Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — VUNESP 2024
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
vu088838
Banca
VUNESP
Órgão
UNICAMP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Ginecologista
G.M.A, 32 anos, GII PI 1C A0, DUM desconhecida, deu entrada no pronto-socorro obstétrico com queixa de sangramento em pequena quantidade, além de dor leve em hipogástrio. Ao exame físico: especular: colo uterino sem lesões, evidenciada pequena quantidade de sangue em “borra de café” em conduto vaginal. Ao toque vaginal bimanual: colo uterino impérvio, fundo uterino intrapélvico, anexos não palpáveis. Submetida a ultrassom transvaginal que identificou: saco gestacional intrauterino, DMSG de 15 mm, CCN 3 mm, VV de 4 mm. Não identificados batimentos cardioembrionários.De acordo com o caso, assinale a alternativa que apresenta o diagnóstico mais provável.
AInternação para misoprostol 800 mcg via vaginal.
BInternação para curetagem uterina com cureta fenestrada.
CInternação para aspiração manual intrauterina (AMIU).
DProgesterona via vaginal e programar ultrassom morfológico de primeiro trimestre.
ESolicitar novo ultrassom em 10-14 dias.
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GabaritoE — Solicitar novo ultrassom em 10-14 dias.
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Abortamento de primeiro trimestre: conduta expectante
Gabarito: letra E. O caso descreve uma gestação inicial (CCN 3 mm, sem batimentos cardioembrionários) com sangramento discreto e colo impérvio — quadro compatível com ameaça de abortamento, cuja conduta inicial é expectante, com reavaliação ultrassonográfica em 10–14 dias. A conduta ativa (misoprostol, curetagem ou AMIU) só se justifica no abortamento inevitável ou incompleto, o que não é o caso.
A ameaça de abortamento é definida como sangramento vaginal com colo uterino fechado e concepto viável, sem eliminação de tecidos. É a causa mais comum de sangramento no primeiro trimestre, acometendo cerca de 20% das gestações. O diagnóstico diferencial com o abortamento inevitável é clínico: neste, há dilatação cervical e o sangramento costuma ser mais volumoso, com cólicas intensas. No caso apresentado, o colo está impérvio e o sangramento é em pequena quantidade — elementos que afastam o abortamento inevitável e apontam para a ameaça.
O ultrassom transvaginal é o exame de escolha para avaliar a viabilidade embrionária. Com CCN de 3 mm, a ausência de batimentos cardioembrionários é esperada, pois eles só se tornam visíveis a partir de aproximadamente 5–6 semanas (CCN em torno de 5–7 mm). Por isso, a ausência de BCF nesse estágio não confirma morte embrionária — é necessário repetir o exame em 10–14 dias para verificar a evolução. A presença de saco gestacional intrauterino com DMSG de 15 mm e vesícula vitelina de 4 mm afasta a gestação ectópica, que seria a principal preocupação em caso de saco ausente.
A conduta expectante é a recomendada pela maioria dos protocolos para ameaça de abortamento, com orientação de repouso relativo, abstinência sexual e reavaliação clínica e ultrassonográfica. A progesterona via vaginal pode ser considerada em casos de sangramento recorrente no primeiro trimestre, mas não é a conduta inicial padrão. A internação e a intervenção cirúrgica ou medicamentosa são reservadas para os casos de abortamento inevitável, incompleto ou retido, quando há colo dilatado, eliminação de tecidos ou ausência de viabilidade confirmada.
A pegadinha da questão está em interpretar a ausência de batimentos como morte embrionária e indicar esvaziamento uterino. O candidato deve lembrar que, em gestações muito iniciais, a ausência de BCF é fisiológica e exige reavaliação. O critério para diagnóstico de abortamento retido é a presença de embrião com CCN ≥ 7 mm sem BCF, ou saco gestacional com DMSG ≥ 25 mm sem embrião — nenhum dos quais está presente no caso.
1Avaliar colo (impérvio?)
2USG: viabilidade?
3BCF ausente < 7 mm
4Reavaliar em 10–14 dias
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O misoprostol 800 mcg via vaginal é utilizado para esvaziamento uterino em casos de abortamento inevitável, incompleto ou retido. No caso, o colo está impérvio e não há critérios para abortamento retido (CCN 3 mm, sem BCF esperado). A conduta medicamentosa não é indicada na ameaça de abortamento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A curetagem uterina com cureta fenestrada é um procedimento de esvaziamento uterino indicado no abortamento incompleto ou retido, quando há restos ovulares. No caso, não há evidência de restos e o colo está fechado — a curetagem seria intervenção desnecessária e com riscos (perfuração, sinéquias).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A aspiração manual intrauterina (AMIU) é outra técnica de esvaziamento uterino, indicada nas mesmas situações da curetagem. Não se justifica na ameaça de abortamento, pois não há produto conceptual a ser removido — o saco gestacional está íntegro e o embrião pode ser viável.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A progesterona via vaginal pode ser considerada em casos selecionados de ameaça de abortamento, especialmente em mulheres com histórico de abortamento recorrente. No entanto, não é a conduta inicial padrão para todos os casos, e a programação de ultrassom morfológico de primeiro trimestre não é a reavaliação adequada para verificar a viabilidade embrionária — o exame correto é o ultrassom transvaginal seriado em 10–14 dias.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A conduta expectante com reavaliação ultrassonográfica em 10–14 dias é a recomendada para ameaça de abortamento. Nesse intervalo, espera-se que o embrião cresça e os batimentos cardioembrionários se tornem visíveis, confirmando a viabilidade. Se houver evolução para abortamento inevitável ou retido, a conduta ativa será então indicada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre ameaça de abortamento e abortamento retido. A ausência de BCF com CCN de 3 mm é normal — o batimento só aparece a partir de ~5–7 mm. O candidato que interpreta a ausência como morte embrionária indica esvaziamento (A, B ou C), errando a questão. Lembre-se: colo impérvio + sangramento discreto + embrião pequeno = ameaça, não abortamento.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar os tipos de abortamento, foque em dois critérios: o colo uterino (fechado = ameaça; aberto = inevitável) e a viabilidade embrionária (CCN ≥ 7 mm sem BCF = retido). Monte uma tabela mental com esses parâmetros e aplique a cada caso.