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Questão de Medicina — Pneumologia — VUNESP 2024

MedicinaPneumologia
Código
vu082040
Banca
VUNESP
Órgão
EINSTEIN
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Paciente feminina de 68 anos é trazida ao pronto atendimento por queixa de tosse produtiva há 5 dias, sendo que hoje passou a apresentar dispneia para caminhar no plano e dor ventilatório-dependente em hemitórax direito. Nega febre, internações ou uso de antibióticos recentes. Nega sintomas gripais antes do início do quadro atual, mas diz que vem apresentando dificuldade para engolir alguns alimentos e tosse com frequência durante a alimentação. Paciente é previamente hipertensa e diabética, com controle adequado das comorbidades em uso de losartana 50 mg 12/12h, anlodipino 5 mg 12/12h, metformina 850 mg 3x/dia e dapagliflozina 10 mg/dia. Ao exame físico, paciente encontra-se em regular estado geral, corada, hidratada, anictérica, afebril, lúcida e orientada, cavidade oral em bom estado. Sinais vitais: frequência cardíaca de 102 bpm, frequência respiratória de 25 ipm, PA = 120 x 70 mmHg, SpO₂ = 91% em ar ambiente, glicemia capilar de 95 mg/L. Ausculta cardíaca e exame abdominal sem alterações, ausculta pulmonar com estertores crepitantes em campo inferior de hemitórax direito. O médico solicita uma radiografia de tórax que mostra consolidação em base do pulmão direito, com alguns infiltrados algodonosos também em campo inferior esquerdo. Exames de sangue mostram: Hb = 12,1 g/dL, leucócitos 15.000 (75% neutrófilos, 5% bastões), plaquetas 160.000/mm³ , Ur = 60 mg/dL, Cr = 1,1 mg/dL, Na = 135 mEq/L, K = 4,5 mEq/L, Proteína C-reativa = 50 mg/dL, gasometria arterial com pH = 7,46 pO₂ = 58 mmHg, pCO₂ = 34 mmHg, SpO₂ = 91%.Com relação ao caso descrito, assinale a alternativa correta.
  1. APaciente apresenta pneumonia comunitária sem sinais de gravidade, podendo ser tratada ambulatorialmente com amoxacilina-clavulanato e azitromicina. Nenhum exame adicional é necessário.
  2. BPaciente com provável pneumonia aspirativa, sendo recomendado tratamento com ceftriaxone e clindamicina em regime de enfermaria, além de oxigenoterapia suplementar por cateter nasal. Solicitar hemoculturas e cultura de escarro.
  3. CPaciente com pneumonia comunitária grave com necessidade de internação em UTI. Iniciar antibioticoterapia empírica com ceftriaxone e azitromicina, cateter de alto fluxo e hidrocortisona, colher hemoculturas e pesquisa de antígeno urinário para Legionella.
  4. DPaciente com pneumonia adquirida na comunidade, de provável origem aspirativa. Iniciar tratamento empírico com ceftriaxone e azitromicina, cateter nasal de oxigênio, colher hemocultura e cultura de bactérias no escarro, painel de patógenos respiratórios, antígeno urinário para Streptococcus e Legionella.
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GabaritoD — Paciente com pneumonia adquirida na comunidade, de provável origem aspirativa. Iniciar tratamento empírico com ceftriaxone e azitromicina, cateter nasal de oxigênio, colher hemocultura e cultura de bactérias no escarro, painel de patógenos respiratórios, antígeno urinário para Streptococcus e Legionella.

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Pneumonia adquirida na comunidade: gravidade, etiologia e conduta

Gabarito: letra D. A paciente apresenta pneumonia adquirida na comunidade (PAC) com sinais de gravidade (SpO₂ 91%, PaO₂ 58 mmHg, taquipneia, taquicardia, infiltrado bilateral), mas sem critérios para internação em UTI, e o contexto clínico (disfagia, tosse durante a alimentação, idade avançada) aponta fortemente para etiologia aspirativa. A conduta correta é internação em enfermaria, oxigenoterapia suplementar, antibioticoterapia empírica com ceftriaxone e azitromicina, além de coleta de hemoculturas, cultura de escarro, painel de patógenos respiratórios e antígeno urinário para Streptococcus pneumoniae e Legionella — exatamente o que a alternativa D descreve.

A pneumonia adquirida na comunidade é uma infecção aguda do parênquima pulmonar que acomete o paciente fora do ambiente hospitalar ou nas primeiras 48 horas de internação. O diagnóstico é clínico-radiológico, e a principal decisão inicial é o local de tratamento (ambulatorial, enfermaria ou UTI), que depende da gravidade avaliada por escores como PSI (Pneumonia Severity Index) e CURB-65. Nesta paciente, a presença de hipoxemia (SpO₂ 91%, PaO₂ 58 mmHg), taquipneia (FR 25 ipm), taquicardia (FC 102 bpm) e infiltrado bilateral na radiografia configura PAC grave, com indicação de internação hospitalar. Contudo, a ausência de critérios de UTI (como necessidade de ventilação mecânica, choque séptico ou PaO₂/FiO₂ < 250) afasta a alternativa C.

A suspeita de pneumonia aspirativa é reforçada por dados clínicos: a paciente refere dificuldade para engolir alimentos e tosse durante a alimentação, o que sugere disfagia orofaríngea e microaspiração recorrente. A idade avançada (68 anos) e o diabetes mellitus são fatores de risco adicionais. A pneumonia aspirativa costuma acometer os segmentos dependentes do pulmão (no caso, base direita), e os agentes mais comuns são anaeróbios da cavidade oral, Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Staphylococcus aureus. Por isso, o esquema empírico com ceftriaxone (cobre gram-negativos e pneumococo) associado a azitromicina (cobre atípicos) é adequado, e a cobertura para anaeróbios (clindamicina) não é rotineiramente necessária na PAC aspirativa sem abscesso ou empiema — o que torna a alternativa B incorreta.

A alternativa A está errada porque classifica a paciente como sem sinais de gravidade e indica tratamento ambulatorial, ignorando a hipoxemia e o infiltrado bilateral. A alternativa C, por sua vez, superestima a gravidade ao indicar UTI e hidrocortisona, que não é recomendada de rotina na PAC. A alternativa D é a mais completa e correta, pois reconhece a gravidade, a provável etiologia aspirativa, indica internação em enfermaria com oxigenoterapia, antibioticoterapia empírica adequada e coleta de exames microbiológicos apropriados.

A chave para resolver esta questão é a correta estratificação de gravidade e a identificação dos fatores de risco para aspiração. A banca explora a confusão entre os níveis de gravidade (ambulatorial vs. enfermaria vs. UTI) e entre os esquemas antibióticos, além de testar o conhecimento sobre a investigação etiológica recomendada na PAC grave.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A paciente não pode ser tratada ambulatorialmente, pois apresenta sinais de gravidade: SpO₂ 91% em ar ambiente, PaO₂ 58 mmHg, taquipneia (FR 25 ipm), taquicardia (FC 102 bpm) e infiltrado bilateral na radiografia. A presença de hipoxemia é um critério de internação hospitalar, e a conduta ambulatorial com amoxicilina-clavulanato e azitromicina seria inadequada. Além disso, a alternativa afirma que "nenhum exame adicional é necessário", o que contraria a recomendação de investigação microbiológica em PAC grave. O erro está em subestimar a gravidade e ignorar a necessidade de exames complementares.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa reconhece corretamente a pneumonia aspirativa e indica internação em enfermaria com oxigenoterapia, mas o esquema antibiótico com ceftriaxone e clindamicina não é o mais adequado para PAC aspirativa sem complicações (abscesso ou empiema). A cobertura para anaeróbios com clindamicina não é rotineiramente necessária na PAC aspirativa comunitária, sendo preferível a associação de ceftriaxone com azitromicina para cobrir também os atípicos. Além disso, a alternativa não menciona a coleta de antígeno urinário para Streptococcus pneumoniae e Legionella, que é recomendada na PAC grave. O erro está na escolha do esquema antibiótico e na investigação etiológica incompleta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa superestima a gravidade ao indicar internação em UTI. A paciente apresenta hipoxemia (SpO₂ 91%, PaO₂ 58 mmHg), mas não preenche critérios para UTI, como necessidade de ventilação mecânica, choque séptico ou PaO₂/FiO₂ < 250. O uso de hidrocortisona não é recomendado de rotina na PAC, e o cateter de alto fluxo não é a primeira escolha para oxigenoterapia em paciente estável com hipoxemia moderada. A alternativa também não menciona a suspeita de aspiração, que é um dado clínico importante. O erro está na superestimação da gravidade e na conduta inadequada.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa está correta porque reconhece a PAC com sinais de gravidade (hipoxemia, taquipneia, infiltrado bilateral) e a provável etiologia aspirativa (disfagia, tosse durante a alimentação, idade avançada). Indica internação em enfermaria com oxigenoterapia por cateter nasal, antibioticoterapia empírica com ceftriaxone e azitromicina (cobre pneumococo, gram-negativos e atípicos), e coleta de exames microbiológicos apropriados: hemoculturas, cultura de escarro, painel de patógenos respiratórios e antígeno urinário para Streptococcus pneumoniae e Legionella. Essa conduta está alinhada com as diretrizes de manejo da PAC grave, que recomendam investigação etiológica ampla e tratamento empírico com beta-lactâmico associado a macrolídeo.

Gabarito: letra D

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