Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu092699
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Cirurgia Geral
Um cirurgião está realizando uma anastomose término-terminal em um paciente submetido à ressecção de um segmento do intestino delgado por isquemia mesentérica. Ele decide utilizar uma sutura contínua para a coaptação das bordas intestinais, considerando a resistência da linha de sutura e o risco de deiscência.Qual dos fatores a seguir é mais importante para garantir a segurança da sutura contínua em anastomoses intestinais?
AUtilização de fio multifilamentar inabsorvível para maior resistência a longo prazo.
BAplicação de alta tensão na sutura para evitar extravasamento de conteúdo luminal.
CUso de fio inabsorvível (polipropileno) ou absorvível (polidioxanona) monofilamentar para reduzir a resposta inflamatória e o risco de fístula.
DRealização de nó em cada ponto de passagem do fio para reforçar a coesão das bordas.
EFechamento contínuo apenas da camada serosa para minimizar a formação de aderências intra-abdominais.
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GabaritoC — Uso de fio inabsorvível (polipropileno) ou absorvível (polidioxanona) monofilamentar para reduzir a resposta inflamatória e o risco de fístula.
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Anastomoses intestinais: princípios da sutura contínua
Gabarito: letra C. Em anastomoses intestinais término-terminais, a escolha do fio é o fator mais crítico para a segurança da sutura contínua: fios monofilamentares, sejam inabsorvíveis (polipropileno) ou absorvíveis (polidioxanona), reduzem a resposta inflamatória e o risco de fístula, pois não possuem capilaridade e não abrigam bactérias em sua estrutura. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre o material, a tensão aplicada, a técnica de ancoragem ou a camada suturada.
A anastomose intestinal é o ponto de maior vulnerabilidade após uma ressecção, e a deiscência — a falha de cicatrização da linha de sutura — é a complicação mais temida, pois leva a fístula, peritonite e sepse. A escolha do fio cirúrgico é um dos pilares dessa segurança. Fios multifilamentares (trançados) possuem microporosidades que permitem a capilaridade de fluidos e bactérias, aumentando o risco de infecção e de fístula. Já os fios monofilamentares, como o polipropileno (Prolene) e a polidioxanona (PDS), têm superfície lisa, não apresentam capilaridade e provocam menor reação tecidual, o que é decisivo em um ambiente contaminado como o intestino.
A tensão aplicada na sutura também é um ponto de equilíbrio delicado. Apertar demais o fio pode causar isquemia das bordas, comprometendo a cicatrização e favorecendo a deiscência; apertar de menos pode deixar espaços que extravasam conteúdo luminal. A técnica correta busca uma coaptação justa, sem estrangulamento. Além disso, a sutura contínua distribui a tensão ao longo de toda a linha, o que é uma vantagem, mas exige que o fio seja mantido com tensão uniforme durante toda a anastomose.
A escolha entre fio absorvível e inabsorvível depende da preferência do cirurgião e do contexto clínico. A polidioxanona (PDS) é um fio absorvível monofilamentar que mantém sua resistência por tempo suficiente para a cicatrização intestinal (cerca de 4 a 6 semanas), sendo amplamente utilizado. O polipropileno (Prolene) é inabsorvível e também monofilamentar, oferecendo resistência permanente. Ambos são opções válidas e seguras, e a alternativa C corretamente reconhece que a característica comum e mais importante é o fato de serem monofilamentares, reduzindo a resposta inflamatória e o risco de fístula.
A pegadinha da banca está em explorar conceitos que parecem plausíveis, mas são tecnicamente incorretos: usar fio multifilamentar inabsorvível (que aumenta o risco de infecção), aplicar alta tensão (que causa isquemia), dar nós em cada ponto (que transforma a sutura contínua em interrompida, perdendo suas vantagens) ou fechar apenas a serosa (que não garante a coaptação completa das camadas). O critério decisivo para separar as alternativas é o conhecimento das propriedades físicas e biológicas dos fios cirúrgicos e seu impacto na cicatrização.
Sutura contínua em anastomose intestinal: Fio ideal (Monofilamentar (PDS ou polipropileno), Multifilamentar (capilaridade → infecção)); Tensão (Justa, sem estrangulamento, Alta tensão → isquemia); Camadas (Todas as camadas (inclui submucosa), Só serosa → deiscência); Técnica (Contínua (distribui tensão), Nó em cada ponto (vira interrompida))
Alternativa A — ❌ Incorreta
O erro está em associar fio multifilamentar inabsorvível à maior resistência a longo prazo. Embora fios inabsorvíveis ofereçam resistência permanente, a característica multifilamentar (trançada) é uma desvantagem em anastomoses intestinais: as microporosidades do fio permitem a capilaridade de bactérias e fluidos, aumentando o risco de infecção e fístula. A resistência a longo prazo não é o fator mais importante para a segurança da sutura contínua; a baixa reação tecidual e a ausência de capilaridade são.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Aplicar alta tensão na sutura é um erro técnico grave. A tensão excessiva comprime as bordas intestinais, comprometendo a vascularização local e causando isquemia, o que prejudica a cicatrização e aumenta o risco de deiscência. A sutura deve ser justa o suficiente para coaptar as bordas sem extravasamento, mas sem estrangulamento. A tensão ideal é aquela que aproxima os tecidos sem comprometer o fluxo sanguíneo.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa identifica corretamente o fator mais importante: o uso de fio monofilamentar, seja inabsorvível (polipropileno) ou absorvível (polidioxanona). Fios monofilamentares têm superfície lisa, não apresentam capilaridade e provocam menor resposta inflamatória, reduzindo o risco de fístula. Essa é a característica que mais contribui para a segurança da sutura contínua em anastomoses intestinais, pois minimiza a reação tecidual e a contaminação bacteriana ao longo da linha de sutura.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Realizar um nó em cada ponto de passagem do fio transformaria a sutura contínua em uma sutura interrompida. Isso anularia a principal vantagem da sutura contínua, que é a distribuição uniforme da tensão ao longo de toda a linha, além de aumentar o tempo cirúrgico e a quantidade de material estranho no tecido. A sutura contínua é ancorada apenas no início e no final, com nós únicos, e é exatamente essa característica que a torna eficiente e segura quando bem executada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Fechar apenas a camada serosa não garante a coaptação completa das bordas intestinais. A anastomose término-terminal exige a aproximação de todas as camadas da parede intestinal (mucosa, submucosa, muscular e serosa) para garantir a cicatrização adequada e evitar extravasamento. A sutura em camada única ou dupla deve incluir a submucosa, que é a camada de maior resistência à tração. Fechar apenas a serosa deixaria as camadas internas sem coaptação, levando a deiscência e fístula.
A regra de ouro para a prova: em anastomoses intestinais, a segurança da sutura contínua depende de fio monofilamentar (absorvível ou inabsorvível), tensão justa sem estrangulamento, e coaptação de todas as camadas da parede intestinal. Esses três princípios são inseparáveis e qualquer alternativa que os viole está incorreta.