Pesquisador Científico I - Área de Especialização: Toxinologia
Qual dos seguintes mecanismos contribui para a ação hemorrágica do veneno de serpentes do gênero Bothrops?
ABloqueio da liberação de acetilcolina.
BDespolarização prolongada da placa motora.
CLigação aos receptores de membrana das células musculares.
DAtividade proteolítica sobre os vasos sanguíneos e alterações na coagulação.
EInibição da enzima conversora de angiotensina (ECA).
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GabaritoD — Atividade proteolítica sobre os vasos sanguíneos e alterações na coagulação.
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Veneno botrópico: mecanismos de ação hemorrágica
Gabarito: letra D. O veneno de serpentes do gênero Bothrops (jararaca, jararacuçu, urutu) tem três ações principais — proteolítica, coagulante e hemorrágica — e é exatamente a combinação de atividade proteolítica sobre os vasos sanguíneos com alterações na coagulação que produz o quadro hemorrágico característico. As demais alternativas descrevem mecanismos de outros venenos ou de fármacos, não do veneno botrópico.
O envenenamento por Bothrops é o acidente ofídico mais comum no Brasil, responsável por cerca de 86% dos casos. O veneno é uma mistura complexa de proteínas, entre as quais se destacam as metaloproteinases (que degradam a matriz extracelular e o endotélio vascular), as serinoproteases (semelhantes à trombina, que ativam a coagulação) e as fosfolipases A2 (envolvidas na reação local e na miotoxicidade). É essa combinação que explica o quadro clínico: a ação proteolítica destrói a parede dos vasos, facilitando o sangramento; a ação coagulante consome fatores de coagulação, fibrinogênio e plaquetas, levando a incoagulabilidade sanguínea; e a ação hemorrágica compromete a integridade do endotélio, permitindo que o sangue extravase.
Na prática, o paciente picado por jararaca apresenta, nas primeiras horas, dor local, edema, eritema e equimose. Nas horas seguintes, podem surgir bolhas, necrose e manifestações hemorrágicas sistêmicas, como gengivorragia, epistaxe, hematúria e hemorragia digestiva. O tempo de coagulação é um exame fundamental para avaliar a gravidade: valores acima de 30 minutos indicam incoagulabilidade e acidente grave, que exige 12 ampolas de soro antibotrópico.
A distinção crucial é entre os mecanismos do veneno botrópico e os de outros acidentes ofídicos. O veneno crotálico (cascavel) tem ação neurotóxica e miotóxica, causando ptose palpebral, visão turva e rabdomiólise. O veneno elapídico (coral-verdadeira) é predominantemente neurotóxico, bloqueando a transmissão neuromuscular e levando a paralisia muscular e insuficiência respiratória. Já o veneno laquético (surucucu) combina ações semelhantes ao botrópico com manifestações vagais, como náuseas, vômitos e hipotensão.
A pegadinha da banca está em oferecer alternativas que descrevem mecanismos de ação de outros venenos ou de fármacos. As alternativas A, B e C referem-se à ação neurotóxica de venenos como o de corais e cascavéis, ou de toxinas botulínicas. A alternativa E descreve o mecanismo de ação dos inibidores da ECA, uma classe de anti-hipertensivos. A alternativa D é a única que descreve corretamente os mecanismos do veneno botrópico: atividade proteolítica sobre os vasos e alterações na coagulação.
Guarde a tríade de ações do veneno botrópico — proteolítica, coagulante e hemorrágica — e associe cada uma ao seu efeito clínico: a proteolítica causa a lesão local e a destruição vascular; a coagulante consome os fatores e causa incoagulabilidade; a hemorrágica compromete o endotélio e permite o sangramento. É essa combinação que a alternativa D descreve.
Veneno botrópico
1Ações principais
Proteolítica
Degrada matriz extracelular
Destrói endotélio vascular
Coagulante
Consome fatores de coagulação
Consome fibrinogênio e plaquetas
Hemorrágica
Compromete integridade do endotélio
Permite extravasamento de sangue
2Quadro clínico
Local: dor, edema, equimose
Sistêmico: gengivorragia, epistaxe, hematúria
3Outros venenos (comparação)
Crotálico: neurotóxico e miotóxico
Elapídico: neurotóxico
Laquético: proteolítico + vagal
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O bloqueio da liberação de acetilcolina é um mecanismo de ação de toxinas como a toxina botulínica e de venenos de serpentes elapídicas (corais), que causam paralisia muscular flácida. Não é um mecanismo do veneno botrópico, cuja ação é predominantemente proteolítica, coagulante e hemorrágica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A despolarização prolongada da placa motora é um mecanismo de ação de venenos que contêm toxinas que atuam nos canais de sódio ou nos receptores de acetilcolina, como o veneno de algumas serpentes e de escorpiões. Não é um mecanismo do veneno botrópico, que não tem ação neurotóxica significativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A ligação aos receptores de membrana das células musculares é um mecanismo de ação de toxinas que bloqueiam a transmissão neuromuscular, como as alfa-neurotoxinas presentes no veneno de corais. Não é um mecanismo do veneno botrópico, cuja ação é local e sistêmica, mas não neurotóxica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O veneno botrópico tem ação proteolítica, que degrada a matriz extracelular e o endotélio vascular, e ação coagulante, que ativa fatores de coagulação com consumo de fibrinogênio e plaquetas. A combinação dessas ações compromete a integridade dos vasos e a hemostasia, resultando em hemorragia. É exatamente isso que a alternativa descreve: atividade proteolítica sobre os vasos sanguíneos e alterações na coagulação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A inibição da enzima conversora de angiotensina (ECA) é o mecanismo de ação dos fármacos anti-hipertensivos da classe dos inibidores da ECA, como o captopril e o enalapril. Não tem relação com o veneno botrópico, que não interfere no sistema renina-angiotensina-aldosterona.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura mecanismos de ação de outros venenos e de fármacos para confundir. As alternativas A, B e C descrevem ações neurotóxicas de venenos de corais e cascavéis, e a alternativa E descreve o mecanismo de ação de anti-hipertensivos. A única que descreve corretamente o veneno botrópico é a D. Na prova, lembre-se da tríade: proteolítica, coagulante e hemorrágica.
PEGA ESSA DICA!
Para acidentes ofídicos, monte uma tabela mental com os quatro tipos: botrópico (proteolítica, coagulante, hemorrágica), crotálico (neurotóxica, miotóxica, coagulante), laquético (proteolítica, coagulante, hemorrágica + vagal) e elapídico (neurotóxica). Associe cada ação ao quadro clínico: neurotóxica → ptose, visão turva, paralisia; miotóxica → mialgia, rabdomiólise, urina escura; hemorrágica → gengivorragia, epistaxe, hematúria.