Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — VUNESP 2025
Medicina›Envenenamentos e Acidentes
Código
vu091747
Banca
VUNESP
Órgão
Butantan - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pesquisador Científico I - Área de Especialização: Toxinologia
A resistência evolutiva a venenos em predadores de animais peçonhentos frequentemente envolve alterações em qual nível molecular?
ANas enzimas de degradação do veneno no organismo do predador.
BNa estrutura primária das toxinas do veneno da presa.
CNa estrutura tridimensional dos alvos moleculares das toxinas no predador (por exemplo, receptores nicotínicos ou canais iônicos).
DNos mecanismos de transporte e distribuição do veneno no organismo do predador.
ENa resposta inflamatória desencadeada pelo veneno no predador.
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GabaritoC — Na estrutura tridimensional dos alvos moleculares das toxinas no predador (por exemplo, receptores nicotínicos ou canais iônicos).
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Resistência evolutiva a venenos: alvos moleculares
Gabarito: letra C. A resistência evolutiva a venenos em predadores de animais peçonhentos ocorre, fundamentalmente, por alterações na estrutura tridimensional dos alvos moleculares das toxinas no organismo do predador — como receptores nicotínicos e canais iônicos. Isso porque a toxina exerce seu efeito ao se ligar a esses alvos específicos; se o alvo muda sua conformação, a toxina perde a capacidade de se encaixar e exercer seu efeito tóxico, conferindo resistência ao predador.
A evolução por seleção natural atua sobre a interação entre a toxina e seu alvo molecular. Para que um predador se torne resistente ao veneno de sua presa, é necessário que haja uma alteração no sítio de ligação da toxina — ou seja, no receptor ou canal iônico que a toxina reconhece. Essa alteração pode ser uma mudança na sequência de aminoácidos que resulta em uma conformação tridimensional diferente, impedindo a ligação da toxina. É um exemplo clássico de corrida armamentista evolutiva: a presa evolui toxinas mais potentes, e o predador evolui alvos menos sensíveis a elas.
Para entender por que as outras alternativas estão incorretas, é preciso distinguir os diferentes níveis em que a resistência poderia, teoricamente, ocorrer. A resistência pode envolver: (1) a degradação do veneno (enzimas que o quebram), (2) a estrutura da própria toxina (o que afetaria a presa, não o predador), (3) o transporte e distribuição do veneno, (4) a resposta inflamatória, e (5) o alvo molecular da toxina. A alternativa correta é a que identifica o nível mais direto e eficaz de resistência: a alteração no alvo molecular, pois é aí que a toxina exerce sua ação primária.
A pegadinha desta questão está em confundir os mecanismos de resistência com os mecanismos de defesa ou com alterações na própria toxina. A banca explora a confusão entre o que acontece no predador (resistência) e o que acontece na presa (evolução da toxina). A resistência evolutiva não envolve mudanças na toxina da presa, mas sim mudanças no predador que o tornam insensível a ela. O exemplo mais estudado é o do gambá (Didelphis virginiana) e a cascavel, onde o gambá desenvolveu resistência ao veneno por alterações na estrutura do receptor nicotínico de acetilcolina.
Guarde o critério decisivo: a resistência evolutiva a venenos ocorre quando há alteração no alvo molecular da toxina no predador, não na toxina em si, nem em mecanismos periféricos como degradação ou transporte. É essa distinção que separa a alternativa correta das demais.
Resistência evolutiva a venenos: Nível molecular central (Alteração no alvo da toxina (receptor/canal), Toxina perde o encaixe); Mecanismos periféricos (não centrais) (Degradação enzimática, Transporte/distribuição, Resposta inflamatória); O que NÃO é resistência do predador (Alteração na toxina da presa)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a resistência envolve alterações nas enzimas de degradação do veneno no organismo do predador. Embora a degradação enzimática possa contribuir para a tolerância a venenos, ela não é o mecanismo primário e mais frequente de resistência evolutiva. A resistência evolutiva, como observada em predadores como o gambá e a mangusta, ocorre principalmente por alterações nos alvos moleculares das toxinas, não na capacidade de degradá-las. A degradação é um mecanismo de defesa que pode existir, mas não é o nível molecular central da resistência evolutiva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a resistência envolve alterações na estrutura primária das toxinas do veneno da presa. Isso está incorreto porque a resistência é uma característica do predador, não da presa. Alterações na estrutura primária das toxinas da presa seriam uma evolução da própria presa, não uma resistência do predador. A resistência evolutiva no predador envolve mudanças no seu próprio organismo, especificamente nos alvos moleculares das toxinas.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta afirma que a resistência evolutiva envolve alterações na estrutura tridimensional dos alvos moleculares das toxinas no predador, como receptores nicotínicos ou canais iônicos. Isso está correto porque as toxinas exercem seus efeitos ao se ligarem a alvos específicos no organismo. Se o predador sofre uma mutação que altera a conformação tridimensional desses alvos, a toxina não consegue mais se ligar e exercer seu efeito, conferindo resistência. É o mecanismo mais direto e eficaz de resistência evolutiva, observado em diversos predadores de animais peçonhentos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a resistência envolve alterações nos mecanismos de transporte e distribuição do veneno no organismo do predador. Embora a distribuição do veneno possa influenciar sua toxicidade, não é o nível molecular central da resistência evolutiva. A resistência evolutiva ocorre primariamente na interação toxina-alvo, não nos mecanismos de transporte. Alterações no transporte poderiam reduzir a quantidade de veneno que chega ao alvo, mas não impediriam a ação da toxina se ela chegasse ao alvo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a resistência envolve alterações na resposta inflamatória desencadeada pelo veneno no predador. A resposta inflamatória é uma consequência da ação do veneno, não o mecanismo de resistência em si. A resistência evolutiva ocorre antes, na prevenção da ação da toxina sobre seus alvos moleculares. Alterações na resposta inflamatória poderiam reduzir os danos causados pelo veneno, mas não impediriam a ação tóxica primária. O mecanismo central da resistência é a alteração no alvo molecular, não na resposta inflamatória.