Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2024

MedicinaClínica Médica Humana
Código
vu082088
Banca
VUNESP
Órgão
EINSTEIN
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clínica Médica
Uma mulher de 65 anos retorna ao consultório de clínica médica para seguimento por doença renal crônica (DRC) e hipertensão arterial. A paciente apresenta uma taxa de filtração glomerular estimada de 28 mL/min/1,73 m² , razão albumina/creatinina urinária isolada de 250 mg/g e potássio sérico de 4,2 mEq/L (sem alteração significativa nos últimos seis meses). Seus sinais vitais são: FC: 78 bpm, FR: 18 irpm, PA: 120 × 84 mmHg. Exame cardíaco e pulmonar sem alterações. Ela está em uso de enalapril 20 mg de 12/12h.Considerando as atuais evidências, assinale a alternativa que apresenta corretamente a conduta que poderia reduzir o risco de progressão da DRC ou de morte cardiovascular.
  1. ATrocar enalapril por clortalidona 25 mg uma vez ao dia.
  2. BAdicionar empagliflozina 10 mg uma vez ao dia.
  3. CAdicionar furosemida 40 mg uma vez ao dia.
  4. DAdicionar losartana 50 mg uma vez ao dia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Adicionar empagliflozina 10 mg uma vez ao dia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Doença Renal Crônica: uso de inibidores de SGLT2

Gabarito: letra B. A paciente tem DRC estágio G4 (TFGe 28 mL/min/1,73 m²) com albuminúria A2 (RAC 250 mg/g), já em uso de IECA (enalapril) — exatamente o perfil em que os inibidores de SGLT2 (empagliflozina, dapagliflozina) demonstraram reduzir a progressão da DRC e a mortalidade cardiovascular, conforme os critérios do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de DRC e as evidências do estudo DAPA-CKD. A alternativa correta é adicionar empagliflozina 10 mg ao dia.

A doença renal crônica (DRC) é definida pela presença de lesão renal ou redução da taxa de filtração glomerular (TFG) por pelo menos 3 meses. A paciente apresenta TFGe de 28 mL/min/1,73 m², o que a classifica no estágio G4 (TFG gravemente diminuída, entre 15 e 29 mL/min/1,73 m²), e RAC de 250 mg/g, que corresponde à categoria A2 (albuminúria moderadamente aumentada, entre 30 e 300 mg/g). Essa combinação (G4A2) coloca a paciente em risco muito alto de progressão da DRC e de complicações cardiovasculares, segundo a estratificação de risco do KDIGO.

O tratamento da DRC visa, entre outros objetivos, retardar a progressão da doença e reduzir o risco cardiovascular. As principais medidas incluem: controle rigoroso da pressão arterial (meta < 130/80 mmHg em pacientes com DRC), uso de medicamentos que bloqueiam o sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECA ou BRA), controle glicêmico e lipídico, e, mais recentemente, o uso de inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT2), como empagliflozina e dapagliflozina.

Os inibidores de SGLT2 emergiram como uma classe de medicamentos com benefícios renais e cardiovasculares comprovados em pacientes com DRC, independentemente da presença de diabetes. O estudo DAPA-CKD, por exemplo, demonstrou que a dapagliflozina reduziu em 39% o risco do desfecho composto de declínio de pelo menos 50% na TFGe, doença renal em estágio terminal ou morte por causas renais ou cardiovasculares (HR 0,61; IC 95% 0,51-0,72; P<0,001), em pacientes com DRC com TFG entre 25 e 75 mL/min/1,73 m² e albuminúria (RAC 200-5000 mg/g), em uso de IECA ou BRA. A empagliflozina, da mesma classe, tem indicação semelhante e é uma opção disponível no SUS.

O PCDT de DRC estabelece critérios para o uso de dapagliflozina: pacientes com DRC, independente da etiologia, em uso de terapia padrão com IECA ou BRA, com TFG entre 25 e 75 mL/min, e que sejam diabéticos tipo 2 ou apresentem RAC maior que 300 mg/g em não diabéticos. A paciente em questão tem TFG de 28 mL/min (dentro da faixa), está em uso de enalapril (IECA) e tem RAC de 250 mg/g. Embora a RAC seja menor que 300 mg/g, a paciente não é diabética, o que, segundo o critério estrito do PCDT, poderia não indicar o uso de dapagliflozina. No entanto, as evidências mais recentes, incluindo o estudo DAPA-CKD, que incluiu pacientes com RAC a partir de 200 mg/g, e as diretrizes atuais, como a Diretriz Brasileira de Hipertensão de 2025, recomendam o uso de inibidores de SGLT2 em pacientes com DRC e albuminúria, mesmo sem diabetes, para reduzir a progressão da doença e o risco cardiovascular. A empagliflozina, por sua vez, tem indicação aprovada para DRC com albuminúria, e a alternativa B é a conduta que se alinha com as evidências atuais.

A pegadinha desta questão está em reconhecer que, apesar de a paciente ter TFG < 30 mL/min/1,73 m² (estágio G4), a conduta não é trocar o IECA por um diurético de alça (furosemida) ou por um tiazídico (clortalidona), nem adicionar outro bloqueador do SRAA (losartana). A paciente já está em uso de enalapril, que é a base do tratamento. A adição de um inibidor de SGLT2 é a medida que demonstrou benefício adicional na redução da progressão da DRC e da mortalidade cardiovascular, mesmo em estágios avançados da doença.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Trocar enalapril por clortalidona 25 mg uma vez ao dia. A clortalidona é um diurético tiazídico, que se torna muito menos efetivo ou inefetivo quando a TFGe é menor que 30 mL/min/1,73 m². Nesse estágio, a recomendação é usar diuréticos de alça (como furosemida) se houver necessidade de diurese, mas não como substituto do IECA. O enalapril é um pilar do tratamento da DRC com albuminúria, pois bloqueia o SRAA e retarda a progressão da doença, e não deve ser trocado por um tiazídico.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Adicionar empagliflozina 10 mg uma vez ao dia. A empagliflozina é um inibidor de SGLT2 que demonstrou reduzir a progressão da DRC e o risco de morte cardiovascular em pacientes com DRC, com ou sem diabetes. A paciente tem DRC G4A2, está em uso de IECA (enalapril), e a adição de empagliflozina é a conduta baseada em evidências para reduzir o risco de progressão da doença e de eventos cardiovasculares. O estudo DAPA-CKD, com dapagliflozina (mesma classe), mostrou benefício significativo em pacientes com TFG entre 25 e 75 mL/min e albuminúria, perfil semelhante ao da paciente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Adicionar furosemida 40 mg uma vez ao dia. A furosemida é um diurético de alça, indicado principalmente para controle de edema ou sobrecarga de volume, e não demonstrou benefício na redução da progressão da DRC ou da mortalidade cardiovascular em pacientes sem congestão. A paciente não apresenta sinais de hipervolemia (exame cardíaco e pulmonar sem alterações), portanto não há indicação de diurético de alça. Além disso, o uso de furosemida pode causar depleção de volume e piora da função renal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Adicionar losartana 50 mg uma vez ao dia. A losartana é um BRA (bloqueador do receptor de angiotensina II), que também bloqueia o SRAA. No entanto, a paciente já está em uso de enalapril (IECA), e a combinação de IECA com BRA não é recomendada na DRC, pois aumenta o risco de hipercalemia, hipotensão e piora da função renal, sem benefício adicional na redução da progressão da doença. A dupla bloqueio do SRAA (IECA + BRA) não é uma estratégia recomendada pelas diretrizes atuais.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/vu082088