Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos
Código
vu080839
Banca
VUNESP
Órgão
TCM-SP
Ano
2023
Nível
Fundamental
O senso comum propala que há poucos ingênuos na sociedade contemporânea. Acresce de forma provocadora que as honrosas exceções, tão merecedoras de admiração, confirmam a regra de que “todo mundo tem um preço”. A generalização, porém, é abusiva. Por quê? Porque supõe que corromper-se seja um traço congênito dos homens. Ora, se muitos prevaricam, o mesmo não pode ser dito de todos. Afinal, as condições históricas não propiciam iguais tentações a cada um de nós. De um lado, nem todas as sociedades humanas instigam seus agentes a transgredir os padrões morais com a mesma intensidade; de outro, nem todas as pessoas estão à mercê das mesmas tentações para se corromper. Nesse sentido, ao incitar ambições e ao aguçar apetites, as sociedades em que prevalecem relações mercantis abrigam mais seduções do que as sociedades não mercantis. Resumidamente: expõem mais as consciências à prova e, em consequência, contabilizam mais violações dos códigos morais.
Ademais, ainda que se aceite que todo mundo tenha um “preço”, a pressuposição só faz sentido em termos virtuais. Afinal, nem todos estão ao alcance do canto das sereias. Dizendo sem rodeio: muitos não são corrompidos porque não vale a pena suborná-los!
E isso coloca em xeque a anedota desesperançada do filósofo Diógenes, que se achava exilado em Atenas: munido de uma lanterna em plena luz do dia, procurou em vão um homem honesto. Ora, convenhamos: será que ninguém naquela cidade-estado, absolutamente ninguém, merecia crédito? Não parece lógico; é uma fábula que não deve ser levada ao pé da letra. Qual então o seu mérito? Denunciar a depravação moral que então grassava. De qualquer modo, ponderemos: nem todos os atenienses possuíam cacife o bastante para vender a alma ao diabo.
(Robert H. Srour. Ética empresarial. Adaptado)
Para responder a esta questão, considere o texto de Robert H. Srour e a charge de Lor.(Lor. Os desmandamentos.)É correto afirmar que o cotejo desses textos aponta haver entre eles relações de
Ainterdependência, pois ambos expõem objetivamente suas teses.
Banalogia, replicando ideias implícitas e corrigindo desvios de conteúdo.
Cdescontinuidade, centradas na questão do poder ilimitado das corporações.
Dintertextualidade, abordando o aspecto temático de diferentes pontos de vista.
Ecoesão e coerência baseadas no emprego de expressões típicas da lógica textual.
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GabaritoD — intertextualidade, abordando o aspecto temático de diferentes pontos de vista.
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Intertextualidade: o diálogo entre o texto verbal e a charge
Gabarito: letra D. O cotejo entre o texto de Robert H. Srour e a charge de Lor revela uma relação de intertextualidade, pois ambos abordam o mesmo tema — a corrupção e a ética — sob perspectivas e linguagens distintas. Enquanto o texto dissertativo-argumentativo analisa criticamente a ideia de que "todo mundo tem um preço" e questiona a generalização da desonestidade, a charge utiliza o humor e a ironia para ilustrar a prática concreta do suborno, confirmando a tese do texto de que a corrupção é um fenômeno socialmente instigado e não um traço congênito.
O que é intertextualidade?
Intertextualidade é o diálogo entre textos — verbais, visuais, musicais etc. — em que um texto faz referência a outro, de forma implícita ou explícita. No caso, o texto de Srour e a charge de Lor não se citam diretamente, mas dialogam tematicamente: ambos tratam da corrupção, da ética e da ideia de que "todo mundo tem um preço". O texto verbal desenvolve uma tese argumentativa; a charge, por sua vez, apresenta uma crítica visual e irônica sobre o mesmo assunto. Essa relação de diálogo temático entre textos de linguagens diferentes é exatamente o que caracteriza a intertextualidade.
A banca explora a confusão entre intertextualidade e outros conceitos — como coesão, coerência, analogia e interdependência — para testar se o candidato sabe distinguir o que é propriedade interna do texto (coesão/coerência) do que é relação entre textos (intertextualidade).
Análise das alternativas
Intertextualidade
1Diálogo entre textos
Verbais, visuais, musicais
Implícita ou explícita
2No caso
Texto verbal (argumentativo)
Charge (humorística/irônica)
Mesmo tema: corrupção e ética
3Distinções
Coesão/coerência: propriedade interna
Analogia: comparação de semelhanças
Interdependência: um depende do outro
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "interdependência" e "exposição objetiva de teses". O texto de Srour é dissertativo-argumentativo e expõe uma tese de forma explícita; a charge, porém, é um gênero humorístico e irônico, que não expõe tese de forma objetiva — ela a sugere por meio do riso e da crítica visual. Além disso, "interdependência" implicaria que um texto depende do outro para existir, o que não ocorre: cada um tem sentido próprio. O erro aqui é tangenciar o tema e acrescentar opinião (a ideia de "exposição objetiva" não se aplica à charge).
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "analogia" e "correção de desvios de conteúdo". Não há analogia (comparação de semelhanças) entre os textos, nem um corrige o outro. A charge não "corrige" o texto de Srour; ela ilustra e reforça a mesma crítica, por meio de outra linguagem. O erro é trocar o conceito: confunde intertextualidade (diálogo) com analogia (comparação) e ainda inventa uma função corretiva que não existe.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "descontinuidade" e "poder ilimitado das corporações". O texto de Srour não trata do poder das corporações — ele discute a corrupção como fenômeno social e moral, citando até a anedota de Diógenes. A charge, por sua vez, aborda a corrupção de forma genérica, sem foco específico em corporações. Além disso, não há "descontinuidade" entre os textos: há continuidade temática (ambos falam de corrupção). O erro é extrapolar (introduzir o tema "corporações" que não está no texto) e contradizer a relação de continuidade.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta é a intertextualidade, pois os dois textos dialogam sobre o mesmo tema — a corrupção e a ética — de pontos de vista diferentes: o texto verbal é argumentativo e analítico; a charge é humorística e irônica. Essa relação de diálogo temático entre textos de linguagens distintas é a definição de intertextualidade. O texto de Srour, por exemplo, afirma que "muitos não são corrompidos porque não vale a pena suborná-los", e a charge ilustra exatamente essa prática do suborno, confirmando a tese do autor. Não há citação direta, mas há referência temática implícita, o que caracteriza a intertextualidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "coesão e coerência baseadas em expressões típicas da lógica textual". Coesão e coerência são propriedades internas de um texto — referem-se à articulação entre as partes de um mesmo texto. Aqui, temos dois textos diferentes (o verbal e a charge), e a relação entre eles é intertextual, não coesiva. Além disso, a charge não emprega "expressões típicas da lógica textual" (conectivos, operadores argumentativos) — ela usa linguagem visual. O erro é trocar o conceito: confunde relação entre textos (intertextualidade) com propriedade interna (coesão/coerência).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre intertextualidade e coesão/coerência (letra E) e a extrapolação (letra C, que introduz o tema "corporações" ausente do texto). Fique atento: intertextualidade é diálogo entre textos; coesão/coerência é articulação interna.
PEGA ESSA DICA!
Ao comparar textos, pergunte-se: "há diálogo temático entre eles?" Se sim, é intertextualidade. Se a questão fala em "relação entre textos", desconfie de alternativas que citam coesão/coerência, pois essas são propriedades de um único texto.