Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — VUNESP 2024
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
vu080917
Banca
VUNESP
Órgão
A.C. Camargo Cancer Center
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Programa de Residência Multiprofissional em Oncologia - Estomatologia
A hipertermia maligna é uma doença de herança autossômica dominante, na qual a exposição a anestésicos e à succinilcolina ocasiona
Atremores incontrolados e excessiva produção de calor, aumento de lactato e de dióxido de carbono (acidose lática e respiratória), além de diminuir os níveis séricos de potássio e de creatinofosfocinase.
Ba liberação maciça do íon cálcio no retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas.
Ca falta de ar e excessiva produção de calor e de lactato, além de diminuir o dióxido de carbono (alcalose respiratória) e os níveis séricos de potássio e de creatinofosfocinase.
Da completa eliminação do íon cálcio no retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas.
Ea liberação maciça do íon magnésio no retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas.
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GabaritoB — a liberação maciça do íon cálcio no retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas.
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Hipertermia maligna: fisiopatologia e manifestações
Gabarito: letra B. Na hipertermia maligna, a exposição a anestésicos voláteis e à succinilcolina desencadeia uma liberação maciça e descontrolada de íons cálcio do retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas, levando à contração muscular mantida e ao estado hipermetabólico. As demais alternativas erram ao trocar o íon (cálcio por magnésio), inverter os achados laboratoriais (acidose por alcalose, aumento por diminuição de potássio e CPK) ou descrever uma eliminação completa do cálcio, o que contraria o mecanismo fisiopatológico.
A hipertermia maligna é uma doença de herança autossômica dominante que se manifesta como uma reação farmacogenética a agentes desencadeantes, principalmente os anestésicos inalatórios halogenados (como halotano, sevoflurano, desflurano) e o relaxante muscular despolarizante succinilcolina. O defeito básico está na regulação do cálcio intracelular: nos indivíduos suscetíveis, esses agentes agem diretamente sobre o receptor de rianodina (RyR1) do retículo sarcoplasmático, provocando uma abertura anômala e sustentada do canal, com liberação maciça de cálcio para o mioplasma. Esse cálcio em excesso mantém a contração muscular (rigidez, especialmente do masseter) e ativa enzimas que aceleram o metabolismo celular, gerando um círculo vicioso de produção de calor e consumo de ATP.
O estado hipermetabólico resultante explica o quadro clínico e laboratorial: aumento do consumo de oxigênio e da produção de dióxido de carbono (hipercapnia, com elevação da ETCO2 — sinal mais precoce e sensível), acidose mista (lática pela glicólise anaeróbia e respiratória pela hipercapnia), hipertermia (que é tardia, pois resulta das alterações metabólicas), taquicardia, arritmias, rabdomiólise com elevação de CPK e mioglobina, hipercalemia (por lesão muscular e deslocamento de potássio) e hiperfosfatemia. O tratamento de escolha é o dantrolene, que bloqueia a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático, além de medidas de suporte como hiperventilação, resfriamento e correção da acidose e da hipercalemia.
A distinção crucial que a banca explora é entre o mecanismo desencadeante (liberação de cálcio) e as consequências metabólicas. Enquanto a liberação de cálcio é o evento primário e específico, as alterações de potássio, CPK, lactato e CO2 são secundárias. Além disso, é importante não confundir com outras síndromes hipermetabólicas, como a síndrome neuroléptica maligna (associada a antipsicóticos, com rigidez extrapiramidal e hipertermia, mas sem o gatilho anestésico) e a síndrome serotoninérgica. A pegadinha típica é inverter os achados: dizer que há diminuição de potássio e CPK (quando na verdade há aumento) ou trocar acidose por alcalose.
Guarde o par íon liberado × consequência metabólica: é exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem — a correta identifica o cálcio como o íon-chave, enquanto as erradas trocam o íon ou invertem os efeitos.
Hipertermia maligna
1Gatilho
Anestésicos voláteis (halotano, sevoflurano)
Succinilcolina
2Mecanismo (evento primário)
Receptor de rianodina (RyR1)
Liberação maciça de Ca²⁺ do retículo sarcoplasmático
3Consequências (secundárias)
Contração mantida (rigidez masseter)
Hipermetabolismo
↑ CO₂ (hipercapnia)
↑ Lactato (acidose lática)
↑ Temperatura (tardia)
↑ CPK e mioglobina (rabdomiólise)
↑ K⁺ (hipercalemia)
4Tratamento
Dantrolene (bloqueia liberação de Ca²⁺)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Esta alternativa descreve corretamente a produção excessiva de calor, o aumento de lactato e de CO2 (acidose lática e respiratória), mas erra ao afirmar que há diminuição dos níveis séricos de potássio e de creatinofosfocinase. Na hipertermia maligna ocorre o oposto: a lesão muscular e o estado hipermetabólico elevam o potássio (hipercalemia) e a CPK (por rabdomiólise). A banca inverte o sentido do achado laboratorial para confundir o candidato.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a alternativa correta. A hipertermia maligna é desencadeada pela liberação maciça do íon cálcio no retículo sarcoplasmático das miocélulas esqueléticas. Os agentes anestésicos (voláteis e succinilcolina) atuam sobre o receptor de rianodina, abrindo o canal de liberação de cálcio de forma descontrolada. Esse é o mecanismo fisiopatológico central da doença, que leva à contração muscular mantida e ao hipermetabolismo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Esta alternativa erra em dois pontos: primeiro, afirma que há diminuição do dióxido de carbono (alcalose respiratória), quando na verdade há aumento da PaCO2 (acidose respiratória) devido ao hipermetabolismo; segundo, repete o erro da alternativa A ao dizer que os níveis de potássio e CPK diminuem, quando na verdade aumentam. A produção excessiva de lactato e calor está correta, mas os demais achados estão invertidos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Esta alternativa fala em completa eliminação do íon cálcio no retículo sarcoplasmático, o que é o oposto do que ocorre. Na hipertermia maligna há liberação maciça de cálcio do retículo para o citosol, e não eliminação. O termo "eliminação" sugere remoção ou excreção, o que não corresponde ao mecanismo fisiopatológico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Esta alternativa troca o íon cálcio pelo magnésio. O íon envolvido na hipertermia maligna é o cálcio, que é liberado do retículo sarcoplasmático e desencadeia a contração muscular. O magnésio não tem esse papel no mecanismo da doença. A banca explora a confusão entre íons divalentes, mas o conhecimento da fisiologia muscular deixa claro que o cálcio é o mensageiro intracelular da contração.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter os achados laboratoriais e trocar o íon-chave. Repare: nas alternativas A e C, o erro está em dizer que potássio e CPK diminuem (na verdade aumentam) e que o CO2 diminui (na verdade aumenta). Na E, o magnésio substitui o cálcio. Com treino, você enxerga essas trocas de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, lembre-se do tripé da hipertermia maligna: liberação de Ca²⁺ → contração mantida → hipermetabolismo (↑CO2, ↑lactato, ↑temperatura, ↑CPK, ↑K⁺). Se a alternativa falar em diminuição de qualquer um desses, está errada. E o tratamento é dantrolene, que bloqueia justamente a liberação de cálcio.