Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu092720
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Cirurgia Torácica
Paciente 35 anos, feminina, vítima de ferimento por projétil de arma de fogo transfixante de mediastino posterior, com fratura parcial de corpo vertebral de T5. Submetida à drenagem pleural bilateral na admissão. Dreno no hemitórax esquerdo retirado no 5º dia pós-trauma, mantido dreno em hemitórax direito. Após 7 dias, nota-se aumento do débito do dreno, com saída de líquido turvo, com aumento de 150 mL do volume drenado diariamente. Últimas 24 horas = 650 mL, líquido esbranquiçado. Bom estado geral. Após quinze dias do início do quadro, a análise do líquido demonstra exsudato com predomínio de linfócitos (90%).O diagnóstico e a conduta serão, respectivamente:
Aempiema pleural por hematoma infectado; videotoracoscopia e limpeza da cavidade.
Bquilotórax por lesão do ducto torácico; videotoracoscopia e ligadura dos cotos lesados do ducto torácico.
Cempiema por lesão tardia de esôfago (térmica); esofagostomia torácica videoassistida.
Dnecrose de parênquima pulmonar infectado; segmentectomia pulmonar não regrada.
Eempiema quiloso por lesão do ducto linfático; tratamento conservador com dieta hipogordurosa e com triglicerídeos de cadeia média.
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GabaritoB — quilotórax por lesão do ducto torácico; videotoracoscopia e ligadura dos cotos lesados do ducto torácico.
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Quilotórax pós-traumático: diagnóstico e conduta
Gabarito: letra B. O quadro é de quilotórax por lesão do ducto torácico, complicação clássica de ferimento transfixante de mediastino posterior (trajeto do ducto, que cruza a coluna em T5), e a conduta indicada é a videotoracoscopia com ligadura dos cotos lesados — o tratamento definitivo quando há débito elevado e persistente. O diagnóstico se ancora na tríade: líquido pleural esbranquiçado/leitoso, exsudato com predomínio linfocitário (90%) e aumento progressivo do débito (>500 mL/24h), somado ao mecanismo de trauma compatível.
O quilotórax é o acúmulo de linfa (quilo) no espaço pleural, consequência de lesão do ducto torácico ou de seus tributários. O ducto torácico é a principal via de retorno da linfa — origina-se na cisterna do quilo (abdome), ascende pelo mediastino posterior à direita da coluna vertebral, cruza para o lado esquerdo aproximadamente ao nível de T5 (exatamente o nível da fratura vertebral da paciente) e desemboca na junção das veias subclávia e jugular interna esquerdas. Por isso, ferimentos transfixantes do mediastino posterior — como o do caso — têm alto risco de lesar essa estrutura.
O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial. O líquido drenado tem aspecto leitoso/esbranquiçado, e a análise bioquímica revela exsudato (proteínas > 3 g/dL, LDH elevado) com predomínio de linfócitos — o quilo é rico em linfócitos (predominantemente T) e triglicerídeos. Na prática, o critério mais usado é a dosagem de triglicerídeos no líquido pleural: valores acima de 110 mg/dL tornam o diagnóstico muito provável; abaixo de 50 mg/dL, improvável. A confirmação definitiva pode ser feita pela presença de quilomícrons na eletroforese de lipoproteínas do líquido.
A conduta depende do volume e da persistência do débito. O manejo inicial é conservador: drenagem pleural para alívio sintomático, dieta pobre em gordura de cadeia longa (ou jejum com nutrição parenteral) e reposição de perdas — a linfa é rica em proteínas, linfócitos e eletrólitos, e sua perda prolongada causa desnutrição e imunossupressão. Porém, quando o débito é alto (> 500 mL/dia) ou persistente (> 5–7 dias), o tratamento conservador tem alta taxa de falha, e a abordagem cirúrgica está indicada — sendo a videotoracoscopia com ligadura dos cotos do ducto o procedimento de escolha na maioria dos casos, por ser menos invasiva que a toracotomia. No caso, o débito de 650 mL/24h após 15 dias de evolução configura indicação cirúrgica clara.
A pegadinha central desta questão é a confusão entre quilotórax e empiema — ambos podem cursar com líquido turvo/esbranquiçado e aumento do débito. O que separa os dois é a análise do líquido: o empiema é um exsudato purulento, com predomínio de neutrófilos e cultura positiva; o quilotórax é um exsudato linfocitário, com aspecto leitoso e triglicerídeos elevados. A alternativa E tenta explorar exatamente essa confusão, propondo tratamento conservador para um caso que já tem indicação cirúrgica. Guarde a fronteira: líquido leitoso + linfócitos + trauma de mediastino posterior = quilotórax; líquido purulento + neutrófilos + febre = empiema.
Drenagem + antibióticos; VATS se fase fibrinopurulenta
Alternativa A — ❌ Incorreta
O diagnóstico de empiema por hematoma infectado não se sustenta: o líquido é esbranquiçado/leitoso e o exsudato tem predomínio de linfócitos (90%) — no empiema, o líquido é purulento e o predomínio celular é de neutrófilos, com cultura bacteriana positiva e, tipicamente, febre e sinais infecciosos. A conduta proposta (videotoracoscopia e limpeza) seria adequada para um empiema em fase fibrinopurulenta, mas não para o quadro apresentado.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico de quilotórax por lesão do ducto torácico é o que melhor explica o quadro: trauma transfixante de mediastino posterior (trajeto anatômico do ducto), líquido pleural esbranquiçado/leitoso, exsudato com predomínio linfocitário (90%) e débito crescente e elevado (650 mL/24h). A conduta indicada é a videotoracoscopia com ligadura dos cotos lesados do ducto torácico — o tratamento cirúrgico definitivo para quilotórax com débito alto e persistente, refratário ao manejo conservador.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A lesão esofágica tardia (perfuração/ruptura) pode cursar com derrame pleural, mas o líquido seria purulento ou com conteúdo alimentar, com predomínio de neutrófilos e sinais de mediastinite — não um exsudato linfocitário leitoso. Além disso, a conduta proposta (esofagostomia torácica videoassistida) não é o tratamento padrão para lesão esofágica, que envolve drenagem, antibióticos e, quando necessário, reparo cirúrgico primário. Não há no caso elementos que apontem para lesão esofágica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A necrose de parênquima pulmonar infectado (gangrena pulmonar) cursaria com expectoração fétida, febre, sepse e líquido pleural purulento com predomínio neutrofílico — não com exsudato linfocitário leitoso. A conduta proposta (segmentectomia não regrada) é uma ressecção pulmonar, indicada em casos selecionados de necrose/abscesso, mas não se aplica ao quadro, que é de lesão do ducto torácico, não do parênquima.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa acerta ao reconhecer a lesão do ducto linfático (quilotórax), mas erra na conduta: propõe tratamento conservador (dieta hipogordurosa e TCM) para um caso com débito de 650 mL/24h persistente por 15 dias — exatamente o cenário em que o conservadorismo tem alta taxa de falha e a cirurgia está indicada. O termo "empiema quiloso" também é impreciso: não há infecção associada (o líquido é linfocitário, não purulento). O tratamento conservador seria a primeira etapa em débitos baixos (< 500 mL/dia) ou em resolução, não neste caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre quilotórax e empiema — ambos podem ter líquido turvo/esbranquiçado e aumento do débito. O que decide é a análise do líquido: no quilotórax, exsudato linfocitário e leitoso (triglicerídeos elevados); no empiema, exsudato neutrofílico e purulento, com febre e cultura positiva. A alternativa E ainda tenta "dourar a pílula" oferecendo tratamento conservador para um caso que já tem indicação cirúrgica clara (débito > 500 mL/dia persistente). Com treino, você enxerga essa troca de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o raciocínio em cascata: (1) aspecto do líquido (leitoso = quilo; purulento = empiema); (2) celularidade (linfócitos = quilo; neutrófilos = infecção); (3) mecanismo (trauma de mediastino posterior = ducto torácico); (4) débito (> 500 mL/dia ou persistência > 5–7 dias = cirurgia). Essa sequência resolve a maioria das questões de derrame pleural pós-traumático.