Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2024
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu082013
Banca
VUNESP
Órgão
EINSTEIN
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Sem nada referir anteriormente, lactente de 8 meses dá entrada em serviço de emergência com quadro de vômitos, urticária e angioedema ocular bilateral, iniciados imediatamente após a ingestão de ovo cozido. A criança encontra-se eutrófica, sem história de outras condições patológicas e vem sendo amamentada ao seio materno sem qualquer restrição alimentar da nutriz. Administrada adrenalina intramuscular com resolução dos sintomas e mantida em observação por algumas horas.Em relação às recomendações necessárias no momento da alta, assinale a alternativa correta.
AVacinas cultivadas em embrião de galinha não devem ser administradas, caso da tríplice viral, influenza e febre amarela.
BA baixa idade contraindica a realização de testes para avaliação de IgE específica para o ovo, que deve ser completamente excluído da dieta.
CO diagnóstico deve ser necessariamente confirmado por meio de teste de provocação oral.
DNão há necessidade de restringir as proteínas do ovo da dieta da mãe nutriz, que manterá o aleitamento materno.
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GabaritoD — Não há necessidade de restringir as proteínas do ovo da dieta da mãe nutriz, que manterá o aleitamento materno.
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Alergia alimentar no lactente: conduta na alta após anafilaxia ao ovo
Gabarito: letra D. Em lactente com anafilaxia ao ovo, a conduta na alta inclui manter o aleitamento materno sem restrição de ovo na dieta da nutriz, pois a reação foi desencadeada pela ingestão direta do alimento pela criança, e não por proteínas do ovo transmitidas pelo leite materno. As demais alternativas trazem erros: vacinas cultivadas em embrião de galinha (tríplice viral, influenza e febre amarela) podem ser administradas mesmo após reação alérgica ao ovo, conforme recomendações atuais de imunização; a baixa idade não contraindica a dosagem de IgE específica; e o diagnóstico de anafilaxia é clínico, não exigindo teste de provocação oral para confirmação imediata.
A anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade imediata (tipo I, mediada por IgE) que se manifesta com sintomas em múltiplos sistemas — no caso, vômitos (trato gastrointestinal), urticária (pele) e angioedema ocular (tecido subcutâneo/mucoso) — iniciados minutos após a exposição ao alérgeno, aqui o ovo cozido. O tratamento de primeira linha é a adrenalina intramuscular, que foi administrada com sucesso. O quadro é clássico e o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na temporalidade entre a ingestão e os sintomas, não exigindo confirmação por teste de provocação oral — que, aliás, é contraindicado em casos de anafilaxia recente e grave, por risco de nova reação.
A questão central da alta é orientar a família sobre a exclusão do ovo da dieta da criança e o manejo de novas reações, mas sem restringir a dieta materna. Isso porque a reação foi desencadeada pela ingestão direta do ovo pela lactente, e não por proteínas alergênicas transmitidas pelo leite materno. Embora proteínas alimentares possam passar para o leite materno e causar sintomas em lactentes sensibilizados (como na protocolite induzida por proteína alimentar), no caso de anafilaxia IgE-mediada por ingestão direta, a restrição materna não é necessária — e a manutenção do aleitamento materno é sempre incentivada, inclusive por seu papel na prevenção de outras alergias.
Outro ponto importante é a vacinação: a criança com alergia ao ovo pode e deve receber todas as vacinas do calendário, incluindo tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), influenza e febre amarela. As vacinas são produzidas em embrião de galinha, mas a quantidade de ovoalbumina residual é mínima e não representa risco significativo de anafilaxia. As diretrizes atuais recomendam a vacinação em qualquer serviço de saúde, com observação de 30 minutos após a aplicação, mesmo para crianças com histórico de reação grave ao ovo. A única exceção histórica — vacina contra febre amarela em crianças com anafilaxia ao ovo — foi superada: hoje se recomenda a vacinação com precauções, em ambiente hospitalar, se necessário.
A avaliação diagnóstica também merece destaque: a dosagem de IgE específica para ovo (ou para suas proteínas, como ovalbumina e ovomucoide) pode e deve ser realizada em qualquer idade, inclusive em lactentes de 8 meses, para confirmar a sensibilização e auxiliar no seguimento. A baixa idade não contraindica o teste. O teste de provocação oral, por sua vez, é reservado para situações específicas — como avaliar a aquisição de tolerância após um período de exclusão — e não para confirmar um diagnóstico já claro de anafilaxia. Na alta, o que se recomenda é: prescrição de adrenalina auto-injetável (quando disponível) ou orientação de retorno imediato em caso de novos sintomas, exclusão rigorosa do ovo da dieta da criança, encaminhamento a alergista para seguimento e reavaliação periódica, e orientações sobre leitura de rótulos e cuidados em alimentação fora de casa.
A pegadinha da banca está em explorar a confusão entre alergia alimentar mediada por IgE (anafilaxia) e alergia não mediada por IgE (como a protocolite ou a enterocolite), em que a dieta materna de exclusão pode ser necessária. No caso descrito, a reação é claramente IgE-mediada e imediata, e a restrição materna não se aplica. Guarde essa distinção: é ela que separa a alternativa correta das demais.
Anafilaxia ao ovo no lactente
1Diagnóstico
Clínico (temporalidade + sintomas)
Provocação oral não confirma
2Conduta na alta
Excluir ovo da dieta da criança
Manter aleitamento materno
Sem restrição de ovo na nutriz
Adrenalina auto-injetável
Encaminhar ao alergista
3Vacinação
Tríplice viral, influenza e febre amarela
Podem ser administradas
Observação de 30 min
4Investigação
IgE específica em qualquer idade
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que vacinas cultivadas em embrião de galinha (tríplice viral, influenza e febre amarela) não devem ser administradas. Errado: as diretrizes atuais de imunização recomendam a administração dessas vacinas em crianças com alergia ao ovo, incluindo aquelas com histórico de anafilaxia. A quantidade de proteína do ovo nas vacinas é mínima e o risco de reação grave é muito baixo. A recomendação é vacinar em ambiente seguro, com observação de 30 minutos. A alternativa inverte a recomendação vigente, que é de administrar as vacinas, não de evitá-las.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a baixa idade contraindica a dosagem de IgE específica para ovo e que o ovo deve ser completamente excluído da dieta. Errado em dois pontos: (1) a dosagem de IgE específica pode ser realizada em qualquer idade, inclusive em lactentes — a baixa idade não é contraindicação; (2) a exclusão do ovo da dieta da criança é, de fato, recomendada, mas a alternativa erra ao associar essa exclusão à contraindicação do teste. A exclusão do ovo da dieta da criança é correta, mas o teste de IgE é útil e indicado para confirmar a sensibilização e monitorar a evolução.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o diagnóstico deve ser necessariamente confirmado por teste de provocação oral. Errado: o diagnóstico de anafilaxia é clínico, baseado na história de exposição ao alérgeno e nos sintomas típicos (vômitos, urticária, angioedema) com início imediato. O teste de provocação oral é contraindicado em casos de anafilaxia recente e grave, por risco de nova reação. Ele é reservado para avaliar a aquisição de tolerância após período de exclusão, não para confirmar o diagnóstico inicial. A alternativa confunde o papel do teste de provocação no manejo da alergia alimentar.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que não há necessidade de restringir as proteínas do ovo da dieta da mãe nutriz, que manterá o aleitamento materno. Correto: a reação foi desencadeada pela ingestão direta do ovo pela lactente, e não por proteínas do ovo transmitidas pelo leite materno. A restrição da dieta materna só se aplica em casos de alergia não mediada por IgE (como protocolite ou enterocolite) ou quando há sintomas na criança associados à ingestão materna do alimento. No caso de anafilaxia IgE-mediada por ingestão direta, a manutenção do aleitamento materno sem restrição é a conduta recomendada, pois o aleitamento materno traz benefícios e não há evidência de que a restrição materna previna novas reações na criança.
Gabarito: letra D — a conduta correta na alta é manter o aleitamento materno sem restrição de ovo na dieta da nutriz, pois a reação foi por ingestão direta, e não por transmissão via leite materno.