Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — VUNESP 2025
Medicina›Envenenamentos e Acidentes
Código
vu091752
Banca
VUNESP
Órgão
Butantan - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pesquisador Científico I - Área de Especialização: Toxinologia
O que diferencia um acidente crotálico (cascavel) de um botrópico (jararaca)?
ANo acidente crotálico, a dor e o inchaço no local da picada são intensos e imediatos, enquanto no botrópico são discretos e tardios.
BA principal manifestação sistêmica do acidente botrópico é a fácies miastênica, enquanto no crotálico são os distúrbios de coagulação e a insuficiência renal.
CA urina escura (mioglobinúria) é uma manifestação comum e precoce no acidente botrópico, mas raramente observada no crotálico.
DO acidente crotálico frequentemente causa alterações neurológicas como ptose palpebral e visão dupla, o que é incomum no acidente botrópico.
EA presença de edema e sangramento no local da picada é mais marcante no acidente crotálico, enquanto no botrópico predomina o comprometimento neurológico e renal.
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GabaritoD — O acidente crotálico frequentemente causa alterações neurológicas como ptose palpebral e visão dupla, o que é incomum no acidente botrópico.
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Acidentes ofídicos: crotálico × botrópico
Gabarito: letra D. O acidente crotálico (cascavel) caracteriza-se por manifestações neurológicas — como ptose palpebral, visão dupla (diplopia) e turvação visual — decorrentes da ação neurotóxica do veneno, enquanto o acidente botrópico (jararaca) cursa com dor e edema intensos no local da picada e manifestações hemorrágicas, sem comprometimento neurológico. Essa distinção é o núcleo da questão e está diretamente amparada no quadro clínico comparativo dos acidentes ofídicos.
O envenenamento por serpentes peçonhentas no Brasil divide-se em quatro grandes grupos de importância médica: botrópico (jararaca e outras Bothrops), crotálico (cascavel, Crotalus), laquético (surucucu, Lachesis) e elapídico (coral verdadeira, Micrurus). Cada veneno tem composição e efeitos próprios, e é exatamente essa diferença fisiopatológica que determina o quadro clínico e a escolha do soro antiveneno. O acidente botrópico é o mais frequente (cerca de 80–90% dos casos), enquanto o crotálico representa 10–14% — mas é o que apresenta maior letalidade entre os ofídicos.
A ação do veneno botrópico é predominantemente proteolítica, coagulante e hemorrágica. Isso explica por que o quadro local é exuberante: dor, edema, equimose e bolhas surgem precocemente no local da picada, podendo evoluir para necrose, infecção e síndrome compartimental. Sistemicamente, o destaque são as manifestações hemorrágicas (gengivorragia, hematúria, epistaxe) e a possibilidade de insuficiência renal aguda. Não há, nesse acidente, comprometimento neurológico — ponto-chave que a alternativa correta explora.
Já o veneno crotálico tem ação neurotóxica e miotóxica. A neurotoxina age sobre as terminações nervosas, produzindo um quadro paralisante que se manifesta por ptose palpebral, visão dupla (diplopia), turvação visual, anisocoria e diminuição da força muscular, podendo evoluir para insuficiência respiratória. A ação miotóxica causa rabdomiólise, com mialgia, elevação da CK e colúria (urina escura por mioglobinúria), podendo levar à insuficiência renal aguda. No local da picada, ao contrário do botrópico, o edema e a dor são discretos — a infecção local é muito rara.
A tabela abaixo resume o contraste que decide a questão:
Critério
Acidente botrópico (jararaca)
Acidente crotálico (cascavel)
Ação do veneno
Proteolítica, coagulante, hemorrágica
Neurotóxica, miotóxica
Manifestação local
Dor e edema intensos, equimose, bolha
Edema e dor discretos
Manifestação neurológica
Ausente
Ptose palpebral, diplopia, turvação visual
Manifestação sistêmica
Hemorragias, IRA
Mialgia, colúria (rabdomiólise), IRA
Complicação local
Necrose, infecção, síndrome compartimental
Infecção muito rara
A pegadinha central da banca é inverter as características entre os dois acidentes: atribuir ao crotálico o que é típico do botrópico (dor e edema intensos, sangramento local) e vice-versa (manifestações neurológicas). Guarde a fronteira: botrópico = local exuberante + hemorragia; crotálico = local discreto + neurológico/miotóxico. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Acidentes ofídicos
1Botrópico (jararaca)
Ação: proteolítica, coagulante, hemorrágica
Local: dor e edema intensos
Sistêmico: hemorragias, IRA
Sem manifestação neurológica
2Crotálico (cascavel)
Ação: neurotóxica, miotóxica
Local: dor e edema discretos
Sistêmico: ptose, diplopia, colúria
Manifestação neurológica presente
3Elapídico (coral)
Ação: neurotóxica
Fácies miastênica
4Laquético (surucucu)
Similar ao botrópico
Efeitos vagais
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Inverte completamente o quadro local. No acidente crotálico, a dor e o inchaço no local da picada são discretos — o veneno tem pouca ação proteolítica local. Já no botrópico, a dor e o edema são intensos e imediatos, justamente pela ação proteolítica e inflamatória do veneno. A alternativa troca as características de um pelo outro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Atribui ao acidente botrópico a fácies miastênica, que é manifestação típica do acidente elapídico (coral), não do botrópico. E inverte as manifestações sistêmicas: no botrópico o que predomina são os distúrbios de coagulação (com hemorragias) e a insuficiência renal; no crotálico, as manifestações são neurológicas (ptose, diplopia) e miotóxicas (rabdomiólise, colúria). A alternativa mistura os três acidentes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inverte a relação entre mioglobinúria e tipo de acidente. A urina escura (colúria por mioglobinúria) é manifestação típica e precoce do acidente crotálico, decorrente da rabdomiólise pela ação miotóxica do veneno — e não do botrópico. No botrópico, a urina escura não é manifestação característica; o que ocorre é hematúria (sangue na urina) por ação hemorrágica, que é diferente de mioglobinúria.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa espelha com precisão o quadro clínico do acidente crotálico: as alterações neurológicas — ptose palpebral, visão dupla (diplopia), turvação visual, anisocoria e fraqueza muscular — são manifestações frequentes e características desse acidente, decorrentes da ação neurotóxica do veneno da cascavel. No acidente botrópico, essas manifestações são ausentes, pois o veneno tem ação predominantemente proteolítica, coagulante e hemorrágica, sem componente neurotóxico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Inverte novamente as características locais e sistêmicas. O edema e o sangramento no local da picada são marcantes no acidente botrópico (ação proteolítica e hemorrágica), não no crotálico. E o comprometimento neurológico é típico do crotálico, não do botrópico. A alternativa troca os dois acidentes de ponta a ponta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter as características entre os acidentes ofídicos — atribuir ao crotálico o que é do botrópico e vice-versa. O candidato que decora o quadro clínico sem entender a ação do veneno cai fácil. Lembre-se: botrópico = local exuberante (dor, edema, hemorragia); crotálico = local discreto + neurológico (ptose, diplopia) e miotóxico (colúria). Com esse mapa mental, você enxerga as trocas de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, associe cada acidente à ação predominante do veneno: botrópico → proteolítico/hemorrágico (local intenso); crotálico → neurotóxico/miotóxico (local discreto, sintomas sistêmicos neurológicos e urina escura); elapídico → neurotóxico (fácies miastênica, sem lesão local); laquético → similar ao botrópico + efeitos vagais (diarreia, hipotensão, bradicardia). Na prova, leia a alternativa e pergunte: "qual é a ação do veneno desse gênero?" — a resposta vem sozinha.