Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2024
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
vu082085
Banca
VUNESP
Órgão
EINSTEIN
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clínica Médica
Um homem de 64 anos procura o pronto atendimento com queixa de cefaleia iniciada há 4 dias. A dor é predominantemente hemicraniana, variando em intensidade entre 7 e 9 em uma escala de 0 a 10. A cefaleia é associada a náuseas e fotofobia. O paciente relata que tem utilizado dipirona 4x/dia para controle da dor. Nega febre, sintomas respiratórios, digestivos ou urinários. Sem outras queixas no período. Nega episódios prévios de cefaleia. Antecedente: hipertensão arterial sistêmica, em uso de hidroclorotiazida; sem outras comorbidades ou sintomas prévios. Os sinais vitais à entrada são: FC: 80 bpm, FR: 16 irpm, PA: 144 × 82 mmHg e T: 36,5 ºC. Ao exame neurológico, apresenta nível e conteúdo da consciência sem alterações, força grau 5 nos quatro membros, sem déficits de nervos cranianos e sem sinais de irritação meníngea.Com base no caso hipotético, assinale a alternativa que apresenta a conduta correta nesse momento.
ARealizar prova terapêutica com sumatriptano.
BSuspender a dipirona para controle de cefaleia por abuso de analgésicos.
CIniciar ibuprofeno para controle sintomático e propranolol para profilaxia das crises.
DProsseguir investigação com exame de imagem.
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GabaritoD — Prosseguir investigação com exame de imagem.
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Cefaleia no pronto atendimento: quando investigar com imagem
Gabarito: letra D. O paciente apresenta cefaleia de início recente (4 dias), intensa (7–9/10), hemicraniana, com náuseas e fotofobia, em um homem de 64 anos sem história prévia de cefaleia — e o início após os 40 anos é um sinal de alarme que, por si só, indica a necessidade de investigação complementar com exame de imagem (tomografia de crânio sem contraste). A conduta correta é prosseguir a investigação, não apenas tratar sintomaticamente.
A cefaleia é uma das queixas mais comuns no pronto atendimento, e a principal tarefa do médico é distinguir as cefaleias primárias (enxaqueca, cefaleia tipo tensão, cefaleias trigêmino-autonômicas) das secundárias, que são sintoma de uma doença subjacente — algumas potencialmente letais, como hemorragia subaracnóidea, trombose venosa cerebral, meningite ou lesão expansiva. O diagnóstico das cefaleias primárias é essencialmente clínico, baseado nos critérios da Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3), e não há biomarcadores que as confirmem. Por isso, a história e o exame físico são as ferramentas centrais: é deles que saem os chamados sinais de alarme (red flags), que indicam a necessidade de investigação complementar.
Os principais sinais de alarme na história são: mudança no padrão da crise, cefaleia de forte intensidade e início súbito (cefaleia em trovoada), infecção concomitante, dor desencadeada por exercício físico ou atividade sexual, início após os 40 anos e imunossupressão prévia. No exame físico, os achados de risco são: alteração do nível de consciência, sinais de toxemia, meningismo, sinais neurológicos focais e fundo de olho alterado, especialmente com papiledema. A presença de qualquer um desses sinais torna obrigatória a investigação com exame de imagem — o primeiro exame a ser solicitado é a tomografia de crânio sem contraste.
No caso apresentado, o paciente tem 64 anos e nega episódios prévios de cefaleia — ou seja, trata-se de uma cefaleia de início recente em paciente com mais de 40 anos, o que configura um sinal de alarme clássico. A intensidade da dor (7–9/10), a hemicrania, as náuseas e a fotofobia são características compatíveis com migrânea, mas o diagnóstico de cefaleia primária só pode ser firmado após a exclusão de causas secundárias, especialmente nesse contexto de idade avançada e primeiro episódio. O exame neurológico normal não afasta a necessidade de imagem, pois muitas lesões intracranianas (como tumores de crescimento lento ou trombose venosa cerebral) podem cursar com exame neurológico inicialmente normal. A pressão arterial de 144 × 82 mmHg não configura crise hipertensiva (que exigiria PA > 180 × 120 mmHg), e a ausência de febre e sinais meníngeos torna menos provável uma infecção do sistema nervoso central, mas não elimina a necessidade de investigação diante do sinal de alarme.
A conduta correta, portanto, é prosseguir a investigação com exame de imagem — tomografia de crânio sem contraste — antes de estabelecer o diagnóstico de migrânea e iniciar tratamento específico. As demais alternativas apresentam condutas precipitadas ou inadequadas para este momento: a prova terapêutica com sumatriptano e o início de profilaxia com propranolol pressupõem o diagnóstico de migrânea, que ainda não foi confirmado; a suspensão da dipirona por abuso de analgésicos não se justifica, pois o uso por apenas 4 dias não caracteriza cefaleia por uso excessivo de medicamentos; e o ibuprofeno, embora seja um analgésico adequado para o tratamento agudo, não substitui a investigação necessária diante do sinal de alarme.
Guarde o critério decisivo: a presença de qualquer sinal de alarme — e o início após os 40 anos é um deles — impõe a investigação com imagem antes de qualquer diagnóstico de cefaleia primária. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Cefaleia no PA
1Primária (diagnóstico clínico)
Migrânea
Tensional
Trigêmino-autonômica
2Secundária (sintoma de doença)
Hemorragia subaracnóidea
Trombose venosa cerebral
Meningite
Lesão expansiva
3Sinais de alarme (red flags)
Na história
Início após 40 anos
Cefaleia em trovoada
Mudança de padrão
Infecção concomitante
Esforço/atividade sexual
Imunossupressão
No exame físico
Alteração da consciência
Sinais focais
Meningismo
Papiledema
Toxemia
4Conduta
Sem sinal de alarme → tratar sintoma
Com sinal de alarme → TC de crânio sem contraste
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Realizar prova terapêutica com sumatriptano seria adequado se o diagnóstico de migrânea já estivesse estabelecido. O sumatriptano é um triptano, medicamento específico para o tratamento agudo da migrânea, mas seu uso pressupõe a exclusão de causas secundárias. No caso, há um sinal de alarme (início após os 40 anos, primeiro episódio), o que torna a prova terapêutica prematura e potencialmente perigosa: se a cefaleia for secundária a uma lesão intracraniana, o tratamento sintomático pode mascarar a evolução e atrasar o diagnóstico. Além disso, os triptanos são contraindicados em pacientes com doença cardiovascular isquêmica, e o paciente tem hipertensão arterial sistêmica — embora não haja evidência de cardiopatia, a cautela é redobrada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Suspender a dipirona por suspeita de cefaleia por abuso de analgésicos é um erro de timing e de conceito. A cefaleia por uso excessivo de medicamentos (medication overuse headache) é definida pelo uso de analgésicos por mais de 10 a 15 dias por mês, por pelo menos 3 meses, e o paciente usou dipirona por apenas 4 dias — o que está muito aquém do critério. Além disso, a dipirona é um analgésico de primeira linha para o tratamento agudo da cefaleia, e sua suspensão abrupta não é a conduta indicada neste momento. O foco deve ser a investigação da causa da cefaleia, não a retirada do analgésico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Iniciar ibuprofeno para controle sintomático e propranolol para profilaxia das crises é uma conduta que mistura tratamento agudo e profilático, mas ambas as medidas pressupõem o diagnóstico de migrânea — que ainda não foi estabelecido. O propranolol é um betabloqueador usado na profilaxia da migrânea, indicado quando há crises frequentes (geralmente ≥ 4 crises por mês), o que não é o caso de um primeiro episódio. Além disso, iniciar profilaxia antes de excluir causas secundárias é inadequado. O ibuprofeno, como analgésico, poderia ser usado para alívio sintomático, mas não substitui a investigação com imagem diante do sinal de alarme.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Prosseguir investigação com exame de imagem é a conduta correta. O paciente tem 64 anos, nega episódios prévios de cefaleia e apresenta dor intensa há 4 dias — o início após os 40 anos é um sinal de alarme que, isoladamente, já indica a necessidade de investigação complementar. O exame de imagem de escolha é a tomografia de crânio sem contraste, que é o primeiro exame a ser solicitado na avaliação de cefaleia com sinais de alarme. A tomografia é capaz de detectar hemorragia, lesões expansivas, sinais de hipertensão intracraniana e outras causas secundárias. O exame neurológico normal não afasta a necessidade de imagem, pois muitas lesões intracranianas podem cursar com exame neurológico inicialmente normal. A conduta é investigar antes de tratar, garantindo que não haja uma causa secundária potencialmente grave.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de diagnosticar migrânea pelos sintomas típicos (hemicrania, náuseas, fotofobia) e tratar com triptano ou profilaxia. Mas o início após os 40 anos em paciente sem história prévia de cefaleia é um sinal de alarme que obriga à investigação com imagem antes de qualquer diagnóstico de cefaleia primária. O exame neurológico normal não elimina esse risco — muitas lesões intracranianas são silenciosas ao exame físico inicial. Fique atento: em cefaleia de início recente em paciente idoso, a regra é investigar, não tratar às cegas.
PEGA ESSA DICA!
Memorize os sinais de alarme da cefaleia — eles são a chave para decidir entre tratar e investigar. Na história: início após os 40 anos, cefaleia em trovoada (início súbito e intenso), mudança de padrão, infecção concomitante, dor desencadeada por esforço/atividade sexual, imunossupressão. No exame: alteração do nível de consciência, sinais focais, meningismo, papiledema, toxemia. Se qualquer um estiver presente, solicite tomografia de crânio sem contraste. Essa é a conduta que a banca espera.
Gabarito: letra D — prosseguir investigação com exame de imagem.