Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu092777
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Cirurgia de Cabeça e Pescoço
Assinale a alternativa correta com relação às particularidades cirúrgicas e complicações da tireoidectomia em pacientes com bócio mergulhante, e em pacientes com bócio tóxico.
ANo bócio mergulhante, a síndrome de Horner é uma possível complicação da tireoidectomia como resultado da proximidade entre o componente mediastinal glandular e o gânglio estrelado, situado em topografia de transição cérvico-torácica e próximo à bainha carotídea.
BO bócio tóxico está associado à hiperplasia das glândulas paratireoides, reduzindo o risco de hipocalcemia pós-operatória.
CO risco de lesão dos nervos laríngeos inferiores é reduzido nos casos de bócios volumosos e mergulhantes, uma vez que a glândula “empurra” as estruturas neurais para além do sulco traqueoesofágico, tornando-os mais evidentes à inspeção operatória.
DO emprego de tionaminas e betabloqueadores no controle clínico do hipertireoidismo não é, normalmente, suficiente para a prevenção da crise tireotóxica no pós-operatório imediato da tireoidectomia por bócio tóxico.
ENo bócio tóxico de longa evolução, a hiperplasia vascular eleva o risco de fístula arteriovenosa intraoperatória com risco de embolização paradoxal sistêmica.
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GabaritoA — No bócio mergulhante, a síndrome de Horner é uma possível complicação da tireoidectomia como resultado da proximidade entre o componente mediastinal glandular e o gânglio estrelado, situado em topografia de transição cérvico-torácica e próximo à bainha carotídea.
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Tireoidectomia: particularidades do bócio mergulhante e do bócio tóxico
Gabarito: letra A. No bócio mergulhante, a síndrome de Horner é uma complicação reconhecida da tireoidectomia, decorrente da lesão do gânglio estrelado, que se situa na transição cérvico-torácica, próximo à bainha carotídea e ao componente mediastinal da glândula. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre a fisiopatologia e o manejo do bócio tóxico e das complicações cirúrgicas.
A tireoidectomia é uma cirurgia de cabeça e pescoço com complicações bem definidas, e o conhecimento das particularidades anatômicas e funcionais de cada tipo de bócio é essencial para o cirurgião. O bócio mergulhante, também chamado de bócio subesternal ou mediastinal, ocorre quando a glândula tireoide se estende para o mediastino, podendo causar sintomas compressivos como disfagia, dispneia e rouquidão. Essa extensão para o tórax aproxima a glândula de estruturas nobres do mediastino superior, como o gânglio estrelado, que faz parte da cadeia simpática cervical, e a bainha carotídea, que contém a artéria carótida comum, a veia jugular interna e o nervo vago. A lesão do gânglio estrelado durante a dissecção cirúrgica, seja por tração, cauterização ou secção, resulta na síndrome de Horner, caracterizada pela tríade clássica: miose (constrição pupilar), ptose palpebral (queda da pálpebra superior) e anidrose facial (ausência de sudorese no lado afetado). Essa complicação, embora não seja a mais frequente, é uma preocupação real no bócio mergulhante, pois a glândula pode estar aderida ou muito próxima a essas estruturas, dificultando a identificação e a preservação do gânglio.
Por outro lado, o bócio tóxico, que inclui a doença de Graves, o bócio multinodular tóxico e o adenoma tóxico, apresenta desafios diferentes. O estado de hipertireoidismo aumenta o risco cardiovascular e metabólico, e o preparo pré-operatório com tionamidas (como o metimazol ou propiltiouracil) e betabloqueadores (como o propranolol) é fundamental para controlar os sintomas e prevenir a crise tireotóxica, também conhecida como tempestade tireoidiana. A crise tireotóxica é uma emergência médica caracterizada por febre alta, taquicardia extrema, agitação, delirium e insuficiência cardíaca, e pode ser desencadeada pelo estresse cirúrgico. O preparo adequado com tionamidas, que reduzem a síntese de novos hormônios, e betabloqueadores, que bloqueiam os efeitos periféricos dos hormônios tireoidianos, é geralmente suficiente para prevenir essa complicação no pós-operatório imediato, desde que o paciente esteja eutireoideo no momento da cirurgia. A alternativa D, portanto, está incorreta ao afirmar que esse preparo não é suficiente, pois, na prática clínica, ele é a base da prevenção.
Outra complicação importante da tireoidectomia é a hipocalcemia, resultante de hipoparatireoidismo, que ocorre quando as glândulas paratireoides são lesadas, removidas ou têm sua vascularização comprometida durante a cirurgia. O risco de hipocalcemia está diretamente relacionado à extensão da ressecção e à manipulação das paratireoides, sendo mais frequente em tireoidectomias totais. No bócio tóxico, não há hiperplasia das paratireoides; pelo contrário, a doença de Graves pode estar associada a outras doenças autoimunes, mas não a um aumento do número ou da função das paratireoides. A alternativa B, que afirma que o bócio tóxico reduz o risco de hipocalcemia por hiperplasia das paratireoides, é um erro conceitual grave, pois a hiperplasia das paratireoides não é uma característica do bócio tóxico e não reduziria o risco de hipocalcemia, mas sim o aumentaria.
A lesão dos nervos laríngeos inferiores (nervos laríngeos recorrentes) é uma das complicações mais temidas da tireoidectomia, pois pode causar paralisia de corda vocal, disfonia e, em casos bilaterais, insuficiência respiratória. O risco de lesão é maior em bócios volumosos, mergulhantes e em casos de tireoidite, devido à distorção anatômica e à aderência da glândula aos tecidos adjacentes. A alternativa C afirma que o risco é reduzido nesses casos, o que é incorreto. Na verdade, o risco é aumentado, pois a glândula volumosa pode deslocar o nervo de sua posição habitual no sulco traqueoesofágico, tornando sua identificação mais difícil, e não mais evidente como afirma a alternativa. A dissecção cuidadosa e a identificação do nervo são essenciais para evitar essa complicação.
Por fim, a alternativa E menciona a hiperplasia vascular e o risco de fístula arteriovenosa intraoperatória com embolização paradoxal sistêmica. Embora o bócio tóxico seja uma glândula hipervascularizada, com aumento do fluxo sanguíneo, a formação de fístula arteriovenosa intraoperatória é uma complicação extremamente rara e não é uma preocupação clássica ou bem documentada na literatura. A embolização paradoxal sistêmica, que ocorre quando um êmbolo passa de uma circulação venosa para a arterial através de um defeito cardíaco (como um forame oval patente), não é uma complicação descrita como relevante na tireoidectomia por bócio tóxico. A alternativa, portanto, apresenta um risco teórico e não fundamentado, sendo incorreta.
A questão explora o conhecimento das complicações específicas de cada tipo de bócio, exigindo do candidato a compreensão da anatomia cirúrgica e da fisiopatologia das doenças tireoidianas. A alternativa A é a única que descreve corretamente uma complicação real e bem fundamentada, relacionando a anatomia do bócio mergulhante com a lesão do gânglio estrelado e a síndrome de Horner. As demais alternativas apresentam erros conceituais, inversões de risco ou complicações não documentadas, demonstrando a importância de um estudo aprofundado e baseado em evidências.
Critério
Bócio Mergulhante
Bócio Tóxico
Complicação clássica
Síndrome de Horner (lesão do gânglio estrelado)
Crise tireotóxica (se não preparado)
Risco de lesão do nervo laríngeo inferior
Aumentado (distorção anatômica)
Aumentado (hipervascularização)
Risco de hipocalcemia
Relacionado à manipulação das paratireoides
Relacionado à manipulação das paratireoides (sem hiperplasia associada)
Preparo pré-operatório
Não específico (abordagem cirúrgica da extensão mediastinal)
Tionamidas + betabloqueadores (essencial)
Bócio mergulhante
1Anatomia de risco
Gânglio estrelado (transição cérvico-torácica)
Próximo à bainha carotídea
2Complicação
Síndrome de Horner (miose, ptose, anidrose)
3Bócio tóxico
Preparo pré-operatório
Tionamidas (reduzem síntese hormonal)
Betabloqueadores (bloqueiam efeitos periféricos)
Previne crise tireotóxica
Riscos reais
Hipocalcemia (lesão de paratireoides)
Lesão de nervo laríngeo recorrente
aumentada em bócios volumosos
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente a síndrome de Horner como uma complicação possível da tireoidectomia no bócio mergulhante. O gânglio estrelado, que é a fusão do gânglio cervical inferior com o primeiro gânglio torácico, está localizado na transição cérvico-torácica, atrás da artéria subclávia e próximo à bainha carotídea. Quando o bócio se estende para o mediastino, a glândula pode ficar em contato íntimo com essa estrutura, e a dissecção cirúrgica pode lesá-la, resultando na síndrome de Horner (miose, ptose e anidrose). A alternativa está correta ao apontar essa relação anatômica e a complicação resultante.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o bócio tóxico está associado à hiperplasia das glândulas paratireoides, o que é falso. O bócio tóxico é uma condição da tireoide, e não das paratireoides. A hiperplasia das paratireoides está associada ao hiperparatireoidismo, não ao hipertireoidismo. Além disso, a hiperplasia das paratireoides, se presente, aumentaria o risco de hipercalcemia, e não reduziria o risco de hipocalcemia pós-operatória. O risco de hipocalcemia na tireoidectomia está relacionado à lesão ou remoção acidental das paratireoides, e não à sua hiperplasia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa inverte a realidade do risco cirúrgico. Em bócios volumosos e mergulhantes, o risco de lesão dos nervos laríngeos inferiores é aumentado, e não reduzido. A glândula aumentada pode deslocar o nervo de sua posição habitual, tornando sua identificação mais difícil e aumentando o risco de lesão. A afirmação de que a glândula "empurra" as estruturas neurais para além do sulco traqueoesofágico, tornando-as mais evidentes, é incorreta. Na prática, a distorção anatômica dificulta a cirurgia e exige maior habilidade do cirurgião.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o emprego de tionamidas e betabloqueadores não é suficiente para prevenir a crise tireotóxica no pós-operatório. Isso é incorreto. O preparo clínico adequado com tionamidas (que reduzem a síntese de hormônios tireoidianos) e betabloqueadores (que bloqueiam os efeitos periféricos) é a base da prevenção da crise tireotóxica. Quando o paciente é operado em estado eutireoideo, o risco de crise tireotóxica é significativamente reduzido. A alternativa D está, portanto, errada ao afirmar que esse preparo não é suficiente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa menciona a hiperplasia vascular e o risco de fístula arteriovenosa intraoperatória com embolização paradoxal sistêmica. Embora o bócio tóxico seja hipervascularizado, a formação de fístula arteriovenosa intraoperatória é uma complicação extremamente rara e não é uma preocupação clássica ou bem documentada na literatura. A embolização paradoxal sistêmica, que ocorre quando um êmbolo passa de uma circulação venosa para a arterial através de um defeito cardíaco, não é uma complicação descrita como relevante na tireoidectomia por bócio tóxico. A alternativa, portanto, apresenta um risco teórico e não fundamentado, sendo incorreta.