Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
vu092778
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Cirurgia de Cabeça e Pescoço
Mulher, 62 anos, apresenta diagnóstico de hipercalcemia (11,5 mg/dL, referência laboratorial 8,5 a 10,5 mg/dL) e elevação do PTH sérico (136 pg/mL, referência laboratorial 10 a 65 pg/mL) em check-up. A dosagem de vitamina D está dentro do desejado para a idade, bem como sua função renal. Pratica musculação 3 x semana, regulamente, e não há antecedentes de nefrolitíase ou fraturas patológicas. A densitometria óssea conta com um T-score -2,5 em coluna lombar, -1,9 em fêmur e -2,3 em rádio distal.Com base nas informações expostas, qual a melhor conduta?
AAdministração de cinacalcete para redução dos níveis séricos de cálcio e PTH.
BTratamento com bifosfonatos para controle da perda óssea e seguimento laboratorial do hiperparatireoidismo.
CDefinição da conduta após dosagem de cálcio em urina de 24 horas.
DSolicitação de ultrassonografia cervical e/ou cintilografia com sestamibi, para localização de provável lesão, e programação cirúrgica.
EObservação clínica, pois a paciente é assintomática e conta com mais de 60 anos.
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GabaritoD — Solicitação de ultrassonografia cervical e/ou cintilografia com sestamibi, para localização de provável lesão, e programação cirúrgica.
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Hiperparatireoidismo primário: conduta na hipercalcemia assintomática
Gabarito: letra D. A paciente tem hipercalcemia com PTH elevado — o padrão bioquímico do hiperparatireoidismo primário — e, embora assintomática, apresenta osteoporose em coluna lombar (T-score -2,5), o que é indicação formal de paratireoidectomia. A conduta correta é localizar a lesão (ultrassonografia cervical e/ou cintilografia com sestamibi) e programar a cirurgia. A alternativa D é a única que contempla essa sequência completa.
O hiperparatireoidismo primário (HPTP) é a causa mais comum de hipercalcemia em pacientes ambulatoriais. A fisiopatologia envolve um adenoma (80% dos casos), hiperplasia (15-20%) ou, raramente, carcinoma (<0,5%) das paratireoides, que leva a uma secreção autônoma de PTH, com perda do mecanismo de feedback negativo do cálcio. O PTH elevado age em três alvos principais: no osso, aumenta a atividade osteoclástica e a reabsorção óssea; no rim, aumenta a reabsorção tubular distal de cálcio e a excreção de fósforo; e, indiretamente, via ativação da vitamina D, aumenta a absorção intestinal de cálcio. O resultado é a hipercalcemia persistente, que pode cursar com nefrolitíase, osteoporose, sintomas gastrointestinais e alterações neurológicas.
O diagnóstico é essencialmente laboratorial: hipercalcemia (cálcio total > 10,5 mg/dL) com PTH elevado ou inapropriadamente normal. Na paciente, o cálcio de 11,5 mg/dL e o PTH de 136 pg/mL confirmam o padrão. É fundamental excluir causas secundárias: a vitamina D está adequada e a função renal preservada, afastando o hiperparatireoidismo secundário por deficiência de vitamina D ou doença renal crônica. A hipercalcemia hipocalciúrica familiar (HHF) também deve ser lembrada, mas é uma condição benigna, geralmente com calciúria baixa e história familiar; a dosagem de cálcio urinário de 24 horas ajuda a diferenciar, mas não é o passo decisivo quando já há indicação cirúrgica.
A decisão de tratar cirurgicamente o HPTP assintomático segue critérios bem estabelecidos. A presença de osteoporose em qualquer sítio (T-score ≤ -2,5) é uma indicação formal de paratireoidectomia, independentemente da presença de sintomas. Outros critérios incluem: cálcio sérico > 1 mg/dL acima do limite superior da normalidade, calciúria > 400 mg/24h, queda ≥ 30% no clearance de creatinina, idade < 50 anos, e nefrolitíase. A paciente preenche o critério de osteoporose na coluna lombar, o que torna a cirurgia a conduta de escolha. A alternativa E (observação clínica) seria plausível apenas se a paciente fosse assintomática e não tivesse nenhum critério cirúrgico, o que não é o caso.
A localização pré-operatória da lesão é parte essencial do preparo cirúrgico. A ultrassonografia cervical e a cintilografia com sestamibi são os exames de imagem mais utilizados para identificar o adenoma ou a hiperplasia, permitindo ao cirurgião planejar a abordagem. A alternativa D captura exatamente essa sequência: localizar a lesão e programar a cirurgia. As demais alternativas propõem condutas inadequadas para o caso: cinacalcete é reservado para pacientes que não são candidatos à cirurgia ou com hipercalcemia grave; bifosfonatos são usados em estados agudos de hipercalcemia, mas não tratam a causa; e a dosagem de cálcio urinário, embora útil no diagnóstico diferencial, não é o passo que define a conduta quando já há indicação cirúrgica.
Guarde o critério decisivo: no HPTP assintomático, a presença de osteoporose (T-score ≤ -2,5) em qualquer sítio é indicação de paratireoidectomia. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O cinacalcete é um calcimimético que reduz os níveis de PTH e cálcio, mas é indicado para pacientes com carcinoma de paratireoide não ressecável ou com hipercalcemia grave que não são candidatos à cirurgia. Na paciente, que tem indicação cirúrgica clara, o cinacalcete não é a melhor conduta — a cirurgia é curativa e preferível.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Os bifosfonatos inibem a reabsorção óssea e podem ser usados em estados agudos de hipercalcemia, mas não tratam a causa do HPTP (o adenoma). Além disso, ao diminuir a calcemia, aumentam o estímulo para secreção de PTH, o que pode agravar o hiperparatireoidismo. A conduta correta é a cirurgia, não o tratamento medicamentoso isolado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A dosagem de cálcio em urina de 24 horas é útil no diagnóstico diferencial (por exemplo, para distinguir HPTP de hipercalcemia hipocalciúrica familiar), mas não é o passo que define a conduta quando já há indicação cirúrgica. A paciente tem osteoporose, critério formal para paratireoidectomia, e a conduta deve ser a localização da lesão e a programação cirúrgica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A paciente tem HPTP com indicação cirúrgica (osteoporose em coluna lombar). A conduta correta é realizar exames de imagem para localizar a lesão — ultrassonografia cervical e/ou cintilografia com sestamibi — e programar a paratireoidectomia. Essa é a sequência padrão no manejo do HPTP com critérios cirúrgicos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A observação clínica seria adequada apenas para pacientes assintomáticos sem critérios cirúrgicos. A paciente tem osteoporose (T-score -2,5 em coluna lombar), o que é uma indicação formal de paratireoidectomia, independentemente da idade ou da ausência de sintomas. A conduta de observação não é apropriada neste caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "paciente assintomática" e "sem indicação cirúrgica". No HPTP, a ausência de sintomas não exclui a necessidade de cirurgia — a presença de osteoporose (T-score ≤ -2,5) é critério formal, mesmo em pacientes assintomáticos. A alternativa E parece atraente, mas ignora o critério de osteoporose.
Gabarito: letra D — localização da lesão e programação cirúrgica, pois a paciente tem indicação formal de paratireoidectomia por osteoporose.