Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2024
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu088805
Banca
VUNESP
Órgão
UNICAMP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Endoscopista
Homem de 70 anos de idade, com história de pancreatite aguda há cerca de 2 anos, procurou consultório médico por quadro de dor abdominal intermitente. Realizou ultrassonografia de abdômen que demonstrou uma lesão cística. Foi solicitada ultrassonografia endoscópica, que demonstrou lesão em cabeça do pâncreas, cística septada, de 3 cm de diâmetro, com componente sólido, nódulos intramurais junto ao cisto e ducto pancreático principal com 12 mm. Foram realizadas biópsia e punção aspirativa com agulha fina, ecoguiada. Foi aspirado um líquido viscoso, claro. Os exames bioquímicos do líquido apresentam amilase e marcadores tumorais CEA e CA 19,9 elevados. A histologia revelou células colunares, mucinosas com variável atipia e manchas de fluido positivas para mucina.O diagnóstico da lesão pancreática mais provável nesse paciente é:
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Neoplasias císticas do pâncreas: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra E. O quadro — lesão cística septada na cabeça do pâncreas, com componente sólido e nódulos intramurais, dilatação do ducto pancreático principal (12 mm), líquido viscoso com amilase e CEA/CA 19-9 elevados, e histologia com células colunares mucinosas — é clássico de neoplasia mucinosa papilar intraductal (NMPI), que se origina no epitélio ductal e se comunica com o ducto pancreático. As demais alternativas são lesões císticas com características distintas, e a diferenciação se dá pela combinação de achados de imagem, bioquímica do líquido e histologia.
A neoplasia mucinosa papilar intraductal (NMPI) é um tumor cístico do pâncreas que se origina no epitélio dos ductos pancreáticos, produzindo mucina e formando lesões císticas que se comunicam com o ducto principal ou com ductos secundários. Essa comunicação é a chave do diagnóstico: na ultrassonografia endoscópica, observa-se dilatação do ducto pancreático principal (neste caso, 12 mm, acima do normal), além de cistos septados com nódulos intramurais — que representam o componente papilar do tumor. O líquido aspirado é viscoso, rico em mucina, com amilase elevada (porque se comunica com o ducto) e CEA elevado (marcador de lesões mucinosas). A histologia mostra células colunares mucinosas com atipia variável, confirmando a origem epitelial mucinosa.
O diagnóstico diferencial das lesões císticas do pâncreas é um tema recorrente em provas de gastroenterologia e cirurgia. As principais entidades são: pseudocisto (sequela de pancreatite, sem revestimento epitelial), cistoadenoma seroso (microcístico, com líquido pobre em mucina e CEA baixo), neoplasia cística mucinosa (cisto macrocístico com estroma ovariano, mais comum em mulheres, sem comunicação com o ducto) e tumor de Frantz (neoplasia sólido-pseudopapilar, com características próprias). A NMPI se destaca por sua comunicação com o ducto pancreático e pelo potencial de malignidade, exigindo ressecção cirúrgica na maioria dos casos.
A banca explora a confusão entre as lesões císticas mucinosas: a neoplasia cística mucinosa (NCM) e a NMPI. Ambas são mucinosas e podem ter CEA elevado, mas a NCM não se comunica com o ducto pancreático (ducto normal), ocorre quase exclusivamente em mulheres de meia-idade, e tem estroma ovariano na histologia. A NMPI, por outro lado, é mais comum em homens idosos, comunica-se com o ducto (dilatando-o) e tem predileção pela cabeça do pâncreas. O paciente do caso — homem, 70 anos, lesão na cabeça, ducto dilatado — aponta fortemente para NMPI.
Guarde o critério decisivo: comunicação com o ducto pancreático (presente na NMPI, ausente na NCM) e dilatação ductal (presente na NMPI, ausente na NCM e no cistoadenoma seroso). É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Critério
NMPI (gabarito)
NCM
Cistoadenoma Seroso
Pseudocisto
Tumor de Frantz
Comunicação com ducto pancreático
Presente (dilatação ductal)
Ausente (ducto normal)
Ausente
Ausente
Ausente
Perfil do paciente
Homens idosos
Mulheres meia-idade
Mulheres idosas
Sequela de pancreatite
Mulheres jovens
Líquido aspirado
Viscoso, mucinoso, CEA elevado
Mucinoso, CEA elevado
Seroso, CEA baixo
Claro, amilase alta, CEA baixo
Não mucinoso
Histologia
Células colunares mucinosas
Estroma ovariano
Células cuboides claras
Sem revestimento epitelial
Células sólido-pseudopapilares
Neoplasias císticas do pâncreas
1Comunicação com ducto
NMPI (ducto dilatado)
NCM (ducto normal)
2Líquido aspirado
Mucinoso (CEA alto)
NMPI
NCM
Seroso (CEA baixo)
Cistoadenoma seroso
Amilase alta
Pseudocisto
NMPI
3Histologia
Células colunares mucinosas
NMPI
Estroma ovariano
NCM
Células cuboides claras
Cistoadenoma seroso
Sem revestimento epitelial
Pseudocisto
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O pseudocisto de pâncreas é uma complicação da pancreatite aguda ou crônica, formado por coleção de líquido rico em amilase, sem revestimento epitelial. No caso, o paciente teve pancreatite há 2 anos, o que poderia sugerir pseudocisto, mas a presença de componente sólido, nódulos intramurais, septações e histologia com células mucinosas exclui essa hipótese. O pseudocisto não tem revestimento epitelial, portanto a biópsia não mostraria células colunares mucinosas. Além disso, o CEA elevado e o líquido viscoso são atípicos para pseudocisto (que tem líquido claro, amarelado, com amilase muito alta, mas CEA baixo).
Alternativa B — ❌ Incorreta
O tumor de Frantz (neoplasia sólido-pseudopapilar) é uma lesão rara, mais comum em mulheres jovens, com componente sólido e cístico, mas sem comunicação com o ducto pancreático. O líquido aspirado não é mucinoso, e a histologia mostra células sólidas e pseudopapilares, não células colunares mucinosas. A idade do paciente (70 anos) e o sexo masculino já afastam essa hipótese, que é típica de mulheres na terceira década de vida.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O cistoadenoma seroso é uma lesão cística benigna, geralmente microcística (muitos pequenos cistos), mais comum em mulheres idosas, sem comunicação com o ducto pancreático. O líquido aspirado é seroso, claro, com CEA baixo e amilase normal ou baixa. A histologia mostra células epiteliais cuboides claras, ricas em glicogênio, não células colunares mucinosas. A presença de componente sólido, nódulos intramurais, CEA elevado e ducto dilatado no caso exclui o cistoadenoma seroso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A neoplasia cística mucinosa (NCM) é uma lesão cística mucinosa, geralmente macrocística, com estroma ovariano, quase exclusiva de mulheres de meia-idade, e sem comunicação com o ducto pancreático. No caso, o paciente é homem, 70 anos, e tem dilatação do ducto pancreático principal (12 mm), o que é incompatível com NCM. A NCM não dilata o ducto, pois não se comunica com ele. A histologia da NCM mostra estroma ovariano, que não foi descrito no caso (a histologia mostrou células colunares mucinosas, compatíveis com NMPI).
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A neoplasia mucinosa papilar intraductal (NMPI) é um tumor cístico que se origina no epitélio ductal, produz mucina e se comunica com o ducto pancreático. Os achados do caso são típicos: homem idoso, lesão na cabeça do pâncreas, cística septada com componente sólido e nódulos intramurais, ducto pancreático principal dilatado (12 mm), líquido viscoso com amilase e CEA/CA 19-9 elevados, e histologia com células colunares mucinosas com atipia. A comunicação com o ducto explica a dilatação ductal e a amilase elevada no líquido. O diagnóstico é de NMPI, que tem potencial de malignidade e deve ser tratada com ressecção cirúrgica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir NMPI com neoplasia cística mucinosa (NCM). Ambas são mucinosas e têm CEA elevado, mas a NCM não se comunica com o ducto (ducto normal) e ocorre em mulheres; a NMPI se comunica (ducto dilatado) e é mais comum em homens idosos. O paciente do caso — homem, 70 anos, ducto de 12 mm — fecha o diagnóstico de NMPI. Fique atento a essa troca: a presença de dilatação ductal é o sinal de alerta para NMPI.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as lesões císticas do pâncreas na prova, monte uma tabela mental com: comunicação com o ducto (NMPI sim, NCM não), tipo de líquido (mucinoso na NMPI/NCM, seroso no cistoadenoma), CEA (elevado nas mucinosas, baixo no seroso), e histologia (células colunares mucinosas na NMPI, estroma ovariano na NCM, células cuboides no seroso). Essa tabela resolve a maioria das questões sobre o tema.
Gabarito: letra E — neoplasia mucinosa papilar intraductal.