Privação de sono e síndrome do sono insuficiente
Gabarito: letra C. A paciente apresenta privação crônica de sono (dorme apenas 5 horas por noite, das 22h às 3h), com sonolência diurna e prejuízo de performance — quadro clássico de síndrome do sono insuficiente. A alternativa C está correta ao afirmar que os sintomas (atenção, humor, julgamento, libido) são esperados na privação crônica e podem ser revertidos com a normalização da rotina de sono, sem papel para farmacoterapia nessa síndrome. O tratamento é comportamental: higiene do sono e aumento do tempo total de sono.
A síndrome do sono insuficiente é um transtorno do sono-vigília caracterizado pela privação crônica e voluntária de sono, em que o indivíduo dorme menos do que o necessário para seu funcionamento adequado, sem que haja outra causa médica, psiquiátrica ou farmacológica que explique a sonolência. No caso, a paciente dorme das 22h às 3h (5 horas), bem abaixo das 7–9 horas recomendadas para adultos, e relata melhora quando pode dormir mais — o que confirma o diagnóstico. A sonolência diurna excessiva, a fadiga, os déficits de atenção e memória, a irritabilidade e a queda de libido são consequências diretas da privação acumulada de sono.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na anamnese detalhada do sono: duração, horários, qualidade, hábitos, impacto diurno e fatores que melhoram ou pioram o quadro. A escala de sonolência de Epworth (pontuação > 10 indica sonolência excessiva) é uma ferramenta útil, mas não substitui a história clínica. Exames complementares como polissonografia são reservados para quando se suspeita de outros transtornos (apneia, narcolepsia, etc.).
O tratamento da síndrome do sono insuficiente é não farmacológico: orientação de higiene do sono, regularização do horário de dormir e acordar, e principalmente aumento do tempo total de sono para atender à necessidade individual. Não há indicação de melatonina, modafinil, zolpidem ou qualquer outra medicação para essa condição — a farmacoterapia não trata a causa, que é comportamental. A melhora com a possibilidade de dormir mais (como quando os filhos ficam com os avós) reforça que a solução é permitir mais horas de sono.
A banca explora aqui a confusão entre a síndrome do sono insuficiente e outros transtornos do sono que têm tratamento medicamentoso (insônia, narcolepsia, apneia). A pegadinha está em oferecer alternativas que mencionam medicações (melatonina, modafinil, zolpidem) ou condutas que não se aplicam a esse diagnóstico. O critério decisivo é: privação crônica de sono por escolha/rotina → tratamento comportamental, sem farmacoterapia.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que a qualidade do sono deve ser acessada é correta, mas a conclusão de que "a prescrição de melatonina noturna pode ser benéfica" na síndrome do sono insuficiente está errada. A melatonina é indicada para distúrbios do ritmo circadiano ou insônia, não para privação de sono por rotina inadequada. O problema da paciente não é dificuldade para iniciar o sono, mas sim tempo insuficiente de sono — ela dorme apenas 5 horas. A melatonina não aumenta o tempo total de sono disponível; a solução é reorganizar a rotina para permitir mais horas de descanso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa inverte o efeito dos cochilos breves. Cochilos diurnos de 10–20 minutos são benéficos para reduzir a sonolência e melhorar o desempenho, não deletérios. O que pode ser deletério são cochilos longos (>30–60 min), que causam inércia do sono e podem atrapalhar o sono noturno. Além disso, recomendar cafeína para "evitar" os efeitos dos cochilos é contraproducente: a cafeína é um estimulante que pode piorar a qualidade do sono noturno, especialmente se consumida no final do dia. A conduta correta seria permitir cochilos curtos e estratégicos, não evitá-los com cafeína.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que prejuízos de atenção, humor, julgamento e libido são sintomas esperados na privação crônica de sono. Esses déficits cognitivos e emocionais são bem documentados na literatura. A reversão com a normalização da rotina de sono é o tratamento de primeira linha — e o único necessário na síndrome do sono insuficiente. A afirmação de que "não há papel para farmacoterapia" está correta: não há medicação aprovada para tratar a privação de sono; o tratamento é comportamental, com aumento do tempo de sono e melhora da higiene do sono.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa contém dois erros. Primeiro, a relação entre duração do sono e infarto é apresentada de forma imprecisa: embora exista associação entre sono curto (<6h) ou longo (>9h) e maior risco cardiovascular, a afirmação de que a associação é "protetora" entre 6 e 9 horas é uma simplificação excessiva e não reflete a complexidade dos dados. Segundo, e mais grave, a prescrição de modafinil (estimulante usado para narcolepsia e apneia) e zolpidem (hipnótico para insônia) é totalmente inadequada para a síndrome do sono insuficiente. Esses medicamentos não tratam a privação de sono e podem causar dependência e efeitos adversos. O tratamento correto é comportamental, como descrito na alternativa C.
Gabarito: letra C