Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
vu092799
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Clínica Médica
Homem de 65 anos com infecção recente por Enterococcus resistente à vancomicina apresenta quadro de febre e dispneia de início recente, cerca de 2 semanas após o início do tratamento com daptomicina. Ele evolui com insuficiência respiratória aguda que exigiu intubação orotraqueal e ventilação mecânica. O hemograma mostra leucocitose com predominância de neutrófilos. A radiografia de tórax apresenta infiltrados pulmonares bilaterais com derrame pleural. A broncoscopia com lavado broncoalveolar revela 29% de eosinófilos no diferencial do citológico.Considerando a principal hipótese diagnóstica, é correto afirmar que esse paciente
Adeve ser desafiado novamente com daptomicina para confirmar o diagnóstico de pneumonia eosinofílica aguda (PEA) induzida por daptomicina.
Bdeve receber também terapia empírica com ivermectina ou tiabendazol.
Cdeve ser tratado também com corticosteroides.
Ddeve ser submetido à biópsia pulmonar para confirmar o diagnóstico de PEA induzida por daptomicina.
Enão preenche critério para PEA induzida por daptomicina, pois ele não tem eosinofilia periférica.
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GabaritoC — deve ser tratado também com corticosteroides.
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Pneumonia eosinofílica aguda (PEA) induzida por daptomicina
Gabarito: letra C. O paciente apresenta o quadro clássico de pneumonia eosinofílica aguda (PEA) induzida por daptomicina — início agudo de febre e dispneia cerca de 2 semanas após o início do antibiótico, insuficiência respiratória hipoxêmica, infiltrados pulmonares bilaterais e, decisivamente, 29% de eosinófilos no lavado broncoalveolar (LBA). O tratamento de escolha é a suspensão do fármaco e o uso de corticosteroides, que promovem rápida resolução do quadro. As demais alternativas propõem condutas incorretas ou desnecessárias.
A pneumonia eosinofílica aguda é uma doença pulmonar intersticial caracterizada pelo acúmulo de eosinófilos nos alvéolos e no interstício pulmonar, levando a insuficiência respiratória aguda. O diagnóstico é essencialmente clínico-radiológico e laboratorial, sendo o LBA o exame-chave: a presença de mais de 25% de eosinófilos no diferencial do citológico é um dos critérios diagnósticos. No caso, o paciente tem 29%, o que confirma a eosinofilia alveolar. A daptomicina é um antibiótico lipopeptídico usado contra bactérias gram-positivas resistentes, como o Enterococcus resistente à vancomicina (VRE), e é uma causa bem documentada de PEA, especialmente quando usada em doses mais altas. O mecanismo exato não é totalmente compreendido, mas acredita-se que envolva uma reação de hipersensibilidade do tipo imunológica, que pode ocorrer mesmo sem eosinofilia periférica — o que invalida a alternativa E.
O tratamento da PEA induzida por fármacos consiste em suspender o agente causador e administrar corticosteroides sistêmicos (como metilprednisolona ou prednisona). A resposta costuma ser dramática, com melhora clínica e radiológica em poucos dias. Não há necessidade de biópsia pulmonar para confirmar o diagnóstico, pois os critérios clínicos, radiológicos e do LBA são suficientes. Também não se deve desafiar novamente o paciente com a daptomicina, pois isso poderia desencadear uma reação mais grave. E, como a causa é medicamentosa, não há indicação de terapia antiparasitária com ivermectina ou tiabendazol, que seriam consideradas se houvesse suspeita de parasitose — mas o contexto clínico (uso recente de daptomicina) aponta claramente para a etiologia farmacológica.
A distinção mais importante neste caso é entre a PEA e outras causas de infiltrados pulmonares com eosinofilia, como as parasitoses (que cursam com eosinofilia periférica e história epidemiológica compatível) e a pneumonia eosinofílica crônica (que tem evolução mais arrastada). A ausência de eosinofilia periférica não exclui o diagnóstico de PEA, pois a eosinofilia pode estar presente apenas no LBA. A banca explora exatamente essa confusão na alternativa E. Outra pegadinha é a alternativa D, que sugere biópsia pulmonar — um procedimento invasivo e desnecessário quando o LBA já confirma o diagnóstico. A alternativa A, que propõe o re-desafio com daptomicina, é perigosa e antiética, pois poderia causar uma reação mais grave. A alternativa B, com antiparasitários, não tem fundamento no quadro clínico apresentado.
Guarde o critério decisivo: diante de um paciente em uso de daptomicina que desenvolve insuficiência respiratória aguda com infiltrados bilaterais e eosinofilia no LBA (>25%), o diagnóstico é PEA induzida pelo fármaco, e a conduta é suspender o antibiótico e iniciar corticosteroides. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O re-desafio com daptomicina é uma conduta perigosa e contraindicada. Se o paciente já desenvolveu uma reação de hipersensibilidade grave (PEA), a reexposição ao fármaco pode desencadear uma resposta ainda mais intensa, potencialmente fatal. O diagnóstico de PEA induzida por daptomicina já está bem estabelecido pelos critérios clínicos e do LBA, não havendo necessidade de confirmação por reexposição. A conduta correta é a suspensão definitiva do fármaco.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A terapia empírica com ivermectina ou tiabendazol é indicada para o tratamento de parasitoses intestinais ou sistêmicas, como estrongiloidíase. No entanto, o quadro clínico do paciente — início agudo após uso de daptomicina, infiltrados bilaterais e eosinofilia alveolar — é altamente sugestivo de PEA induzida por fármaco, e não de parasitose. Não há história epidemiológica ou outros sinais que justifiquem o uso de antiparasitários. A conduta correta é suspender a daptomicina e iniciar corticosteroides.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O tratamento da PEA induzida por daptomicina consiste na suspensão do fármaco e na administração de corticosteroides sistêmicos. Os corticosteroides (como metilprednisolona ou prednisona) suprimem a resposta inflamatória eosinofílica e promovem rápida resolução do quadro clínico e radiológico. A resposta ao tratamento costuma ser dramática, com melhora em poucos dias. Esta é a conduta padrão-ouro para PEA induzida por medicamentos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A biópsia pulmonar não é necessária para confirmar o diagnóstico de PEA induzida por daptomicina. O diagnóstico é feito com base em critérios clínicos (início agudo, febre, dispneia), radiológicos (infiltrados bilaterais) e laboratoriais (eosinofilia no LBA >25%). A broncoscopia com LBA já foi realizada e confirmou a eosinofilia alveolar, sendo suficiente para o diagnóstico. A biópsia pulmonar é um procedimento invasivo, com riscos de complicações, e só seria considerada em casos de dúvida diagnóstica após investigação não invasiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ausência de eosinofilia periférica não exclui o diagnóstico de PEA induzida por daptomicina. A eosinofilia pode estar presente apenas no LBA, sem se refletir no sangue periférico, especialmente em casos agudos. O critério diagnóstico essencial é a eosinofilia alveolar, que está presente no paciente (29% no LBA). Portanto, o paciente preenche sim os critérios para PEA, e a alternativa está incorreta ao afirmar o contrário.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre eosinofilia periférica e eosinofilia alveolar. Muitos candidatos acham que, sem eosinofilia no sangue, não pode ser PEA — mas o critério diagnóstico é a eosinofilia no LBA, que pode ocorrer isoladamente. Fique atento: na PEA, o LBA é o exame que confirma, não o hemograma.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de PEA induzida por fármacos, memorize o tripé: (1) uso recente do medicamento (daptomicina, nitrofurantoína, etc.), (2) insuficiência respiratória aguda com infiltrados bilaterais, (3) eosinofilia no LBA >25%. A conduta é sempre suspender o fármaco e iniciar corticosteroides. Se a alternativa falar em biópsia, re-desafio ou antiparasitários, descarte na hora.