Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — VUNESP 2025
Medicina›Envenenamentos e Acidentes
Código
vu091758
Banca
VUNESP
Órgão
Butantan - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pesquisador Científico I - Área de Especialização: Toxinologia
Qual dos seguintes sinais clínicos sugere um envenenamento por uma serpente peçonhenta do gênero Micrurus?
ADor intensa e edema progressivo no local da picada.
BPtose palpebral e dificuldade de deglutição.
CLesão necrótica na área da picada.
DPriapismo prolongado.
ESintomas gastrointestinais severos e imediatos.
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GabaritoB — Ptose palpebral e dificuldade de deglutição.
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Gabarito: letra B. O envenenamento por serpentes do gênero Micrurus (coral-verdadeira) é um acidente elapídico, caracterizado por veneno de ação neurotóxica, que cursa com ptose palpebral, diplopia, turvação visual e dificuldade de deglutição — sinais clínicos de bloqueio neuromuscular. Essa é a manifestação clássica que distingue o acidente elapídico dos demais acidentes ofídicos (botrópico, crotálico e laquético), conforme o quadro clínico dos acidentes ofídicos.
O ofidismo é o envenenamento decorrente da inoculação de peçonha por serpentes através do aparelho inoculador (presas). No Brasil, os acidentes são classificados em quatro tipos principais, conforme o gênero da serpente: botrópico (Bothrops), crotálico (Crotalus), laquético (Lachesis) e elapídico (Micrurus). Cada tipo possui um veneno com ação fisiopatológica distinta e, consequentemente, um quadro clínico próprio. O acidente elapídico, causado pela coral-verdadeira, é o menos frequente (cerca de 0,9% dos acidentes), mas o mais grave em termos de toxicidade neurológica.
O veneno elapídico tem ação neurotóxica, atuando na junção neuromuscular e bloqueando a transmissão do impulso nervoso. Isso explica por que os sintomas são predominantemente neurológicos e não locais: não há edema, dor intensa ou necrose no local da picada (que costuma ser discreta, com parestesia local). Os sinais clássicos incluem ptose palpebral, diplopia, turvação visual, anisocoria, diminuição da força muscular, dificuldade de deglutição e insuficiência respiratória — um quadro que pode evoluir para parada respiratória se não tratado precocemente com o soro antielapídico.
A distinção entre os tipos de acidente ofídico é crucial para a escolha do soro antiveneno correto. Enquanto o acidente botrópico (o mais comum, >80%) cursa com intenso acometimento local (edema, dor, equimose, bolhas e necrose) e manifestações hemorrágicas, o acidente crotálico apresenta pouco acometimento local, mas manifestações neurológicas (fácies miastênica, ptose palpebral) e mialgia com colúria (rabdomiólise). O acidente laquético combina manifestações locais com sintomas vagais (náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e hipotensão). Já o elapídico, como visto, é essencialmente neurológico.
A pegadinha desta questão está em associar os sinais clínicos ao tipo errado de acidente. O candidato que memoriza apenas que "coral-verdadeira é peçonhenta" pode confundir os sintomas com os do acidente botrópico (dor e edema local) ou crotálico (também tem ptose). A chave é lembrar que o veneno do Micrurus é neurotóxico, e a ptose palpebral com dificuldade de deglutição é o achado mais característico e específico desse tipo de envenenamento. Guarde essa associação: Micrurus = neurotóxico = ptose palpebral e disfagia.
Tipo de Acidente
Gênero da Serpente
Ação do Veneno
Manifestações Clínicas
Botrópico
Bothrops
Proteolítica, coagulante e hemorrágica
Dor intensa, edema progressivo, equimose, bolhas, necrose local e sangramentos
Crotálico
Crotalus
Neurotóxica e miotóxica
Ptose palpebral, fácies miastênica, mialgia e colúria (rabdomiólise)
Laquético
Lachesis
Proteolítica, coagulante e vagal
Acometimento local + náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e hipotensão
Elapídico
Micrurus
Neurotóxica (bloqueio neuromuscular)
Ptose palpebral, diplopia, disfagia, fraqueza muscular e insuficiência respiratória
Dor intensa e edema progressivo no local da picada são características do acidente botrópico (Bothrops), que tem veneno de ação proteolítica, coagulante e hemorrágica, causando intenso acometimento local. No acidente elapídico, o local da picada costuma apresentar apenas parestesia discreta, sem edema ou dor significativos.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Ptose palpebral e dificuldade de deglutição são manifestações clássicas do acidente elapídico, decorrentes da ação neurotóxica do veneno do Micrurus sobre a junção neuromuscular. Esses sinais fazem parte do quadro de bloqueio neuromuscular que pode evoluir para insuficiência respiratória.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Lesão necrótica na área da picada é complicação típica do acidente botrópico (e, em menor grau, do laquético), devido à ação proteolítica do veneno. No acidente elapídico, a necrose local não é descrita como complicação — o problema é sistêmico e neurológico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Priapismo prolongado não é manifestação descrita no envenenamento por Micrurus. Embora possa ocorrer em outros envenenamentos (como o escorpiônico grave, por ação adrenérgica), não faz parte do quadro clínico do acidente elapídico, que é essencialmente neurológico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Sintomas gastrointestinais severos e imediatos são mais característicos do acidente laquético (Lachesis), que cursa com náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e hipotensão, além de manifestações locais. No acidente elapídico, os sintomas são predominantemente neurológicos, sem destaque para sintomas gastrointestinais imediatos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os tipos de acidente ofídico. O candidato que sabe que a coral-verdadeira é peçonhenta, mas não domina o quadro clínico específico, pode marcar a alternativa A (dor e edema local — típico do botrópico) ou a E (sintomas gastrointestinais — típico do laquético). A palavra-chave é neurotóxico: o veneno do Micrurus age no sistema nervoso, então os sinais são neurológicos (ptose, disfagia, diplopia).
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar os acidentes ofídicos na prova, foque no padrão de acometimento: botrópico = local (edema, dor, necrose) + hemorrágico; crotálico = neurotóxico (ptose, fácies miastênica) + miotóxico (mialgia, colúria); laquético = local + vagal (náuseas, vômitos, diarreia); elapídico = neurotóxico puro (ptose, disfagia, insuficiência respiratória). Memorize: Micrurus = neurotóxico = ptose e disfagia.