fecal-oral). O quadro clássico é o de diarreia persistente, não sanguinolenta, com cólicas, distensão abdominal, flatulência e, frequentemente, esteatorreia — exatamente o perfil da paciente do enunciado, que viajou para o Nordeste e apresenta sintomas há cerca de 7 dias, com PCR fecal positiva para Giardia.
O ciclo biológico é fundamental para entender a patogenia: o cisto é a forma infectante e resistente no ambiente; ao ser ingerido, o estímulo ácido do estômago e as enzimas pancreáticas no duodeno desencadeiam o processo de excistação, liberando os trofozoítos. Esses trofozoítos colonizam o intestino delgado superior (duodeno e jejuno proximal), onde se multiplicam por divisão binária. A colonização é limitada ao intestino delgado — não há invasão tecidual nem disseminação sistêmica, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com a Entamoeba histolytica, que pode invadir a mucosa e causar abscessos hepáticos.
O mecanismo da diarreia na giardíase é multifatorial e não invasivo. Os trofozoítos aderem firmemente à superfície da mucosa por meio de um disco ventral (ventosa), sem penetrar no epitélio. Essa adesão, somada à alta carga parasitária, causa:
Lesão mecânica e da borda em escova: encurtamento das microvilosidades, com redução da superfície absortiva.
Atrofia vilositária e hiperplasia de criptas: comprometimento da digestão e absorção de nutrientes, levando à má absorção (esteatorreia, perda de peso).
Resposta imune local: ativação de linfócitos T e liberação de citocinas pró-inflamatórias, que aumentam a permeabilidade intestinal e estimulam a secreção de fluidos e eletrólitos.
Desconjugação de sais biliares e possível sobrecrescimento bacteriano, contribuindo para a diarreia.
O resultado é uma diarreia do tipo secretora/má absortiva, aquosa, não sanguinolenta, com ausência de leucócitos fecais (padrão não inflamatório). O diagnóstico é feito por exame parasitológico de fezes (pesquisa de cistos ou trofozoítos), testes de detecção de antígeno ou métodos moleculares como a PCR, que apresenta alta sensibilidade e especificidade. O tratamento de escolha é com metronidazol, tinidazol ou nitazoxanida.
A pegadinha central desta questão está em distinguir o mecanismo da giardíase (adesão superficial + resposta imune) do mecanismo de outros agentes diarreicos, como as bactérias invasivas (Shigella, Salmonella, Campylobacter, Yersinia, E. coli enteroinvasiva) e a amebíase, que causam diarreia inflamatória com invasão tecidual. Guarde essa fronteira: Giardia adere, não invade — é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Característica
Giardia lamblia (giardíase)
Bactérias invasivas (Shigella, Salmonella, etc.)
Invasão tecidual
Não invade (adesão superficial à mucosa)
Invadem o epitélio intestinal
Mecanismo da diarreia
Adesão + lesão da borda em escova + liberação de citocinas
Inflamação e destruição tecidual
Local de colonização
Intestino delgado (duodeno/jejuno)
Intestino grosso (geralmente)
Tipo de diarreia
Não inflamatória (aquosa, sem leucócitos)
Inflamatória (com sangue, pus e muco)
Giardia lamblia: Forma infectante (Cisto (ingestão)); Excistação (pH ácido do estômago, Enzimas pancreáticas); Colonização (Duodeno e jejuno, Sem invasão tecidual); Mecanismo da diarreia (Adesão à mucosa (disco ventral), Lesão da borda em escova, Atrofia vilositária, Citocinas → perda de fluidos)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que os trofozoítos invadem o epitélio e alteram o equilíbrio dos hormônios intestinais. O erro está na palavra "invadem": a Giardia lamblia é um parasita não invasivo, permanecendo no lúmen intestinal aderida à mucosa. Não há invasão epitelial nem alteração de hormônios intestinais como mecanismo primário da diarreia. A invasão tecidual é característica de outros protozoários, como a Entamoeba histolytica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que bactérias intestinais quebram os cistos da Giardia no duodeno, liberando o trofozoíto. O processo de excistação é desencadeado pelo pH ácido do estômago e pelas enzimas pancreáticas no duodeno, não por bactérias intestinais. O cisto é a forma resistente que sobrevive ao ambiente e ao trânsito gastrointestinal; a liberação do trofozoíto ocorre por estímulos físico-químicos, não por ação bacteriana.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a colonização de trofozoítos é limitada ao intestino delgado superior. Embora a Giardia tenha predileção pelo duodeno e jejuno proximal, a colonização pode se estender ao jejuno e íleo, especialmente em infecções maciças ou em imunocomprometidos. A alternativa é incompleta e restritiva demais, pois a colonização não é estritamente limitada ao intestino delgado superior.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve corretamente o mecanismo: os trofozoítos aderem à superfície da mucosa, sem invadir, e a consequente liberação de citocinas (resposta imune local) leva à perda de fluidos e eletrólitos. Essa é a patogenia aceita para a diarreia na giardíase: adesão ao epitélio + resposta inflamatória imune local + lesão da borda em escova, resultando em diarreia secretora/má absortiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que os trofozoítos invadem os tecidos e se entrelaçam no sistema linfático, facilitando a disseminação sistêmica. Isso é completamente falso para a Giardia lamblia, que é um parasita exclusivamente luminal, sem capacidade de invasão tecidual ou disseminação sistêmica. Essa descrição se aproximaria de outros parasitas invasivos, como a Entamoeba histolytica (que pode causar abscesso hepático) ou certos helmintos, mas não se aplica à giardíase.
Gabarito: letra D — a única alternativa que descreve corretamente o mecanismo não invasivo de adesão à mucosa com resposta imune local e perda hidreletrolítica.