Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2024
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu082025
Banca
VUNESP
Órgão
EINSTEIN
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Paciente do sexo masculino, 35 anos, foi submetido à hernioplastia inguinal direita, por via laparoscópica, pela técnica transabdominal pré-peritoneal. A cirurgia evoluiu sem intercorrências, e o paciente recebeu alta no 1o pós- -operatório. No primeiro retorno ambulatorial, após 7 dias da cirurgia, o paciente referia dor inguinal e em face medial de coxa direita, sendo prescritos analgésicos simples para controle álgico. O paciente retorna 6 semanas após a cirurgia, com as mesmas queixas a despeito dos analgésicos prescritos. Ao exame físico, região inguinal direita sem abaulamentos, hematomas ou sinais de recidiva.O provável fator responsável pela dor e a terapia inicial mais adequada no momento são:
Auso de grampos cirúrgicos em região lateral aos vasos epigástricos e abaixo do trato ileopúbico; gabapentina via oral.
Bligadura inadvertida dos vasos gonadais; ultrassom Doppler de testículos.
Cmigração da tela cirúrgica para região abdominal; tomografia de abdome com contraste endovenoso.
Dseroma adjacente à tela cirúrgica; punção guiada por ultrassom.
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GabaritoA — uso de grampos cirúrgicos em região lateral aos vasos epigástricos e abaixo do trato ileopúbico; gabapentina via oral.
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Dor crônica após hernioplastia inguinal laparoscópica
Gabarito: letra A. A dor persistente na região inguinal e face medial da coxa após hernioplastia inguinal laparoscópica pela técnica TAPP, sem sinais de recidiva, é classicamente atribuída à lesão ou irritação dos nervos sensitivos da região (nervo ilioinguinal, ilio-hipogástrico, genitofemoral), frequentemente causada pela fixação da tela com grampos (tacks) colocados lateralmente aos vasos epigástricos e abaixo do trato ileopúbico. A terapia inicial mais adequada é o tratamento farmacológico com agentes neuromoduladores, como a gabapentina.
A dor crônica pós-hernioplastia (DCPH) é uma complicação bem reconhecida e potencialmente debilitante, definida como dor que persiste por mais de 3 meses após o procedimento. Sua incidência varia, mas é uma das principais causas de morbidade e insatisfação após a correção de hérnias inguinais. A fisiopatologia envolve, na maioria dos casos, o envolvimento de nervos sensitivos que passam pela região inguinal: o nervo ilioinguinal, o ilio-hipogástrico e o ramo genital do nervo genitofemoral. Esses nervos podem ser lesados diretamente por secção, esmagamento, encarceramento em suturas ou grampos, ou irritados por fibrose e reação inflamatória ao redor da tela.
Na técnica laparoscópica transabdominal pré-peritoneal (TAPP), a tela é fixada com grampos ou tacks. A colocação desses grampos em áreas de risco, como lateralmente aos vasos epigástricos inferiores e abaixo do trato ileopúbico, aumenta a probabilidade de lesão nervosa. O trato ileopúbico é uma estrutura anatômica que serve de referência; abaixo dele, passam os nervos que inervam a região da coxa e do escroto/lábios. A dor referida na face medial da coxa é típica da irritação do ramo genital do nervo genitofemoral ou do nervo ilioinguinal, que fornecem sensibilidade a essa área.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história de dor neuropática (queimação, choque, formigamento) na distribuição dos nervos, exacerbada por certos movimentos ou posições, e na exclusão de outras causas, como recidiva herniária, seroma, hematoma ou infecção. Exames de imagem, como ultrassom ou tomografia, são úteis para descartar essas outras causas, mas não diagnosticam a lesão nervosa diretamente. O tratamento inicial é conservador e farmacológico, com analgésicos simples, anti-inflamatórios e, principalmente, medicamentos para dor neuropática, como gabapentina, pregabalina, amitriptilina ou duloxetina. A gabapentina é uma escolha comum e eficaz. Opções invasivas, como bloqueios nervosos, são consideradas em casos refratários, e a neurectomia é reservada para falha do tratamento clínico.
A alternativa A descreve exatamente o mecanismo mais provável (grampos em área de risco) e a terapia inicial adequada (gabapentina). As demais alternativas apresentam diagnósticos menos prováveis ou tratamentos não indicados como primeira linha para o quadro descrito. A chave para resolver a questão é reconhecer o padrão de dor neuropática na distribuição dos nervos inguinais, que é a causa mais comum de dor crônica após hernioplastia, e saber que o tratamento inicial é farmacológico com neuromoduladores.
Dor crônica pós-hernioplastia (DCPH)
1Causa mais comum
Lesão/irritação de nervos sensitivos
Ilioinguinal
Ilio-hipogástrico
Genitofemoral (ramo genital)
2Fatores de risco na TAPP
Grampos laterais aos vasos epigástricos
Grampos abaixo do trato ileopúbico
3Quadro clínico
Dor neuropática (queimação, choque)
Face medial da coxa
Sem sinais de recidiva
4Diagnóstico
Essencialmente clínico
Imagem descarta outras causas
5Tratamento inicial
Gabapentina
Pregabalina
Amitriptilina
Duloxetina
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa identifica corretamente o provável fator responsável pela dor: a colocação de grampos cirúrgicos em região lateral aos vasos epigástricos e abaixo do trato ileopúbico, uma área de risco para lesão dos nervos sensitivos (ilioinguinal, ilio-hipogástrico e genitofemoral). Essa lesão ou irritação nervosa é a causa mais comum de dor crônica pós-hernioplastia. A terapia inicial mais adequada é o uso de gabapentina, um neuromodulador eficaz no tratamento da dor neuropática, que é o tipo de dor apresentada pelo paciente (dor em queimação, na distribuição do nervo). A alternativa está correta em ambos os aspectos: causa provável e tratamento inicial.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A ligadura inadvertida dos vasos gonadais (artéria e veia testiculares) é uma complicação rara e geralmente resulta em isquemia testicular, que se manifestaria com dor testicular aguda, aumento de volume e, potencialmente, necrose. Não é uma causa típica de dor crônica na face medial da coxa. O ultrassom Doppler dos testículos seria um exame para avaliar a vascularização testicular, não para diagnosticar dor neuropática. A alternativa erra tanto na causa quanto no exame proposto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A migração da tela cirúrgica para a região abdominal é uma complicação extremamente rara e geralmente assintomática ou associada a complicações graves, como obstrução intestinal ou fístula. Não é uma causa comum de dor inguinal e na face medial da coxa. A tomografia de abdome com contraste seria um exame para avaliar complicações intra-abdominais, mas não é o primeiro exame indicado para dor crônica pós-hernioplastia sem outros sinais de alarme. A alternativa é improvável e o exame não é o mais adequado como primeira abordagem.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Um seroma adjacente à tela cirúrgica é uma complicação relativamente comum no pós-operatório, mas geralmente se manifesta como um abaulamento ou massa na região inguinal, que pode ser flutuante. No caso descrito, o exame físico não evidenciou abaulamentos, o que torna o seroma uma causa menos provável. Além disso, a dor referida na face medial da coxa não é típica de seroma. A punção guiada por ultrassom seria o tratamento para um seroma sintomático, mas não é a primeira linha para dor neuropática. A alternativa erra na causa mais provável e no tratamento inicial.